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42 Sobre a voz moral vejam as Notas Complementares, no final.

No documento Leitura de Proust 2 Por Jacob (J.) Lumier (páginas 87-93)

43 Já assinalamos a derivação direta do tema do sofrimento como pro- veniente do próprio modo de ser do artista, personificado no narrador como elemento da figura trágica, inseparável da "impossibilidade na posse do outro", núcleo da tragédia de Albertine.

A visão de Albertine surge em perspectiva não só no mundo da infância e adolescência do narrador, mas alcança o mundo adulto da sociedade dos salões e seu contraste.

Para-além das metáforas sobre os personagens, nes- se texto se trata sim da figura das relações entre o nar- rador e Albertine, figura que já vimos referida na des- crição da relação humana central compreendendo “

dois

dinamismos separados e imanentes não relacionados por

sistema nenhum de sincronização”.

A visão de Albertine penetra toda a narrativa de Proust e pode ser detectada notadamente nas alusões a Balbec e Combray, já que sobrepuja a imagem da avó.

O tema literário do tédio

(o mundanismo, a frivolidade elegante, o esnobismo) A figura trágica tem expressão igualmente no tema do

sofrimento e no tema do tédio.

Mas não é só o mundo da infância e adolescência do narrador proustiano que é assimilado à visão de Albertine penetrando toda a narrativa. A figura trágica como disse tem expressão igualmente no tema do sofrimento e no tema do tédio incluindo as respectivas formas peculiares.

Quer dizer, na visão de Albertine em perspectiva surge também o mundo adulto da sociedade dos salões e seu contraste, em cujos círculos de freqüentadores o narrador e Albertine foram habituados.

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Posto no âmbito do imperativo de objetivação da von- tade do indivíduo, o sofrimento como disse representa a supressão da função de adaptação e readaptação de nossa sensibilidade orgânica às condições dos mundos do Hábito por negligência ou insuficiência deste, enquanto que o tédio representa a realização de tal função. Há como um pêndulo oscilando entre esses dois extremos: o sofrimento lança uma ponte para o real e é a condição primeira da experiência artística; por ser o mais permanente, o tédio é o mais tolerável dos males humanos.

Ao que tudo indica, esse esquema está em obra tam- bém na composição de “M. De Charlus...” ainda que, sem desdobrar o tema do sofrimento, a narrativa desse Primeiro Volume de “Le Temps Retrouvé” 44 verse sobre o imaginário ambiente mundano dos freqüenta- dores dos salões parisienses nos anos imediatamente anteriores à década de vinte e, deste modo, contemple as formas peculiares ao tema literário do tédio – tais o mundanismo, a frivolidade elegante, o esnobismo.

Não obstante esse ambiente nota-se claramente o so- frimento ("impossibilidade na posse do outro", núcleo da tragédia de Albertine) compondo a narrativa em estado não tematizado, mas elaborado em contrapartida do desejo insatisfeito e posto em relevo já no terceiro parágrafo inicial de Tansonville, na alusão a uma memória involuntária dos membros levando o narrador a chamar sua amada.

Sofrimento não tematizado este que acompanha o narra- dor agasalhado justamente na sua obsessiva visão de Alber- tine, e por isso impelido constantemente senão a mencio- ná-la reiteradas vezes ao menos a pontilhar seu relato com inúmeras lembranças de Balbec ou Combray, em contraste incessante com o mundo adulto dos Salões que simultane- amente nos é devassado.

44 Citado aqui segundo a impecável versão em língua portuguesa por Lúcia Miguel Pereira, “O tempo Redescoberto”, Globo, São Paulo, 1998.

O qualificativo mundano é empregado por Proust para de- signar um caráter inadequado à literatura e insuficiente para alcançar o pensamento artístico.

Entretanto é preciso avançar circunstanciadamente e expor os pormenores. Há pelo menos um aspecto adicional de im- portância que deve ser tomado em prévia consideração quando se fala do mundanismo em Proust – e que favorece a compreensão do por que a voz moral em sua diferença só se manifesta lá (no Primeiro Volume) onde o narrador descreve o ambiente mundano.

O Hábito Conversador como Obstáculo O mundanismo constitui um problema crítico literário em

Proust

Se a possibilidade de verificar a figura trágica também desde o ponto de vista do tema literário do tédio nos leva às descrições do ambiente mundano, nem por isso deixa claro o sentido crítico envolvendo não só essas descri- ções, mas presente no próprio tratamento prolongado, aprofundado e diferenciado das observações detalhadas do narrador a respeito do ambiente mundano, notadamente sua distinção entre frivolidade elegante e esnobismo.

►Na verdade, o mundanismo constitui um proble- ma crítico literário em Proust, como nos esclarece Bernard de Fallois, e tem origem no ensaio “Contre Saint-Beuve”, elaborado entre 1908 e 1910 45, o qual se deve apreciar antes de prosseguir na leitura do Pri- meiro Volume de “Le Temps Retrouvé”.

45 Sobre as edições das obras de Proust vejam as Notas Complementa- res no final deste ensaio.

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Com efeito, nos comentários de Bernard de Fallois, o posicionamento de Proust é-nos apresentado como decor- rente de sua crítica ao método de Saint-Beuve e podemos ver o qualificativo mundano sendo empregado para desig- nar um caráter inadequado à literatura e insuficiente para alcançar o pensamento artístico.

Um escritor e crítico literário podem ser tidos como su- perficiais e mundanos à medida que, a exemplo de Sa- int-Beuve, tenham adotado por lema da sua atividade o “ir com a corrente”.

Sob este lema, sua maneira de gostar da literatura de- pende da opinião de uma elite, e sua maneira de escrever limita-se ao ângulo do seu tempo e para o seu tempo.

Quer dizer, ao invés de iluminar desde o interior, nos apontando uma idéia da vida espiritual, a orientação do es- critor mundano, por ser vaga, por tomar a aceitação por parte da boa sociedade como critério do valor literário, a- caba por assemelhar-se à conversação praticada nos círcu- los elegantes dos salões e, desta forma, limita-se a cultivar o “hábito conversador”, que Proust desdenha em razão de “dis- farçar nosso verdadeiro pensamento e nos privar dele”.

Assim entendido, esse caráter mundano se aprofunda sendo refletido no método pretensamente crítico de Saint- Beuve, quem pratica a enquête, propondo indagações às pessoas sobre o escritor delas conhecido, em detrimento da simpatia que lhe revelaria o Eu profundo do artista.

Tal crença de que “a verdade sobre a arte de um autor pode surgir de uma enquête” é o que serve a Proust para censurar contra Saint-Beuve a sua ligação às “formas sociais” na literatura e para classificá-lo superficial e mundano.

Tanto é assim que essa censura visa pôr em destaque a nos- talgia do Século de Louis XIV na atitude de Saint-Beuve, época em que a literatura parecia a este último haver sido mais social

46.

Mas não é tudo. Essa orientação limitada ao cultivo do “hábito conversador” definindo o caráter mundano em lite-

46 Cf. Fallois, Bernard de (Editor): Préface, in Proust, M: Contre Saint-

ratura tem vários desdobramentos inadequados para o escritor crítico literário, e o impele como impeliu Saint-Beuve em seus en- saios a “julgar um homem ao invés de escutar um autor”; a dizer aos escritores que tal palavra não é adequada, tal expressão não segue o exemplo de tal literato, tal autor não era nobre, etc. – ati- tude esta que revela uma “espécie de cultura” e é todo o contrário da intuição literária.

Proust identificará à falta de gosto essa "espécie de cultura" desdobrada do caráter mundano, e sublinhará em certas manias da escrita de Saint-Beuve alguns traços da mesma, tais como o uso do adjetivo duplo, as falsas demonstrações de elegância, a vulgaridade das exclamações, a vaidade oculta, etc.

Enfim, se o cultivo do “hábito conversador” constitui o caráter mundano e nele imprime sua inadequação para a literatura é porque, ao constringir a vida interior (intuição literária), tal hábito conversador se inscreve dentre os obs- táculos à idéia de arte como cada vez mais exigente e ex- clusiva, que Proust aconchega em si.

Desta forma, vê-se claramente que as descri- ções do ambiente mundano em Proust têm um sen- tido crítico literário inequívoco.

Se, por um lado, a reflexão estética nos mostra o munda- nismo delineando o aspecto do tema do tédio como realiza- ção da função do Hábito, por outro lado, a tomada em consi- deração do problema crítico literário em Proust não só apro- funda nesse elemento de realização da função do Hábito mediante a caracterização do “hábito conversador”, mas nos mostra que a diferenciação do mundanismo em frivolidade elegante e em esnobismo pode ser e será descrita em graus de constrição da vida interior (intuição literária).

Sem dúvida esta gradação se verifica efetivamente. Basta apreciar as duas seqüências da mesma narrativa composta em “M. De Charlus durante a guerra; suas opiniões, seus diverti-

mentos” para confirmar facilmente não só aquela gradação

constritiva da vida interior (intuição literária), mas também, no âmbito da mesma, o quanto o esnobismo é mais constritivo do que a frivolidade elegante no ambiente mundano.

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___________________________________________________________ Nessa obra claramente romanesca observamos que o ele- mento dramático vem das relações entre o narrador, Gilberte e Saint-Loup, relações que são compostas no horizonte da morte ou destino deste último.

Elemento esse tanto mais significante quanto o leitor atento de Proust haverá de lembrar que os sucessos relatados exatamente no último parágrafo desse Primeiro Volume de “Le Temps Re- trouvé” decorrem diretamente da decisão do narrador que pon- derou “mais delicado para com Gilberte não revelar a Robert [de

Saint-Loup] que para encontrar Morel bastaria ir à casa de Mme Verdurin” (p.59 da versão portuguesa referida).

Observe-se também que, conforme seu propósito ex- presso, Proust articula a composição desse drama median- te uma (primeira) seqüência narrativa em torno do perso- nagem do próprio Saint-Loup, abrangendo a descrição dos sentimentos nutridos por Gilberte.

A intuição literária constringida

Ou

No documento Leitura de Proust 2 Por Jacob (J.) Lumier (páginas 87-93)