6. A Internet e as redes sociais eletrónicas enquanto universo de possibilidades Perfis motivacionais,
6.1 Sociabilidades digitais: atributos e consequências
Tendo em consideração os dados anteriormente expostos, parece-nos inegável o modo como as redes sociais eletrónicas, muito por força das especificidades, ferramentas e funcionalidades que lhes seriam inerentes, se terão afirmado, pelo menos para a esmagadora maioria dos sujeitos aqui implicados, enquanto contextos privilegiados de relacionamento, de interação e de partilha. Salvaguarde-se, que a tal poderá não ser alheio o que alguns autores, entre os quais Danilo Martuccelli (in Setton; Sposito; 2010), Rheingold 1993, conceberiam como um declínio das redes e sistemas físicos, originalmente configurados para proteger e integrar os indivíduos o que, por sua vez, poderia ser responsável pela generalização de um sentimento de isolamento e solidão que, estes últimos, procurariam colmatar, entre outras estratégias, através de uma adesão massiva às redes sociais da Internet63. Com efeito, intentando suprir eventuais lacunas de um sistema social cada vez mais pautado por valores individualistas, estas plataformas, indo de encontro às exigências do homem enquanto ser
62 Manifesta em respostas como “apeteceu-me”, “criei porque gosto”, entre outras.
63 Teremos oportunidade de nos pronunciar sobre a viabilidade deste raciocínio, em momento posterior do presente subcapítulo.
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social, acabariam, de acordo com este entendimento, por corporizar formas alternativas ou complementares dos sujeitos se relacionarem entre si, com significativa relevância e expressão, no seio das sociabilidades contemporâneas.
Nesta conformidade, inauguraríamos a nossa abordagem, neste ponto em particular, esforçando-nos por caraterizar, de forma sintética, o modo específico como as redes sociais online viriam promover o contato e a interação entre atores sociais, para, logo de seguida, nos determos sobre as eventuais consequências destas novas formas de relacionamento, erigidas em espaço virtual.
Traçado o plano de apresentação não vemos razões para nos alongarmos mais, pelo que passemos de imediato à exposição em si:
Alheios aos particularismos inerentes a cada rede social da Internet, bem como aos tecnicismos subjacentes aos procedimentos em causa, estamos cientes de que grande parte da dimensão social que lhe é implícita, assenta, entre outros aspetos, na possibilidade de, através destas, o utilizador construir e gerir uma rede pessoal de contatos online com os quais poderá, porventura, partilhar definições privadas e interagir virtualmente.
De acordo com este entendimento e ocupando-nos, numa primeira fase, sobre os processos de adição de contatos nas redes sociais eletrónicas, por parte de indivíduos pertencentes à faixa etária do nosso interesse, sublinhe-se, o modo verdadeiramente obsessivo e até competitivo64 com que, de acordo com alguns dos testemunhos auscultados, aqueles, tendo em vista tanto finalidades de ordem comunicativa, como meramente contemplativa, se esforçariam por angariá-los. Ressalve-se que tal atitude poderá ser interpretada à luz do que se reconhece como uma sociedade e, por reflexo desta, de uma juventude que tende a valorar os indivíduos, de acordo com a quantidade de contatos virtuais detidos. Deste modo e dada a relevância conferida a este propósito, a qual, parece ter sido assimilada pelos estudantes, admitir-se-ia aqui, a possibilidade de, com o intuito de ampliar as suas redes de relacionamento online, estes enveredarem, como retratado por Paloma, pelos mais impensáveis estratagemas de adjunção:
Paloma - É, você vai lá na página e às vezes coloca assim: «Brincadeira nº2 – quem curtir
você adiciona» e um monte de pessoas curtem e aí você adiciona, adiciona, adiciona e você não conhece ninguém. (entrev. 2).
Entre eles, muitos procederiam, então, à adição indiscriminada de sujeitos, nomeadamente de desconhecidos, hipótese essa que, de acordo com os alunos matriculados no Colégio Estadual e com Cátia Candeias (2008), seria por muitos adotada com o intuito de dar resposta às anteriormente referenciadas pressões sociais que, sobre os mesmos, se abateriam. Curiosamente, ainda que reconhecendo a popularidade deste tipo de práticas no seio da comunidade juvenil, destaque-se o esforço, regra geral empreendido pelos estudantes auscultados em ambos os contextos, para se
64 Recorde-se que, de acordo com Recuero a competição é parte integrante de uma qualquer rede social da Internet (2005).
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distanciarem desta forma particular de alargamento das redes de sociabilidades, construídas em ambientes cibermediados. Não obstante a veemência com que condenariam esta prática, não deixariam, no entanto, de evidenciar a contingência, se bem que esporádica, de decidir adicionar ou aceitar determinada pessoa, nomeadamente de um desconhecido, podendo tal ato depender largamente da capacidade deste último, em se enquadrar nos padrões estéticos e ideais de beleza, abraçados por cada um. Tal seletividade, ver-se-ia igualmente expressa na opção adotada pelos estudantes portugueses, segundo a qual apenas adicionariam contatos pertencentes a indivíduos que conheceriam, pelo menos de vista e com quem possuíssem algum tipo de afinidades ou com quem partilhassem amizades em comum:
Susana - Por exemplo, antes de vir para o Cerco estive numa escola. Se alguém de lá me
adicionar eu aceito, por muito que não conheça. Pode, sei lá, querer algum tipo de informações.
Vera - Lá está, eu aceito pessoas que eu conheço de vista.
Susana - Pois, tem de ter algumas ligações. Se não tiver, acho tudo demasiado estranho. (entrev. 1).
Posto isto e com o intuito de avaliar nesta matéria a validade dos depoimentos teóricos recolhidos, procederíamos então à averiguação do peso do contingente de desconhecidos na totalidade dos contatos detidos nas redes sociais da Internet, por parte dos jovens considerados. Munir-nos-íamos para tal, de alguns dos resultados estatísticos apurados, os quais, adiante-se já, parecem corroborar a ideia veiculada nas entrevistas de que a adição de desconhecidos aos contatos constituiria uma forma de conduta recorrente entre os jovens, independentemente do seu contexto de pertença. De facto, quando questionados sobre a quantidade de contatos adicionados que conheceriam pessoalmente, 13% dos estudantes indicariam conhecer pessoalmente todos os seus contatos, ou ainda, com maior expressão, afirmariam encontrar-se numa situação em que o número de desconhecidos presentes na sua lista, seria inferior ao contingente de pessoas que, efetivamente, conheceriam (40,7%) (ver anexo nº 42). Por outras palavras, tal corresponde a dizer que apenas 13% dos jovens analisados, partindo do pressuposto que as respostas são verdadeiras, não adicionaria desconhecidos nas redes sociais da Internet, e que, por exclusão de partes, a esmagadora maioria destes (85,7%), o faria (idem). Fazendo parte desta última, estariam, por conseguinte, os 36,6% de indivíduos para quem o número de estranhos adjuvados ou seria equivalente à quantidade de sujeitos previamente integrados nos respetivos círculos sociais (15,3%), ou a suplantaria (21,3%) (idem). Mais extremista, reporte-se por fim, a existência excepcional de uma ocorrência (0,3%), em que o respondente admitiria não conhecer nenhum dos contatos que comporiam a sua rede de relacionamentos, nas redes sociais interativas (idem)65.
Embora taxativos e indiciadores do que poderá ser entendido como uma tendência, salvaguarde-se que os números obtidos a respeito da adição de estranhos nas redes sociais online por
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parte dos jovens, em nada nos poderá servir caso pretendamos analisar mais aprofundadamente o teor das relações que entre eles se estabeleceriam. Tal aconteceria, na medida em que as plataformas virtuais em causa contemplariam a possibilidade do utilizador adicionar uma pessoa, sem ter qualquer intenção de com ela realmente interagir, da mesma forma que poderia viabilizar a interação sem que, para isso, existisse um processo de adição prévio.
Explicitada a diferença terminológica aqui compreendida, torna-se necessário indagar até que ponto é que os jovens, que parecem não ter, como vimos, problemas com a adição de desconhecidos ou com indivíduos com quem não possuiriam grande familiaridade, de facto, se relacionariam com estes, no seio das suas incursões pelos ditos sites. A este nível registe-se, em primeiro lugar que, evidenciando grande ceticismo, os estudantes lusos ouvidos tendem a enfatizar os esforços por si desenvolvidos com o intuito restringir as suas interações a sujeitos que catalogam como conhecidos:
André - Não, só falo com pessoas que conheço, principalmente66 e com aquelas que necessito falar. (entrev. 1)
Manuela - Exato, só falo com pessoas que conheço” (entrev. 1).
Comprovadores da renitência patenteada, também os resultados estatísticos, se bem que influenciados pela origem geográfica dos respondentes, parecem não deixar dúvida quanto à preferência genericamente partilhada pelos alunos interrogados, para se relacionarem com sujeitos previamente integrados no seu círculo social. Com efeito, refira-se que, de acordo com aqueles, uma indiscutível maioria de estudantes (72,3%) revelaria expressamente não interagir com desconhecidos na Internet, pelo que apenas 19,3% do universo considerado, admitiria fazê-lo (ver anexo nº 43).
Assim e pese embora o que parece ser uma decisão quase que concertada de não se relacionar com estranhos nas redes sociais eletrónicas, é com algum desagrado e recorrendo a uma certa ridicularização e ironia, que os entrevistados acima identificados se reconhecem alvos de pontuais e, normalmente, sintéticas interpelações que lhes seriam dirigidas neste contexto, por indivíduos desconhecidos e/ou com quem terão tipo um tipo de contato bastante superficial:
Vera - Mas assim de vez em quando também recebes uma mensagem de alguém que só
conheces de vista ou que nem conheces: «Olá». É que não há paciência para isso.
Manuela - Um «olá» de mês a mês é espetacular. (entrev. 1).
Divergentemente, a entrevistada portuguesa Susana, evidenciando uma total ausência de medo em relação ao contato virtual com estranhos, optaria por através de um exemplo pessoal, salientar as potencialidades relacionais, de criação, estabelecimento e renovação de contatos, no seu entender propiciada pela Internet e pelas redes sociais eletrónicas:
66 A introdução na frase deste advérbio, viria a apontar um comprometimento de quase exclusividade imprimida pelo seu autor, ao contato com indivíduos conhecidos.
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Susana - Por exemplo, eu quero ir a um concerto este Verão. Não tenho ninguém conhecido
que vá. Vou a uma página, às vezes criam grupos… e eu começo a falar com alguém, combinamos e, assim já não vou sozinha e, assim se conhece pessoas. (entrev. 1).
Curiosamente, tal perspetiva seria ainda partilhada pela generalidade dos alunos brasileiros ouvidos:
Alicia - (…) eu conheci muita gente pela Internet, muita gente que eu não falava, que eu
nunca tinha conversado. (entrev. 2).
Indo mais longe, alguns deles, muito na linha de pensamento de Susana, chegariam mesmo a enfatizar a possibilidade de, a partir única e exclusivamente de interações estabelecidas em contexto cibermediado com determinados desconhecidos, se travarem verdadeiras relações de amizade:
Paloma - Eu acho que sim, que é possível criar uma amizade verdadeira a partir só da rede
social, sem encontrar a outra pessoa. (entrev. 2)
Alicia - É, eu também acho que sim. (entrev. 2).
Nesta aceção, as plataformas sobre as quais o presente trabalho incide e na medida em que incrementariam a comunicação e a criação de empatias e permitiriam contrariar a timidez de alguns, viriam alargar e aprofundar os laços de afeição instituídos entre os sujeitos (progressiva passagem de um laço, outrora fraco ou até mesmo inexistente, para um forte). Acrescente-se que, para que isso acontecesse, revelar-se-ia necessário, pelo menos para Alicia e Beyonce, a observância de determinados requisitos discriminados no trecho procedente:
Alicia - (…) Primeiro tenho de acreditar que é a pessoa e não uma foto qualquer, que vão
botar no perfil (…).(entrev. 2)
Beyonce - E conforme você passa a conversar, aí vê que os factos são verdadeiros, aí você já
cria um hábito de falar com a pessoa diariamente e já se torna uma amizade. (entrev. 2).
Em sentido inverso, se seria já com afincada relutância que os estudantes portugueses entrevistados, com exceção de Susana, conceberiam a eventualidade de interagir com estranhos na Internet, a ideia de com estes vir a consolidar uma relação de afeto, revelar-se-ia verdadeiramente impensável e sem cabimento67.
Assim, postas as cartas na mesa, pensamos estar em condições de nos pronunciar a respeito da hipótese teórica, segundo a qual, os jovens percepcionariam o contato com desconhecidos como uma oportunidade e não como um risco, diligência que, contextualize-se, seria complexa, vindo a exigir da nossa parte, alguma parcimónia, contenção e cuidado na resposta. Retenha-se, por outro lado, que a tal dificuldade não será alheia a própria ambiguidade contida no termo “desconhecidos”, em conformidade com a qual, este, consoante a interpretação em causa, poderá ou não englobar “sujeitos conhecidos de vista”, “amigos de amigos”, entre outras situações similares. Variações à parte, a
67 Exceção aqui, para os vínculos estabelecidos com “conhecidos de vista” e ou “amigos de amigos”, com quem os pupilos em causa já admitiriam ser possível construir um relacionamento de camaradagem e amizade salutar.
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verdade é que, evitando a todo o custo enveredar por um tipo de interpretação linear e simplista, apenas poderemos afirmar, sustentados nos dados recolhidos que, na medida em que grande parte dos estudantes contemplados terá admitido possuir desconhecidos adicionados nas redes sociais interativas, o processo de adição em si, tal como sugerido por Cátia Candeias (2008), não seria encarado como uma ameaça para a maioria dos respondentes. Tal, poderia ser justificado em virtude da convicção, coletivamente partilhada, de que a facilidade com que, hoje em dia e da mesma forma, se agregaria um contato, também seria possível removê-lo ou bloqueá-lo da lista de contatos estabelecidos, nas redes sociais eletrónicas68.
De modo interessante, a coerência e homogeneidade encontradas em relação aos processos de incorporação de desconhecidos nas redes sociais online não se viria a verificar, pelo menos de modo tão latente, no âmbito dos processos de interação com os mesmos estabelecidos, neste tipo de ambientes. De facto, salvo o singular caso de Susana, torna-se notório como, nas entrevistas, os estudantes portugueses se mostrariam bastante mais pessimistas em relação a este último ponto do que os brasileiros, pelo que se admitiria aqui, a possibilidade da diferença encontrada, poder residir em fatores de ordem cultural e geográfica. A corroborar tal entendimento, cite-se por outro lado que, segundo os dados estatísticos apurados e ainda que a generalidade dos jovens sediados em ambos os contextos afirme não interagir com estranhos na Internet, é superior o número de brasileiros, em relação aos portugueses, que o diz fazer, sendo essa diferença estatisticamente significativa (ver anexos nº 44 e 45). Assim e dada a discrepância notada, conclua-se ser para nós efetivamente muito difícil, ou mesmo impossível, ajuizar, de modo seguro e rigoroso, sobre este tópico em particular, pelo que aquilo que fazemos, é deixar em aberto algumas eventuais leituras e hipóteses que, poderemos entender, vir a explorar no futuro.
Resultado ou não da incorporação de desconhecidos, a verdade é que a dimensão das “comunidades pessoais” (Castells, 2007, p. 469), estabelecidos pelos jovens nas redes sociais da Internet, parece deixar transparecer a já mencionada relevância, conferida por estes, aos processos de adição e, consequentemente, ao volume de contatos por si detidos neste tipo de plataformas. A este respeito, os resultados estatísticos seriam bem expressivos, indicando que uma significativa percentagem de 31% dos estudantes inquiridos assinalaria possuir, em média, “mais de 1000 contatos” nas redes sociais (ver anexo nº 46). Mais expressivo ainda seria, por outro lado, que uma facção representativa de mais de 70% do universo considerado, asseguraria integrar uma rede social interativa onde se perfilariam, pelo menos, 300 pessoas (idem)69.
68 A este respeito, sublinhe-se que os entrevistados abrangidos pela presente investigação, não só não parecem apresentar ressalvas ao acionamento destes dois últimos comandos, como admitiriam a eles recorrer, com frequência e sempre que o considerassem necessário.
69 Salvaguarde-se, no entanto, que os valores indicados não poriam de modo algum em causa a existência de um conjunto, ainda que diminuto de jovens, que, confrontados com a mesma questão, comunicariam deter um contingente bem mais modesto de contatos adicionados (idem).
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Por outro lado, se bem que importante para a determinação da popularidade e do estatuto de que o jovem viria hipoteticamente a gozar entre os seus pares, desengane-se quem possa pensar, que o número de contatos por este estabelecido nas redes sociais online, constituiria, um indicador preciso da quantidade real de amizades, por aquele conseguidas70:
André - Não é através da Internet que eu vejo os amigos que tenho. (entrev. 1).
Hulk - (…) Por exemplo eu tenho uma porção de gente no Facebook, mas amigos não
considero quase nenhum. (entrev. 2).
Desta forma e ainda que, algumas redes sociais interativas se apropriem do termo “amigo” para designar aquilo que, na realidade, constituiriam contatos, aquilo que se verificaria parece ser uma clara não coincidência entre, como vimos, um volume avultado dos mesmos neste género de páginas e o número, admita-se bastante mais comedido, de amigos, efetivamente reconhecidos enquanto tal71.
Neste sentido, seriam os próprios estudantes a sugerir, a validade da destrinça entre os ditos “amigos virtuais” e os “verdadeiros amigos”, com quem, os primeiros, poderiam realmente conversar, confiar e contar, em caso de necessidade. Em termos práticos, quer isto significar a limitação das interações estabelecidas pelos jovens a um número mais restrito de indivíduos, sobretudo quando comparado com o contingente expressivo de contatos realizados que, como os já patenteados, tendem a ser exibidos nas plataformas em causa. Retratador da desproporcionalidade gritante que se constataria entre uns e outros, retenha-se o testemunho taxativo de Alicia:
Alicia - Você vai ter quinhentas pessoas, você vai falar com 10, aposto. Não adianta. Você
pode ter 100 pessoas no Facebook, cara, você não vai falar nem com 10. (entrev. 2).
Segundo esta linha de raciocínio, entender-se-ia o caráter secundarizado infligido por Hulk, à dimensão quantitativa inerente ao processo de adição de contatos, preterida em detrimento da qualidade, que o mesmo refere tentar preservar, a todo custo:
Hulk - Eu não acho graça a esta questão quantitativa. De que adianta ter mil amigos se você
não fala nem com 100? Não, comigo isso não acontece. (entrev. 1).
Estabelecida esta diferenciação, afigurar-se-ia perentório averiguar em primeiro lugar, se, de facto, os alunos em causa utilizariam as redes sociais eletrónicas para interagir com outros atores sociais e, em caso afirmativo, quem faria parte deste rol. Intentando dar resposta a este conjunto de questões, adiante-se que, indo de encontro às expetativas por nós detidas, 91% do total de respondentes terá confirmado interagir com terceiros na Internet (ver anexo nº 47)72. Destes, adiante-se
70 A isto não será alheio a já constatada regularidade com que, nas redes sociais da Internet, se procederia à adição de desconhecidos.
71 Claro está que a divergência reportada, terá também a ver com a facilidade e rapidez com que, atualmente, se entende ser possível estabelecer vínculos, ainda que, eventualmente, fracos e superficiais com outras pessoas, por intermédio das redes sociais online, atributos que, ressalve-se, são tão mais valorizados quanto o seu contraste com a morosidade e complexidade inerente a um equivalente processo decorrente, em ambiente não cibermediado.
72 Reporte-se que tal indicador seria, mais uma vez, confirmador da importância da Web enquanto palco privilegiado de partilha, de contato e de interação entre os jovens. Ainda assim, não poderemos descurar o facto
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que, exatamente, 87% anunciariam fazê-lo com “amigos”, 62,7% com “colegas de escola” e 62,3% com “familiares” (rever anexo nº 43). Por outro lado, mais parcas parecem ser as relações online estabelecidas com “vizinhos” (25,7%), com “professores” (21,7%) e, ainda de modo mais rarefeito, como anteriormente referido, com “desconhecidos” (19,3%) (idem). A completar o quadro traçado, acrescente-se por fim que, precisamente, 2,3% atestariam interagir com “outras pessoas para além das mencionadas”, entre elas, com os respetivos “namorados/as” (1,3%) e, até, com “amigos e colegas dos pais” (0,3%) (idem).
Igualmente indicativa da importância conferida à validação e legitimação pessoal por parte de terceiros, aluda-se aqui, ao que a estudante Manuela, em nosso entender, de modo feliz e pertinente, terá apelidado de “culto dos likes” ou uma, se quisermos “filosofia”, largamente perfilhada pelos jovens, segundo a qual: quem tiver mais likes, é o mais fixe e o mais sociável (entrev. 1). Perante isto, mais uma vez, se entenderia a frequência excessiva, de acordo com a referida Manuela, com que hoje em dia os jovens desenvolveriam estratégias de índole pressionadora, uns sobre os outros, com o intuito de obter o maior número de aprovações concretizadas, neste caso sob a forma de likes. Não obstante a constatação da recorrência com que tais comportamentos tendem a ocorrer, é mais uma vez evidente a intenção partilhada, tanto por estudantes portugueses como por brasileiros, por se distanciar desta modalidade de conduta.
Em suma, daqui se poderia depreender que não é de facto, uniforme, o valor atribuído pelos jovens participantes a terceiros, com quem, inevitavelmente, partilhariam o ciberespaço. A confirmar- se tal postulado, refira-se neste âmbito, a adoção por parte dos sujeitos entrevistados de três posições