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2. A Gira do Saber

2.1 Sobre Travessias e Tessituras

A pesquisa acadêmica foi iniciada em abril de 2017 e concluída em julho de 2019 compreendendo os atravessamentos metodológicos, das artes às ciências sociais, como significativas estruturas de aporte à pesquisa.

A estruturação da pesquisa compreende três extensões: a produção acadêmica escrita, apresentada e selecionada em forma de capítulos; um documentário manifesto para a exposição e apreciação do campo das experiências registradas em sensações imagéticas e diálogos fluxos de vozes femininas em atividades de campo; e por fim, a apresentação da obra artística produto de uma escrita política incorporada: ARTvismo Feminista como proposta estratégica e política na Dança de Guerra.

Esta pesquisa dialoga com duas propostas metodológicas alternativas ao se valer da

Prática como pesquisa contemplando os processos de criação em dança e a escrita na área das

Artes. São elas: Jogo da Construção Poética (MACHADO, 2017) e a Prática como pesquisa, numa abordagem da Encarnação - a escrita coreográfica como metodologia de escrita incorporada (ULMER, 2015, p.02), configurando os atravessamentos metodológicos que nortearam a pesquisa, porém sem se prender com rigor aos seus parâmetros e limites.

Esses estudos transculturais em dança culminaram na criação traçada pelo jogo (MACHADO, 2017), considerando a construção poética como signo articulador das temáticas numa perspectiva de arte. Segundo Machado, sobre os estudos do jogo de Johan Huizinga, nessa proposta metodológica:

O estudo do jogo surge como elemento da cultura. O autor discute a natureza e o significado do jogo como fenômeno cultural, descrevendo suas características fundamentais, como a liberdade, a evasão da vida real, o isolamento, a limitação, a ordem e a tradição. (MACHADO, 2017, p.64). Visto que, as experiências nos bailes e na ginga perpassam a minha história de corpo, em uma ação continuada e iniciada desde a primeira infância com Dança Moderna, produções musicais, apresentações artísticas relacionadas às manifestações culturais de matriz africana, e manutenção da prática da capoeira, de forma contínua e constante desde 2015.

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Inevitável não trazer a mim mesma para a pesquisa criando correlações e reconhecendo privilégios- sou um corpo de mulher branca de classe média, pesquisadora, artista. Eu sou a minha própria pesquisa fortalecida e transcrita pelas narrativas corporais e discurso político de mulheres, índias, negras, brancas, latino-americanas dialogando com as Danças no Jogo da

Construção Poética que traz em si valores das populações tradicionais assim como

compreende como objetivo maior a formação do ser humano.

No prefácio do livro Danças no Jogo da Construção Poética de MACHADO (2017), Inaicyra Falcão esclarece que a proposta metodológica entende o corpo “como eixo central, investigando a si mesmo para perpassar pelos corpos no campo de pesquisa e, enfim, retornar para o intérprete em cena”.

Confabulando com outros autores, fundamenta-se na capoeira, nas manifestações populares africano-brasileiras, nas histórias dos envolvidos e, ainda, nas pesquisas de campo desenvolvidas em diferentes comunidades, desvendando uma dimensão corporal criativa a partir da cultura popular. (MACHADO, 2017. Prefácio 1).

É a possibilidade de criar pontes epistemológicas entre o movimento sinestésico e a linguagem verbal. A complexidade do tema é entendida na transversalidade e fluxos das camadas sociais envolvidas. Por isso a pesquisa se ancora no pensamento feminista, acessando algumas teorias feministas, principalmente a Teoria da Interseccionalidade (NOGUEIRA, 2017).

Carla Akotirene nos fala da impossibilidade de produzir pesquisas feministas sem aportar a uma abordagem interseccional, onde a Interseccionalidade é uma ferramenta teórica e metodológica usada para pensar a “inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteteropatriarcado – produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais”. (AKOTIRENE, 2019, p.19).

Nas palavras da autora, os estudos sobre Interseccionalidade numa linguagem decolonial desenvolvida na Coleção Feminismos Plurais:

Trata-se de uma oferenda analítica preparada pelas mulheres negras. Conceitualmente, a Interseccionalidade foi cunhada pela jurista estadunidense Kimberlé Crenshaw, no âmbito das leis antidiscriminação, aportada na teoria crítica de raça. Ela desenvolveu o conceito visando explicar a inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, bem como as articulações decorrentes daí, que imbricadas repetidas vezes colocam as mulheres negras mais expostas e vulneráveis aos trânsitos destas estruturas. Interseccionalidade não é sobre

quantas identidades uma pessoa tem!! É sobre matriz de poder colonial que cria e dificulta o trânsito das identidades lidas na categoria “Outros” 31

. Ainda recorrendo a Kimberlé Crenschaw, “a interseccionalidade permite-nos enxergar a colisão das estruturas, a interação simultânea das avenidas identitárias, além do fracasso do feminismo em contemplar mulheres negras, já que reproduz o racismo. Igualmente, o

movimento negro falha pelo caráter machista, oferece ferramentas metodológicas reservadas ás experiências apenas do homem negro” (AKOTIRENE, 2019, p.19).

Pensar essa inseparabilidade é também nos aproximar das lutas antirracistas e

antissexistas levantadas nos espaços de aprendizagens do Grupo Nzinga de Capoeira Angola, oportunizando igualitariamente o acesso aos conhecimentos específicos como o aprendizado e o manejo do toque do berimbau em treinos e rodas, assim como no respeito ao corpo,

sobretudo o corpo da mulher, negociando em roda a desconstrução de lógicas machistas e misóginas, deixando lugar para corporeidades criativas, inovadores e libertárias configurando- se como:

Sendo um espaço de trocas intensas, é na roda que valores são negociados, que estratégias são refeitas/desfeitas, atribuindo sentido e significados aos processos comunicacionais que estruturam pela oralidade, os acervos dos tempos que aí se funde, se interpenetram. (ARAÚJO, 2016, apud NAVARRO, 2017, p.109)

Ao pensar o entrelace dos corpos no jogo de pergunta-resposta encontrado na capoeira e jogos teatrais, a investigação criativa pretendia identificar possíveis atritos e alimentar prováveis fricções, “por perspectivas teóricas e epistemológicas enraizadas na encarnação ao tentar encontrar novos modos de não apenas escrever sobre sua prática, mas também escrever em um estilo que talvez esteja mais alinhado com o espírito criativo da dança. Aumenta nossa compreensão também de como as teorias e filosofias são acionadas como conteúdo relevante no contexto da prática como pesquisa” (BARRETT; BOLT, 2007, p.6).

Para esses estudos, trazemos a ideia de “Encarnação” quando a escrita se torna corporificada, sem esquecer, no entanto, que ele (o corpo) já o é anteriormente. Entendendo no corpo que dança cada lugar de potencialidade, afetado pela escrita e experienciado nos laboratórios de investigação criativa em desdobramentos que adentram os campos físico, psíquico e poético enquanto escrita corporal.

Essa não é uma tarefa simples, pois enquanto a dança se faz dinâmica nos corpos que dançam, as palavras se eternizam no papel, em estado estático.

31 Vide blog pessoal @carlaakotirene. Disponível em: https://www.instagram.com/carlaakotirene/?hl=pt-br .

Cada vez que leio meus escritos, busco imensamente poder ler essa desejável dança das palavras frases, textos e histórias. (MACHADO, 2017, p.26) Vale ressaltar também a importância primorosa da “subjetividade artística nos momentos iniciais da criação, e o desejo de pesquisar para além do sucesso ou do fracasso” (ROYO, 2015, p. 01), onde a experiência e o conhecimento imprevisível não dimensionado anteriormente são mais valorosos que a elaboração de “hipóteses em graus variáveis de certeza desde o começo” (ROYO, 2015, p. 10).

Enquanto se “caminha o caminho”, as valises de pensamentos se abrem pelos territórios incrustados e variáveis que circundam o meu plano de composição artístico. É sobre a experiência de corpo e a experiência é uma troca com o outro e/ou com o ambiente. E para muito além da natureza da pesquisa, as experiências da vida ensinam a ter cautela sobre a criação de verdades absolutas. Além da necessidade de entrar em crise e renascer como potência transformadora de realidade. Nesse instante, onde estou no processo? Como as vozes ressoam os reclames e insurgências sobre e com meu corpo artístico? Como a observadora, observa o que observa? É sobre vida, sobre aquilo que fica, perpassa. Transpassa.

Bênção-Reza-Quebranto

O que não é seu, não permita que entre na sua casa. Aquilo que for do outro, não permita que te atravesse. Desvie-se daquilo que não te pertence, ainda que pareça bom jogo. Defenda sua morada, seu templo, sua paz. No meu lar, entre para acrescentar. Tenho corpo fechado, lugar

de encontro com o sagrado32.

2.2 Os fios das redes e das rodas tecedoras de experiências criativas e a temporalidade dos