1 VISITANDO A LITERATURA
1.4 Sobre reincidências e outras histórias
Só porque alguém tropeça e perde o caminho não significa que se perdeu para sempre.
Professor Charles Xavier10
Junto à ineficácia do acompanhamento ao egresso, apresentada anteriormente, temos também a inexistência de dados realísticos sobre a reincidência infracional no Brasil.
A maior parte dos dados referentes à reincidência se pauta em levantamentos realizados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ, 2011a; 2011b; 2012), pelas próprias unidades socioeducativas, por Varas da Infância e Juventude, por Secretarias ligadas ao sistema socioeducativo ou prisional, ou ainda, informações disponíveis em reportagens e sites institucionais, sendo que os relatórios oficiais ainda são publicações escassas.
Não existe um levantamento nacional sobre esta temática, tampouco um sistema integrado de informações que possa dar conta de índices mais realistas sobre a questão. São inexistentes dados, por exemplo, sobre quantos jovens cumprindo algum tipo de pena passaram pelo sistema socioeducativo, ou seja, após terem sido liberados das medidas socioeducativas, cometeram novos crimes e passaram a fazer parte do sistema prisional, por terem mais de 18 anos. Este levantamento é feito, na maioria dos Estados, de forma informal, no momento da entrada do jovem nas instituições prisionais, quando são questionados sobre seu histórico infracional, sendo assim, cabe ao mesmo contar, ou não, se já esteve cumprindo alguma medida socioeducativa anteriormente, informações prestadas que nem sempre são verdadeiras.
Alguns Estados buscam conhecer os números, no entanto, estes ainda são muito incipientes, não podendo ser considerados fidedignos, já que se pautam apenas em dados de adolescentes ou jovens que reincidem e voltam a cumprir medidas socioeducativas ou penas, mas que não abarcam adolescentes que não voltaram a infracionar ou que vieram a óbito após sua liberação. Outros estudos buscam abarcar um leque maior de informações sobre os egressos e, com isso, alcançam melhores informações sobre a reincidência infracional.
A partir dos levantamentos existentes no país, o Informe Regional del Desarollo Humano (PNUD, 2013), aponta que o Brasil teve em 2013, uma taxa de 47,4% de reincidência, ficando à frente de países como a Argentina (38,6) e México (29,7), com mais que o dobro do percentual apresentado pelo Peru (15,8) e o quádruplo, em relação a El Salvador (10,4), ficando atrás apenas do Chile (68,7).
Um destes levantamentos foi uma pesquisa realizada no Distrito Federal (SEAT- VEMSE, 2016) que teve como objetivo avaliar a eficácia do atendimento do sistema socioeducativo, baseando-se em dados obtidos sobre 283 egressos de uma unidade de privação de liberdade, liberados entre janeiro de 2011 e agosto de 2013, após 12 meses subsequentes à liberação.
Conforme os resultados apresentados pelo estudo (SEAT-VEMSE, 2016), o tempo médio para a reincidência foi de 11 meses para atos envolvendo óbito (tentado ou consumado) e de seis meses para os demais delitos. Sendo que houve uma tendência maior ao cometimento de novos delitos, diferentes do primeiro ato praticado. Por exemplo, dos 85 adolescentes que cumpriram MSEI por ato que envolveu a morte da vítima, 49% reincidiram, no entanto, 90% destes novos atos praticados não envolveram homicídio.
A pesquisa revelou que o tempo de internação não é um fator determinante na recidiva infracional, já que, entre os adolescentes que ficaram internados um tempo médio de um ano e meio a dois anos, a taxa de reincidência foi de 53,4% (SEAT-VEMSE, 2016). Os egressos voltaram ou não a reincidir por razões que não estão diretamente relacionadas ao tempo de privação de liberdade. Os técnicos que realizaram o estudo referem sobre o pensamento social que relaciona prisão à diminuição da criminalidade e, principalmente, da reincidência, pensamento este, apoiado na expectativa de que a sanção como uma consequência direta, além de seus aspectos indiretos, não se faz suficiente para modificar o comportamento infracional (SEAT-VEMSE, 2016).
Outro fator apontado pelo estudo se refere à relação entre vivência infracional e reincidência, demonstrando que os adolescentes que reincidiram tinham, em média, um histórico maior de registros infracionais do que os não-reincidentes. Os resultados apontam a possibilidade de a reincidência ser maior entre adolescentes que apresentam vivência infracional mais intensa, pautando-se em estudos sobre o comportamento que evidenciam que a precocidade, atrelada ao histórico, e a constância em comportamentos antissociais, são fatores de risco associados à reincidência infracional, além de outros, também apontados pela literatura, como o grupo de pertença ser associado à prática delituosa, bem como, as crenças e as atitudes atreladas ao comportamento antissocial (SEAT-VEMSE, 2016).
Em levantamento realizado por Davoglio e Gauer (2011) com adolescentes internos, 20,5% revelaram ser reincidentes e estavam em MSEI pela segunda vez e 7,2% relataram ter entre três e cinco passagens pela FASE.
Investigação realizada por Marcheui citada por Wacquant (2004), em sete presídios da França, demonstra que as trajetórias carcerárias dos apenados podem ser descritas como
uma seqüência de choques e de rupturas comandadas, por um lado, pelo imperativo de segurança interna do estabelecimento, por outro, pelas exigências e os editos do aparelho judiciário, que escandem uma descida programada na escala da indigência - descida tanto mais abrupta quanto mais o detento é pobre na saída (Wacquant, 2004, p.144, tradução livre da autora).
O estudo realizado pelo SEAT-VEMSE (2016) demonstra que o endurecimento das punições não torna a medida imposta mais eficaz, mas que acertar na proporção da medida em virtude do ato cometido, bem como oferecer serviços adequados pode ser um caminho possível para evitar a reincidência, e não o contrário, como o discurso social tem proclamado (SEAT-VEMSE, 2016).
A pesquisa salienta, ainda, que modelos implantados em outros países demonstram que o acompanhamento ao egresso, através de programas que visam gerenciar o risco de reincidência, tende a diminui-la. Segundo os pesquisadores, o sistema socioeducativo brasileiro pauta-se na proteção, na garantia de acesso aos direitos básicos, entre eles a escolarização e profissionalização, porém, não analisa e/ou trabalha os fatores de risco que levaram o adolescente à infracionar, ações essenciais quando se busca a prevenção da reincidência (SEAT-VEMSE, 2016).
Segundo dados do Estado de São Paulo11, após a implementação da Fundação Casa, a reincidência tem diminuído, devido, principalmente, à regionalização. A municipalização começou em 2006, no Estado de São Paulo, com a construção de unidades de internação no interior e no litoral. Segundo informações da Fundação Casa, naquele ano, o índice de reincidência era de 29%. A partir de 2006, a entidade tem verificado a queda deste índice, sendo que foi de 19% em 2007, chegando a 12,8% em 2010. A Fundação Casa informa em seu site que em 2014 o índice de reincidência entre adolescentes que cumpriram a MSEI foi cerca de 15%12.
Os índices apresentados pela Fundação demonstram que a descentralização prevista na legislação (Brasil, 2012) é fator importante quando o tema é a recidiva infracional. Unidades menores, que possibilitam um melhor acompanhamento dos adolescentes internos e de seus familiares, tanto em relação à estrutura física, como pedagógica e psicossocial, tem sido fatores que vêm contribuindo para a diminuição da reincidência nos estados que tem cumprido esta determinação legal de atender o adolescente o mais próximo possível de sua cidade de origem (Souza, 2011).
Contudo, o Ministério Público de São Paulo questionou estas informações e monitorou os dados sobre a prática infracional por oito meses, contabilizando um índice de 34% de adolescentes que cometeram atos infracionais. No entanto, este valor equivale a todos os adolescentes envolvidos em infrações, mesmo que não tenham cumprido MSEI. Entre os que estiveram privados de liberdade, segundo informações do MP, 50,5% voltaram a infracionar. Fato que pode demonstrar a ineficiência da medida de internação (Truffi, 2015).
11 Informações disponíveis em http://www.casa.sp.gov.br/site/noticias.php?cod=2829, acessado em Março de
2017.
12 Informações disponíveis em http://www.fundacaocasa.sp.gov.br/View.aspx?title=a-
Ainda segundo o Ministério Público (MP) paulista, o que a Fundação Casa divulga como reincidência é uma suposta reiteração na medida de internação, porém, para o MP, o verdadeiro índice de reincidência deve ser contabilizado pelos adolescentes que praticaram um ato infracional após ser julgado pela prática de infração anterior, mesmo que não tenham sido condenados à MSEI. No entanto, a presidência da Fundação Casa questiona a cientificidade metodológica do relatório produzido pelo MP (Truffi, 2015).
Segundo dados de um levantamento realizado pelo Poder Judiciário de Mato Grosso, em 2013, sobre o Complexo Socioeducativo Pomeri, de Cuiabá, 71% dos adolescentes voltaram a cometer atos infracionais após o cumprimento de medidas socioeducativas. Os dados, segundo alguns profissionais da área, demonstram que os adolescentes não estão sendo, de fato, “recuperados”, devido a inúmeros fatores, como a precária estrutura socioeducativa, as questões familiares, a evasão escolar (CNJ, 2013).
Segundo dados do Pronto Atendimento (PA) da FUNDAC (Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CECA), 2015), 2245 adolescentes foram atendidos pelo serviço em 2014, destes, cerca de 30% eram reincidentes, ou seja, estavam sendo novamente atendidos pelo PA, embora possam não ter cumprido MSEI anteriormente, tendo recebido remissão ou cumprimento de medidas em meio aberto. Dentre os adolescentes atendidos em 2009, 66,22% relataram não frequentar a escola no momento da apreensão e 88,55% informaram estar (ou ter cursado) no ensino fundamental, o que revela, novamente, a defasagem escolar que permeia a vida destes adolescentes, sendo que apenas dois estavam inseridos no ensino superior (CECA, 2011).
Para os profissionais que atuam no Judiciário de Mato Grosso, se faz necessário um trabalho preventivo, antes e depois do cumprimento das medidas socioeducativas, através de abordagens que envolvam a vida escolar e o encaminhamento destes adolescentes às entidades que possam dar acompanhamento em saúde física, mental e social, como os Centros de Referência de Assistência Social – CRAS e os Centros de Referência Especial de Assistência Social - CREAS, para o adolescente e sua família. Para eles, outro caminho é a construção de unidades de medidas em meio aberto, ampliando a rede de entidades que acolham estes adolescentes em sua própria comunidade (CNJ, 2013).
Para se tentar um acompanhamento mais sistemático e dados confiáveis, foi implantando, em 2009, o Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei (CNACL), que é um sistema desenvolvido para que os Magistrados possam acompanhar, de forma mais efetiva, os adolescentes envolvidos no cometimento de atos infracionais. Trata-se
de um banco de dados nacional, que poderá ser consultado em todo o país, de forma a identificar o histórico infracional dos adolescentes, unificando, desta forma, a situação de cumprimento de medidas socioeducativas. Este sistema tem como principal objetivo acompanhar a vida infracional e o perfil do adolescente que o comete, podendo auxiliar na construção de dados sobre a reincidência e programas voltados à prevenção do envolvimento infracional ou de sua continuidade (Fernandes & Cordeiro, 2014). No entanto, este sistema ainda não está completamente implantando, o que mantém a inconfiabilidade das informações.
Neste sentido, podemos destacar que não apenas o cenário prisional influencia na recidiva infracional, mas, se junta a isso, os programas de socioeducação ineficientes, as condições penais precárias, as redes criminosas existentes nos sistema prisional, fatores que se relacionam negativamente, reproduzindo a violência e a criminalidade (PNUD, 2013).
A reincidência é um critério importante para se medir o rompimento com a vida infracional e, principalmente, se o trabalho socioeducativo cumpre seu papel, à medida que seja bem sucedido em sua contribuição para a diminuição das taxas de reincidência. Alguns estudos apontam para a importância de se instituir programas de acompanhamento aos egressos com vistas a esta diminuição (SEAT-VEMSE, 2016).