O tratado do Anônimo de Bolonha prossegue dizendo que para a carta ser completa ela não precisa, necessariamente, conter as cinco partes. Para se abreviar uma missiva, algumas partes podem ser cortadas. “Deve-se notar que a Saudação com a Narração apenas, ou a Petição apenas, constituem uma carta completa; mas com a Captação da benevolência somente, ou apenas com a Conclusão, não se pode ter nada que se assemelhe a uma carta” (ANÔNIMO DE BOLONHA apud TIN, 2005, p.103). Anônimo também trata da mudança da ordem das partes, da gramática e da variação de uma carta.
Neste momento da pesquisa, com uma abordagem qualitativa, sem nenhuma intenção de generalizar os resultados, ao comparar três cartas escritas por telespectadores do programa Globo Rural, com o tratado de Anônimo de Bolonha de 1135, percebeu-se que muitos traços discursivos ainda são mantidos, como se verá nas considerações finais a seguir.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A escrita de cartas se constitui em uma das formas mais antigas de comunicação da humanidade. Há séculos cartas eram uma das poucas maneiras de saber o que acontecia em um lugar distante ou até mesmo de se fechar um negócio. Muitos amores e amizades foram construídos por meio da escrita epistolar. Muitas transações comerciais foram concluídas dependendo apenas do recebimento de uma carta.
Com tantas novas possibilidades de comunicação – telefonia, internet, rádio etc - pode-se pensar que a carta caiu em desuso. Nesta pesquisa foi possível perceber que para muitos brasileiros, a troca de correspondências ainda figura como um importante instrumento de comunicação e troca. Aqui enfocamos as 4.185 cartas recebidas pelo programa televisivo Globo Rural, da TV Globo, em 2005.
A carta é flexível. O seu uso pode variar de forma infinita, mas a sua estrutura permanece quase inalterada, se considerado os antigos tratados epistolares. Durante a pesquisa, quando as estruturas das cartas atuais foram comparadas com os antigos tratados, pode-se perceber que as partes centrais (e essenciais) – pedido e conclusão – permaneceram. Mesmo as cartas tendo conteúdos e formas diferentes entre si. No capítulo quarto abordamos questões relacionadas à estrutura das cartas nos dias de hoje. Para tanto, usando uma amostragem sem validade estatística, foi feita uma análise de momentos narrativos de três cartas escolhidas intencionalmente. Este momento da pesquisa não teve a intenção de generalizar que todas as cartas escritas atualmente seguem a mesma estrutura definida em tratados passados. Mas é interessante saber que estes três telespectadores que escreveram para o Globo Rural em 2005 utilizaram as mesmas estruturas estudadas e definidas há séculos. Também se pode considerar que as cartas que fazem uso de todas as estruturas, a saber: saudação, captação da benevolência, narração, pedido e conclusão; comunicam melhor do que aquelas em que há menos elementos estruturais. Quanto mais completa a carta, melhor é a compreensão. Em cartas em que falta a narração, não se pode compreender por completo o pedido ou entender o contexto em que a carta foi escrita. Mesmo assim, a carta não fica sem sentido. Ela é apenas mais concisa.
Ainda comparando a amostra de cartas recortadas nesta pesquisa com antigos tratados sobre a escrita de cartas, pode-se afirmar que há uma diferença. Este novo elemento não foi detalhadamente descrito por tratados, apesar de poder ser incluído no item da saudação. É o início das missivas seguindo os padrões de cartas comerciais/administrativas, como no caso
da carta de número 58, que logo após a data e o endereçamento “À Globo Rural”, coloca o seguinte: “Ref: PLANTA MEDICINAL”. O uso deste tipo de formalismo na carta só foi introduzido nos manuais de cartas administrativas e comerciais, não tendo sido usado em tratados epistolares da antiguidade.
No capítulo terceiro, enfocamos, em uma abordagem quantitativa o conjunto das cartas recebidas pelo programa Globo Rural. A respeito desses dados algumas considerações podem ser feitas:
1) Se considerarmos o gênero, a maior parte dos missivistas era composta por homens. As mulheres representaram 35% dos telespectadores que mandaram cartas para o programa Globo Rural. Esta proporção seguiu a divisão por gênero que há na zona rural, área que o programa considera como lugar de seu principal público-alvo.
2) Em relação à origem das cartas também não houve nenhuma surpresa, já que as regiões que mais escreveram são exatamente aquelas em que há maior densidade populacional segundo o IBGE.
As surpresas da pesquisa surgiram nos itens auto-identificação e demandas.
3) No item autoidentificação percebeu-se que um grande número de pessoas que aparentemente não tem uma relação com o campo correspondeu-se com o Globo Rural. São pedreiros, porteiros, fotógrafos, merendeiras, presidiários entre outros. Também há um grande número de missivistas que se identificaram como “da cidade”, da área urbana dos municípios. Somando as categorias de pessoas que não tinham uma relação direta com o campo, elas ocupam o terceiro lugar.
Um item interessante a ser comentado é o fato de poucos missivistas terem se identificado como profissionais da área ou trabalhadores rurais. Por ser um programa com temática e público-alvo rurais, imaginou-se no início da pesquisa que estes grupos estariam entre aqueles que mais escrevem ao Globo Rural. Até por este motivo estas categorias de auto-identificação foram definidas de antemão. Foram oito pessoas que se identificaram como profissionais da área e trabalhador rural, praticamente um terço da categoria “outros”, que teve 31 missivistas.
Apenas com esta pesquisa não é possível entender o porquê desta diferença. Uma das possibilidades imaginadas, mas sem nenhuma confirmação, é que o tipo de relação estabelecida na chamada “seção de cartas” do programa é voltada para os produtores rurais - diretamente para o agricultor e agricultora - e não para os chamados profissionais rurais: veterinários, agrônomos, técnicos agrícolas, extensionistas, catadores de laranja, cortadores de cana, safristas, tratoristas etc. A resposta para esta questão da pouca participação dos profissionais da área na troca de correspondências só é possível com uma nova e diferente pesquisa.
Também é necessário relativizar este dado já que há um alto índice de pessoas que não foram identificadas do ponto de vista da sua relação com o campo (33%), pode ser que haja mais trabalhadores rurais e profissionais da área do que foi possível identificar.
4) Em relação ao item das demandas, pode-se dizer que o que mais surpreendeu não foi aquilo que foi escrito e sim o que não foi. Oitenta e seis por cento das cartas enviadas ao Globo Rural em 2005 tinham demandas rurais, a maior parte delas sobre agricultura. Olhando atentamente os pedidos percebe-se que quase não há cartas sobre as “grandes lavouras”, como soja, cana-de-açúcar e também sobre grandes criações, rebanhos de gado de corte etc. Em geral as dúvidas e os pedidos das cartas são sobre: como cuidar dos pomares, problemas com mastite em vacas de leite, cultivo de flores, minhocas, abelhas.
Aqui novamente não é possível fazer nenhuma afirmação do motivo pelo qual o programa receba menos cartas com dúvidas da agricultura e pecuária de grande porte. Uma das hipóteses é que os grandes produtores contam, muitas vezes, com uma assistência especializada própria, com veterinários e agrônomos que trabalham para as fazendas. Já os pequenos e médios produtores dependem do trabalho de extensão rural das secretarias de agricultura municipais e/ou estaduais, ou dos órgãos de assistência como EMATER, EPAGRI, etc.. Como em muitos casos estes profissionais, por diversos motivos, não conseguem dar conta da demanda da região em que trabalham, estes agricultores recorrem a outros meios para resolverem seus problemas.
É neste caso que a seção de cartas entra como uma fonte de solução. O agricultor que nunca escreveu ao programa assiste ao Globo Rural em um domingo e vê que muitas cartas com dúvidas, às vezes as mesmas que ele tem, são respondidas por profissionais da área. Assim ele imagina que pode usar o programa como um intermediário entre o seu problema na
propriedade e a solução que um especialista irá dar. Mas esta é apenas uma das possibilidades para compreender porque há esta diferença nos assuntos da agricultura de grande porte e as outras questões.
Muitas são as questões levantadas por esta pesquisa. Algumas ficarão sem respostas. Mas o que se pode perceber é que a carta, instrumento antigo de comunicação, ainda faz parte do dia-a-dia de muitas pessoas. Este relacionamento “epistolar” entre um programa de televisão e os seus telespectadores traz as mesmas exigências que qualquer outro deste tipo.
A carta é a materialidade deste relacionamento. É o elo que une o programa e o telespectador. A carta sempre foi um instrumento para diminuir as distâncias. Através da materialidade da carta: papel, envelope, texto escrito, sabe-se mais um pouco um do outro. O programa pode conhecer melhor uma parte de seus telespectadores e os telespectadores se aproximam de certa forma do Globo Rural.
Este elo, a carta, produz um relacionamento que podemos considerar que tem mão dupla nas funções de serviço e de interação. Do ponto de vista do serviço, podemos dizer que o programa responde às dúvidas dos telespectadores e os ajuda com questões básicas do seu dia-a-dia. Ao mesmo tempo em que os telespectadores missivistas prestam um serviço ao programa ao fornecer informações sobre o que eles pensam, sobre possíveis novas pautas.
A interação existe quando o programa e o telespectador constroem um relacionamento em que há uma exigência de reciprocidade. O telespectador que escreve deseja ser respondido, neste caso de duas formas: por carta e também com matéria no programa Globo Rural. O telespectador participa - de maneira limitada pelos editores do programa e pelo modus operandi do meio de comunicação que é televisão - da construção de parte das matérias com sugestões e perguntas. E o programa também espera uma resposta, seja na audiência, ou em mais cartas.
Com a expansão do alcance da internet e das tecnologias nas áreas rurais, cada vez mais é comum o uso dos e- mails no campo. Em 2008, as cartas já representavam apenas 10% do volume de e-mails recebidos pelo programa Globo Rural. No entanto, é difícil imaginar que as cartas desapareçam por completo. Sempre haverá quem prefira pegar um papel, uma caneta e escrever de próprio punho um texto tendo em mente um destinatário específico.
Quem sabe a continuação desta pesquisa, em um estudo futuro, seja a análise de como é a arte de escrever emails e se estes emails ainda mantêm alguma característica descrita nos antigos tratados epistolares.
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