• Nenhum resultado encontrado

Sobre o processo de construção da pesquisa e do problema

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE (páginas 33-37)

Desde os primeiros contatos com o Taim, alguns antes mesmos do início da pesquisa, foram feitas algumas coletas de dados através de reportagens de jornais locais, conversas informais com moradores e alunos das escolas da região e fotografias. Estes contatos e trabalhos exploratórios foram importantes para a formulação das ideias gerais da pesquisa e orientaram os desdobramentos iniciais de coleta de dados.

Em um primeiro momento, o que nos provocou algumas indagações foi a imagem que marca a BR 471 que atravessa o Taim: As placas de responsabilidade ambiental dos

empreendimentos (Figura 1). Mais do que uma exigência da FEPAM estas placas são

símbolos de uma chancela de produção dos “empreendedores ambientalmente responsáveis”.

Pois, como disse nosso companheiro de pesquisa “eles são bem fiscalizados né, tu pode ver que tem até as placas [...]”.

Ajudou, também neste processo, nossa participação nas consultas públicas de ampliação da ESEC, realizadas nos dias 16 e 17 de outubro de 2013 sendo a primeira em Rio Grande no auditório CIDEC-SUL da FURG e a segunda na Câmara de Vereadores de Santa Vitória do Palmar. Ambas registradas pelo Observatório de Conflitos do Extremo Sul do Brasil. Neste espaço pudemos constatar que há uma arena conflitiva que os envolvidos transitam de lados, aliando-se, afastando-se e recorrendo às ferramentas que cada um tem a disposição (Associações, parcerias políticas partidárias etc.). Por exemplo, a fala do proprietário de uma granja, em entrevista para um jornal local, exemplifica como determinado

Fonte: produzido pelo autor

grupo interpretava a questão na época: “Nós não temos medo da preservação como vai ser

feita, desde uma vez que seja organizada e com a participação dos produtores21” (GLOBO,

2013, grifo nosso).

Isto nos permite ver que mesmo os gestores do ICMBIO afirmando que as consultas públicas foram um trabalho “muito bem feito”, pois os diferentes atores entraram em

consenso, as políticas de preservação ao formalizarem um campo que coloca em jogo valores

culturais, interesses políticos e econômicos e questões de trabalho e renda divergentes entre os diferentes grupos que constituem o território, cria um cenário de conflitos e/ou tensões

explícitos ou latentes atravessadas pelos processos de ambientalização.

Neste sentido, a ideia de uma única visão, a de que todos estão cooperando para a “preservação da natureza” ou esteja sendo construída uma “harmonização das práticas

agropecuárias com a preservação do meio ambiente e os interesses da ESEC22”, consegue ser

sustentada até o momento em que esta “cooperação” não toque na produção, leia-se, lucro dos empresários locais.

Outro fato que notamos em nossas visitas exploratórias é que os jovens moradores locais, muitos vivendo em uma realidade socialmente precarizada, no que diz respeito ao acesso a educação, moradia, trabalho, mobilidade e etc. tinham, aparentemente, na ponta da língua o discurso consensual de que eram responsáveis pela “preservação da natureza” e por isso todos precisavam se adaptar as regras da ESEC em nome da preservação do meio ambiente. É claro que aqui não estamos desconsiderando a capacidade crítica das crianças e dos jovens, mas é importante destacar que devido às circunstâncias dadas pela presença de um pesquisador (até então desconhecido e biólogo), a maioria dos diálogos era neste sentido. Por outro lado, tais afirmações podem ser entendidas como uma prática de defesa de pessoas que são experts em pesquisadores, ongueiros e gestores.

Deste modo, ao replicar o discurso consensual próprio dos projetos de EA, os alunos/alunas se apropriam da referência cosmológica e moral que lhe é imposta sem necessariamente admitirem como sua. A mesma estratégia discursiva se repete com os moradores mais antigos, que vivenciaram episódios de violência - seja ela simbólica ou não – como pudemos ver no diálogo inicial.

21

Disponível em: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/11/ampliacao-da-reserva-ecologica-do-taim-gera-polemica.html Último acesso: 13/01/2016.

22

Percebe-se então que há um tratamento distinto para os diferentes grupos. Para os empresários a busca de consenso e soluções que “harmonizem” suas práticas com os interesses de preservação da ESEC, mesmo se tais atividades forem dispersão intensiva de agrotóxico por pulverização próxima à UC, ou criação de gado dentro do banhado (Figura 2).

Já para os moradores locais as restrições, as fiscalizações, as penalizações, por cortar uma árvore nativa dento do seu próprio pátio, por exemplo, são combinadas com os projetos destinados a eles, como os projetos de extensão oferecidos pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – EMATER, ou projetos socioambientais por ONGs locais.

A partir do que foi exposto acima, construímos a hipótese de que a ESEC como o

órgão de materialidade de uma política de preservação junto com outras instituições como a FURG, o 3º setor (ONGs responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos de Educação Ambiental da ESEC) desconsiderando o cenário de desigualdade ambiental que compõe a região e destinando projetos socioambientais pautados em “mudanças de valores culturais”

aos atingidos por estas políticas, produzem um processo de ecologização dos moradores do

Fonte: produzido pelo autor

TAIM. Estes projetos possuem dois papéis principais 1) o de “harmonizar” conflitos e 2) o de justificar as ações da ESEC como “participativas”.

Sendo assim, além das questões acima destacadas como questão geral e secundárias da pesquisa, sentimos a necessidade de listar algumas ações a serem realizadas para dar conta no caminhar da pesquisa, são elas: 1) Mapear as diferentes formas de apropriação do território e investigar as mudanças nas práticas territoriais decorrentes da relação dos grupos entre si e da relação que estes estabelecem com as políticas de preservação; 2) Identificar a manifestação de tensões ou conflitos latentes nos discursos das populações Atingidas por políticas de preservação; 3) A partir da desigualdade ambiental, problematizar o papel assumido pelos projetos socioambientais, incluindo a Educação Ambiental, e as suas produções simbólicas.

Os passos a seguir que serão detalhados, são desdobramentos das questões de pesquisa e da hipótese anunciada ao decorrer da pesquisa e do próprio relatório que aqui estou apresentando como resultado e exposição da mesma.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE (páginas 33-37)