SUMÁRIO
CAPÍTULO 2 – Sobre conteúdos e arranjos de sociabilidade
2.2 Sociabilidade e pressões do mercado de trabalho
A empresa, além de se constituir no espaço do trabalho, é um ambiente privilegiado de interações sociais. Na sociedade atual, torna-se um espaço sócio-cultural de referência ao promover o encontro entre indivíduos, que remotamente iriam estabelecer relações entre si. As empresas também têm o poder de regular e condicionar relações formais duradouras, sobre as quais é possível prever de alguma forma como irão se apresentar. Esta certa previsibilidade de comportamentos nas empresas possibilita objetivar as relações e, assim, acompanhar a natureza 24 Os cientistas sociais analisam a confiança, frequentemente, como uma variável comportamental com relação ao cálculo racional de custo e benefício. Os estudos utilizam instrumentos adaptados da Psicologia, tais quais
dos laços sociais que são construídos no seu interior. Mas não somente aí; a atuação gerencial é um fator de considerável influência na construção e manutenção dos laços sociais, porque incide sobre os espaços, horários e mobilidade dos trabalhadores, para além dos limites da organização.
Como será desenvolvido no capítulo 3, a gestão hoje é exercida de forma que o sistema produtivo envolva integralmente o empregado, misturando cada vez mais as esferas e os tempos do trabalho e do tempo livre. Momentos tidos como, aparentemente, mais afastados das exigências do trabalho são organizados de forma a mantê-lo ou a lhe assegurar o acesso. Nessas condições, a vida pessoal e vida profissional ficam severamente imbricadas, como argumenta Antunes (2000, p. 131):
Múltiplas fetichizações e reificações poluem e permeiam o mundo do trabalho, com repercussões enormes na vida fora do trabalho, na esfera da reprodução societal, onde o consumo de mercadorias, materiais ou imateriais, também está em enorme medida estruturado pelo capital. [...] Um exemplo ainda mais forte é dado pela necessidade crescente de qualificar-se melhor e preparar-se mais para conseguir trabalho. Parte importante do “tempo livre” dos trabalhadores está crescentemente voltada para adquirir “empregabilidade”, palavra que o capital usa para transferir aos trabalhadores as necessidades de sua qualificação, que anteriormente eram em grande parte realizadas pelo capital.
Logo, o processo de habituação do trabalhador ao mundo produtivo flexível requer atividades, dedicação e estratégias que se contrapõem de algum modo à sociabilidade anterior a essas práticas. Se o tempo do trabalhador é absorvido totalmente no e para o trabalho, se as relações são objetais, como construir laços sociais substantivos? Aponta-se, então, um paradoxo: as relações laborais contemporâneas, por levarem o indivíduo à maior dependência das redes sociais e a estabelecer múltiplos e diferenciados vínculos, deveriam estimular e fortalecer a sociabilidade; no entanto, as pressões individualizantes e utilitaristas, que orientam essas relações, fragilizam e instrumentalizam a sociabilidade, esgarçando e, por conseguinte, tornando frágeis os vínculos sociais25.
De acordo com Antunes (2005, p. 18), o quadro é realmente paradoxal, alimentado pela posição desfavorável do trabalhador no jogo de forças das relações de trabalho da atualidade e pela permanente contradição entre os discursos e as práticas empresariais. Os gestores ressaltam a necessidade de o trabalhador investir na sua qualificação e na qualidade de vida como trunfos para a empregabilidade, embora ajam intensificando as tarefas, eliminando e tornando precários as escalas de cinco itens, adaptando-os ao problema de pesquisa do survey (LUNDÁSEN, 2002, p. 314-315).
25 Na vida social não é possível romper totalmente os vínculos (pessoais e institucionais), mesmo que se estimule a atomização.
os postos de trabalho. O autor chega a afirmar que há um estado de (des)sociabilidade no mundo produtivo, porque
... quanto maior é a incidência do ideário e da pragmática na chamada “empresa moderna”, quanto mais racionalizado é seu modus operandi, quanto mais as empresas laboram na implantação das “competências”, da chamada “qualificação”, da gestão do “conhecimento”, mais intensos parecem tornar-se os níveis de degradação do trabalho.
Assim, ao mesmo tempo em que os trabalhadores, hoje, têm dificuldade de manter suas relações pessoais, eles são cada vez mais impelidos a depender das redes sociais próximas e distantes para integrar-se ao mercado de trabalho, diante dos vínculos flutuantes, da informalidade, dos contratos temporários, da heterogeneidade e pulverização das formas de organização produtiva.
Por outro lado, as empresas também continuam dependendo das redes e práticas de sociabilidade dos trabalhadores, visto que, de certo modo, tais relações geram para elas o acesso ao recurso humano não disponibilizado adequadamente pelo mercado ou pelos órgãos especializados, fato observado mesmo quando há instituições públicas e privadas de formação e, também, de alocação e intermediação de mão-de-obra que minimizam essa dependência.
O estudo de Durhan (1973), sobre os fluxos migratórios dos anos 1960 e 1970, já apontara essa interdependência, evidenciando as redes de relações sócio-familiares como forma de acesso ao mercado de trabalho, que iam desde o local de moradia (hospedagem dos recém-chegados) até as informações sobre oportunidades de trabalho. A transmissão oral das notícias era fundamental em um meio social no qual o acesso a jornais era praticamente inexistente. No caso dos trabalhadores rurais radicados na cidade de São Paulo, o deslocamento para um contexto urbano- industrial não produziu a ruptura com os laços de origem, mas a formação de uma intrincada teia de relações, baseada no parentesco e nos laços comunitários, que passou a unir os espaços rural e urbano. As condições necessárias para a participação no novo universo sócio-cultural foram criadas a partir da inter-relação e dependência estabelecidas entre os dois espaços, que permitiram a integração às novas formas de vida, aos novos tipos de trabalho e o acesso ao emprego.
A pesquisa de Granovetter (1974), já comentada, é outra referência sobre a importância das redes sociais na dinâmica do mercado de trabalho. Guimarães (2005) e Guimarães et al. (2004) acrescentam outros aspectos ao comparar a dinâmica do mercado de trabalho do Brasil, da
França e do Japão26, nos primeiros anos do século XXI. Segundo o Survey on Employment
Trends, do Ministério do Trabalho do Japão, realizado em 2001, os meios mais eficazes de conseguir trabalho no mercado japonês foram o recurso ao Sistema Público de Emprego (Public
Employment Security Office – PESO), os anúncios classificados nos jornais especializados e
imprensa geral e as redes de relações pessoais, respectivamente nessa ordem. A França acompanha distribuição similar, enquanto que, no Brasil, os desempregados primeiramente tendiam a utilizar meios menos formalizados para procurar trabalho, como as redes sócio- familiares, configurando um mercado de trabalho peculiar.
As autoras ainda explicam que, no Japão e na França, o papel do sistema público é crescente, seja no pagamento do seguro-desemprego, na diversificação de programas de ajuda e prospecção das condições do mercado de trabalho ou na requalificação dos trabalhadores, enquanto que, no Brasil, a participação do sistema público e privado de intermediação de mão- de-obra ainda é incipiente. Essa análise fortalece a percepção de que, em contextos onde essas instituições são frágeis, como no caso brasileiro, a capacidade operacional das empresas pode estar pautada em grande parte nas conexões sociais dos trabalhadores.
Os estudos de Conserva e Lima (2006, p. 83-84) encorajam a interpretação acima. As pesquisas, realizadas em períodos distintos da década de 90 do século passado, apontaram para a permanência geracional em atividades semelhantes pelos trabalhadores da indústria têxtil e confecções das cidades de João Pessoa, Natal e Recife. O acesso ao mercado de trabalho, entre eles, estava marcado pela origem social, pelas ocupações desempenhadas pelos pais no decorrer da vida, assim como do grupo social mais próximo, apresentando baixa mobilidade ocupacional e alta mobilidade entre os setores informal e formal. O indivíduo, em geral, iniciava precocemente em atividades informais, tal como a venda de doces fabricados pela mãe ou bugigangas nos sinais de trânsito ou nas feiras livres. A seguir, a fábrica se torna opção possível de entrada no mercado formal e de profissionalização desses trabalhadores de pouca escolaridade e qualificação. A atividade informal, por outro lado, permanecia para suprir a necessidade de renda frente às
26 Análise resultante do Projeto “Globalização, Transformações Metropolitanas e os desafios da Equidade: As Novas Formas do Emprego e do Desemprego. São Paulo numa perspectiva comparada”, que contemplou estudos nas regiões metropolitanas de São Paulo (inclusive ABC paulista) e Salvador, Tóquio e Paris, a partir da cooperação internacional envolvendo o projeto do CEBRAP – CEM – HEWLETT (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento; Centro de Estudos da Metrópole; Hewlett Foundation), três importantes laboratórios de pesquisa franceses – IRESCO, em Paris; PRINTMPS, na Universidade de Versailles; e IAO, na Universidade de Lyon –, e os pesquisadores japoneses do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Tóquio e a Universidade Feminina de Hiroshima, além dos sindicatos da Agência Nacional pelo Emprego e do Ministério do Trabalho do Japão (2005).
oscilações do mercado formal de trabalho. Nesse processo, as redes sociais atuavam como mediadoras na obtenção do emprego fabril, informando os parentes, os amigos e os conhecidos sobre a existência das vagas ou até apresentando-os como candidatos para preenchê-las.
Da mesma forma, as entrevistas com os ambulantes do centro da cidade de João Pessoa, realizadas entre os anos de 2000 e 2002, colocam em evidência o papel dominante da família como estratégia para enfrentar as vicissitudes desse universo do trabalho, com suas oscilações e incertezas. Neste caso, tanto a família se constitui na própria unidade de produção, com a divisão e distribuição do trabalho, das regras e da remuneração, de acordo com o sexo, idade e tipo de afiliação na rede de parentesco, quanto é a unidade de transmissão do “ponto” – na maioria das vezes ocupação ilegal do espaço público –, o qual passa de geração em geração com o reconhecimento dos pares (outros ambulantes da mesma área), garantindo a continuidade do negócio. Frequentemente, segundo os autores (Ibid, p. 90), a multiplicidade de funções desempenhadas pela rede familiar está
...relacionada com a própria lógica, que estrutura e diferencia as atividades informais – a denominada “lógica de reprodução simples” –, mas exerce um duplo papel: solidariedade familiar e de obrigação (o sentimento de responsabilidade pela manutenção da família). Esta lógica de reprodução familiar permite, inclusive, uma melhor compreensão na análise não só do funcionamento dessas atividades, mas também explica os limites de implementação de uma lógica de acumulação ante a lógica familiar. A relevância dos laços familiares aparece também quando Guimarães (2005) aborda o tipo de inserção no mercado de trabalho e o desemprego de curto e longo prazo. Faz-se notar a importância da família nuclear e dos parentes mais próximos para suportar os períodos de desemprego e os vínculos precários de trabalho. Os dados mostram que o desemprego atinge um mesmo grupo familiar de forma contínua, apenas alternando quanto ao membro que está vivenciando a situação num dado momento. O desemprego, portanto, é um fenômeno recorrente e não mais um fato episódico ou contingente nas grandes metrópoles brasileiras. O estado de fragilidade social se agrava com a fraca proteção social e com a prevalência da atividade informal no mercado de trabalho, fatores que tornam cada vez mais permeável a fronteira entre emprego e desemprego, incitando mais dependência das relações sociais próximas e distantes.
Os estudos acima comentados – Durhan (1973) e Granovetter (1974) – tratam de aspectos da relação entre exigências do trabalho e sociabilidade e tornaram-se hoje clássicos, assim como as análises coordenadas por Guimarães sobre o mercado do trabalho das regiões Sudeste e Sul também são referência para qualquer estudo sobre este tema. Todavia, deve-se ressaltar que, o
estudo de Durhan (1973) se refere ao período de consolidação da indústria nacional e a análise de Granovetter (1974) reporta à época fordista norte-americana. São ambos de período anterior ao trabalho flexível e à incorporação de tecnologias de informação e comunicação (TIC) ao processo e às alterações das relações de trabalho do final do século XX.
No caso das pesquisas coordenadas por Guimarães (2004, 2005), os estudos abordaram apenas realidades das regiões Sudeste e Sul do Brasil, não contemplando outros contextos sociais brasileiros, que podem apresentar um dinamismo econômico muito diferente. Igualmente os estudos de Conserva e Lima se restringem às atividades formais e informais em algumas cidades nordestinas. É oportuno, agora, indagar: esse processo ocorre da mesma forma, na atualidade, em ambientes de trabalho urbano na Amazônia?