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Desde o fim dos anos 1980, um grupo de pensadores alemães buscou nas reflexões de Marx uma interpretação da contemporaneidade, fora dos limites da sedimentada doutrina marxista. Através da crítica do valor de Marx especulavam sobre uma possível base comum de todos os sistemas sociopolíticos da modernidade. Tais investigações culminaram na elaboração da tese central de “O Colapso da Modernização” de Robert Kurz (2004).

À luz dos escombros do muro de Berlim, o autor sustenta que o comunismo do leste havia sido de fato, uma forma de “modernização retardatária”. Chama ironicamente a revolução bolchevique de “revolução recuperadora burguesa”, imputando a ela não apenas um erro nas escolhas, mas uma impossibilidade histórica de um rumo diverso diante das condições de desenvolvimento do capitalismo mundial em geral e, em específico, das condições de atraso da Rússia. Um “outro” provavelmente não seria possível naquele contexto, então, a “ditadura do proletariado” limitou-se a impor o sistema coercitivo do trabalho abstrato a um país que se encontrava em gritante retardo de desenvolvimento em relação aos concorrentes do ocidente, notadamente Inglaterra e França e, um pouco mais abaixo, Alemanha e Estados Unidos. Além das condições objetivas de atraso, a produção abstrata de riqueza, marca primordial do capitalismo, tinha fortes barreiras para sua imposição na Rússia, tais como os residuais entraves feudais de relação de dependência pessoal e a respectiva falta de constituição subjetiva de um ethos do trabalho como fim em si, como verificou Max Weber, indispensável às modernas condições de produção.

É precisamente esse caráter, de finalidade inerente, que tanto caracteriza tanto [sic] o sistema burguês do Ocidente e o movimento operário moderno: revela-se no "ponto de vista do trabalhador" e no ethos de trabalho abstrato aquela idolatria fetichista do maior e mais intenso dispêndio possível de força de trabalho, além das necessidades concretas subjetivamente perceptíveis. Em nenhum outro lugar esse ethos protestante do trabalho abstrato dentro de uma sociedade transformada numa máquina de trabalho, declarado por Max Weber como característica constitutiva ideológica e histórica do capitalismo, foi posto em prática com mais fervor e rigor do que no movimento operário e nas formações sociais do socialismo real. (KURZ, 2004, p. 18)

Aparentemente, no socialismo real, este dispêndio máximo possível na finalidade em si do trabalho, parece superado como fator de comportamento cotidiano do sujeito, sendo antes, típico da economia de mercado, da perseguição pelo lucro individual. Porém, bem como a ascese laica do cotidiano servia de suporte para a comprovação da graça na ética protestante, a abstração do trabalho no socialismo real estava inserida numa espécie de “[...] religião secularizada, a do endeusamento da riqueza nacional [...]” (KURZ, 2004, p. 19), mote central na propaganda do socialismo soviético. A mais-valia, o trabalho excedente, ficou isento de qualquer crítica, de sua necessidade ou utilidade, bem como de sua natureza. Todo o sistema da moderna produção de mercadorias foi assumido como simples progresso técnico; em si, mero dispositivo neutro, isento de qualquer conseqüência política. Nas palavras de Lênin (1972 apud Kurz, 2004, p.43-4), “Só falta derrubar os capitalistas [...] e teremos um mecanismo liberado do ‘parasita’ [...]”. Apenas estava em questão a apropriação da mais- valia, a quem esta seria devida (e não mais sua reflexão como fundamento irracional): ao proletariado, através de sua encarnação coletiva – o Estado socialista – ou à classe usurpadora capitalista?

Desse modo, sob a capa jurídica estatal, o afastamento ascético da espontaneidade da vida, teria como meta justamente aquela riqueza abstrata acumulada pelo Estado, como finalidade em si, através do excedente de trabalho (mais-valia) que cada indivíduo é coagido a despender de maneira igualmente abstrata, como se esta forma vazia fosse meramente uma convenção técnica da suposta condição ontológica do trabalho.

O marxismo dos epígonos falhou completamente na crítica do trabalho abstrato. Para eles, o trabalho, na forma de existência em que o encontraram, era o "bom" ontológico, que teria sido violentado apenas exteriormente pelo capital, compreendendo eles o conceito de trabalho abstrato irrefletidamente como definição positiva. Por isso aconteceu que os livros didáticos de economia do socialismo real se referiam a ele como necessidade da técnica contábil ou até como objetivo explícito do Estado. (KURZ, 2004, p. 226, grifo do autor)

A justa redistribuição da riqueza social acumulada (seus valores-de-uso) não é a meta do sistema, como sugere sua aparência, mas apenas uma função para um posterior ciclo de reprodução ampliada, a inconfessa motivação real da socialização moderna.

Deixadas de lado as inflamadas disputas retóricas, e a oposição visceral entre as correntes ideológicas dos respectivos blocos políticos, no momento em que se constatam os elementos concretos da mobilização produtiva, paira uma incômoda percepção do alto grau de parentesco entre os sistemas contrários:

O "mercado planejado" do Leste, como já revela essa designação, não eliminou as categorias do mercado. Conseqüentemente aparecem no socialismo real todas as categorias fundamentais do capitalismo: salário, preço e lucro (ganho da empresa). Ele não só adotou o princípio do trabalho abstrato como o levou às últimas conseqüências. (KURZ, 2004, p. 25)

Portanto, a revolução de 1917 e o séquito das que a tiveram como modelo, impôs fundamentalmente a base da moderna produção de mercadorias, ou capitalismo, como dispêndio de energia humana em geral (trabalho abstrato) com o fim tautológico de valorização do valor. A forma jurídica de controle estatal, como base social da produção, assemelha-se aos primórdios da acumulação primária do capital ou à fase imperialista/monopolista no ocidente, ou ainda, a todas as recentes ditaduras estatizantes latino-americanas de ferrenha orientação ideológica anticomunista.

É óbvio que no caso dos sangrentos regimes latino-americanos, em especial o caso do Brasil, reforçava-se a estrutura jurídica da propriedade privada, da acumulação individual. Entretanto, o Estado era o grande investidor e agente econômico direto, marcadamente naquelas áreas de infra-estrutura estratégica, em que havia necessidade de vultosas somas de capital, cuja contrapartida é a lentidão e o alto risco de retorno. Especialmente na década de 1970, inúmeras empresas estatais foram criadas, e outras tantas empresas privadas passaram ao comando do Estado.

Prosseguindo, Kurz (2004) aponta a falência dos Estados socialistas não como a queda do antípoda do capitalismo, mas o próprio capitalismo, como modo de produção correspondente à modernidade, sendo deteriorado em razão de seus próprios limites, em seus pontos mais frágeis, ante a concorrência mundial: primeiramente os países em desenvolvimento (inúmeras nações jamais se recuperaram dos choques econômicos das décadas de 1970-80), depois o “socialismo de caserna”. A mesma forma social, porém, assincrônica em suas diversas fases de desenvolvimento. O chamado socialismo real – assim entendido como capitalismo de Estado – sucumbiu diante de sua incapacidade produtiva na

concorrência com os países centrais do capitalismo, especialmente depois do incremento produtivo acelerado a partir de 1970 nas nações desenvolvidas de livre mercado.

Compartilha-se neste estudo do ponto de vista de Kurz, de que tanto a débâcle do leste, quanto as sucessivas crises no ocidente (a atual incluída), fazem parte de um mesmo processo amplo de maturação das contradições do capitalismo, isto é, da apresentação de seus limites objetivos – a concatenação de um processo que se desenvolve a despeito das manifestações políticas e subjetivas que ora freiam, ora catalisam, ora desviam os rumos desta forma social cega.