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Sobre o Valor das Águas da Bacia do Prata

3 ANÁLISES DAS POLÍTICAS FLORESTAIS PROTETORAS

3.3 A COMPREENSÃO DE VALORES AMBIENTAIS

3.3.1. Sobre o Valor das Águas da Bacia do Prata

A dependência dos povos aos rios como fonte de boa fortuna – safras pródigas – ou de desgraças – inundações e estiagem que levaram os períodos de fome – levou a que muitos povos lhes atribuíssem poderes divinos, como os relacionados à fecundidade (Osíris, da mitologia egípcia), à purificação (batismos no rio Jordão, em Israel), e às maldições e bênçãos próprias das filosofias animistas. Rodrigues da Silva (1998) bem destacou esse papel fundamental dos rios para as sociedades antigas, aos quais lhe “asseguraram a ‘coerência civilizadora’ através da organização religiosa e administrativa que, vinculadas à função agrária e alimentar, determinaram as ações sobre a água, integrando-as de maneira complexa a outras técnicas, através de um conjunto de ritos e mitos”.

Também são consideráveis as influências dos rios sobre a política, vinculadas com períodos de ascensões e decadências dos povos. A estiagem do Tigre e Eufrates parece ter sido decisiva na extinção da civilização acadiana. Schama (1996) relacionou as longas estiagens do Nilo em fins de 3.000 AC, que secaram seus pântanos marginais e do delta, com tempos de anarquia e banditismo com intensidade tal que determinaram a substituição de faraós.

Teriam as águas ainda força, originada na sua escassez natural ou derivada de maus usos, para motivar conflitos entre nações que delas necessitam para suprir suas necessidades? Este risco apesar de sua gravidade é bem atual: organismos da ONU identificaram cerca de 300 regiões com grandes possibilidades de conflitos por motivos de origem hídrica, das quais se destacam o Oriente Médio e a bacia do rio Nilo, na África.

Notícias recentes divulgadas informam que governos de dez países situados na bacia do rio Nilo realizaram um encontro emergencial em Uganda, para tratar das tensões que se instalaram depois que a Tanzânia iniciou a construção de uma adutora naquele rio, visando a atender um milhão de famílias. Consta que o governo egípcio chegou a considerar a possibilidade de ir à guerra se outros países tentassem alterar o regime do Nilo, reduzindo a quota de água que deriva para aquele país (AQUAONLINE, 2004)

Dados das Nações Unidas informam que a humanidade já está utilizando 54% de toda a água doce acessível, a saber, a dos rios, lagos e aqüíferos (MATERNATURA 2004). Nesta progressão, calcula-se que até o ano de 2030 estarão sendo empregadas 90% das águas doces disponíveis no planeta. Como a distribuição planetária destas é irregular, as previsões do IWMI - International Water Management Institute, são de que no ano de 2025 cerca de 1,8 bilhões de pessoas, mais de 30% da população mundial deverão viver em absoluta escassez de águas potáveis. Esta escassez não decorrerá somente do esgotamento contínuo dos mananciais, notadamente para a produção de grãos, mas também da conspurcação hídrica.

Ante este quadro sombrio cabe lembrar que a América do Sul é o continente mais irrigado do Planeta. Do total das águas doces que fluem em todos os rios da Terra, 26,73% localizam-se neste continente. Os rios brasileiros vertem 11,6% de toda a água doce do mundo, destacando-se neste contexto geográfico, o Amazonas, que contém 70% daquelas águas, relativamente inaccessíveis aos usos dos brasileiros, já que apenas 7% da população brasileira vive naquela região.

O segundo maior rio brasileiro, em volume, é o Paraná, situado no coração do MERCOSUL, cuja bacia drena as águas precipitadas em todos os paises que compõem aquele Bloco. O volume das águas vertidas deste rio, da ordem de 850 Km3 o posiciona em 4º lugar dentre as maiores bacias mundiais e 9º entre as de maior vazão (GAIA, 1984). Por isto já se constitui um patrimônio hídrico importante e com enorme potencial de valorização, na medida em que se escassearem os mananciais planetários de águas, notadamente dos utilizados para fins agrários.

O rio Paraná carreia carga significativa de efluentes gerados nos maiores centros industriais e urbanos de vasta extensão do Brasil, desde suas capitais: São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba, ademais das centenas de cidades interioranas brasileiras. Agregue-se a esta contribuição brasileira, ainda que em bem menor grau, também as do Paraguai, Argentina e Uruguai. Estudos realizados pela ITAIPU Binacional revelam que a carga de sedimentos, derivada tanto de mau uso dos solos como pela falta de florestas protetoras estão contribuindo de forma significativa para o assoreamento dos rios que formam a bacia de captação daquela Barragem e, em algum tempo, afetarão a vida útil daquele empreendimento (ITAIPU, 1980).

Como se não bastasse ao Bloco do MERCOSUL ter sido constituído sobre a Bacia Platina aquele se localiza, ainda, sobre o maior depósito mundial conhecido de águas subterrâneas, cognominado Aqüífero Guarani. Com volume da ordem de 45 mil Km3 (ou 45 trilhões de metros cúbicos), considerando uma espessura média aqüífera de 250m e

porosidade efetiva de 15%, reserva águas potáveis certamente úteis para muitas necessidades futuras desta parcela da humanidade nas próximas décadas. Isto ocorrerá desde que sejam implantados, na geografia de sua área de recarga, cuidados relativos aos os usos das terras, compatíveis e orientados para a proteção daquele patrimônio hídrico.

Justamente essas águas da Bacia do Prata apresentam evidências de crescente alteração derivada de usos nocivos aos solos e às próprias águas fluindo ao longo de fronteiras internacionais. Patrimônio hídrico de valor inestimável para o futuro da humanidade, capaz de afastar deste Continente o espectro da escassez e fome que ronda centenas de regiões planetárias.

Conseguirão as Nações, abençoadas por esta abundância de águas preservarem adequadamente as condições para a conservação deste patrimônio natural? Evidentemente este resultado dependerá da adoção de um imediato conjunto de medidas, estabelecidas por políticas ambientais condizentes com a escala daquele recurso hídrico, com abrangência transnacional compatível com os limites do Bloco do MERCOSUL, a quem aquelas águas servirão preponderantemente para o desenvolvimento econômico e social dos povos dessas Nações.

Políticas ambientais na mesa dos mercadores têm sido vistas como instrumentos inerentes à qualidade, logo, ao preço dos produtos negociados. Estas ainda não tem tratado explicitamente do maior recurso natural desta região continental, qual seja, a disponibilidade de água doce, mesmo diante das previsões catastróficas relativas à escassez planetária de águas doces, prenunciadas para as próximas duas décadas. Não obstante, a cada vez maior presença de organismos internacionais do Hemisfério Norte, justamente na região das três fronteiras não pode passar despercebida deste contexto.

Fatores de origem natural, mas principalmente antrópica têm afetado a qualidade e o volume dessa disponibilidade, ao conspurcar a qualidade do recurso hídrico, bem como a intensificação da produção agrária que está se concentrando nas terras desta Bacia, afetam os volumes das águas que, antes, fluíam livremente.

Mas a quantidade ou volume de águas disponibilizadas dependerá dos usos das terras que recebem as águas, ou seja, dos usos consuntivos, diretos e indiretos decorrentes.

Reconhecendo esta preponderância, é notável – e isto há que se propagar às câmaras decisórias - a importância das florestas protetoras no equilíbrio hídrico desta vasta região continental.