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Logo no princípio da sua grande obra, no § 1, Rawls estabelece o conceito de uma sociedade bem ordenada. Esta, segundo ele, é a sociedade regulada por uma concepção de justiça que seja pública, isto é, que em primeiro lugar “todos aceitam e sabem que os outros aceitam os mesmos princípios de justiça” (RAWLS, 2008, p. 5) e em segundo lugar “as instituições sociais fundamentais geralmente atendem, e em geral se sabe que atendem, a esses princípios” (Idem), ou como ele mesmo busca recapitular essa definição, já no § 69, “aquela moldada para promover o bem de seus membros e regulada de forma efetiva por uma concepção pública de justiça” (Ibidem, p. 560).

A ideia de uma sociedade bem ordenada é a ideia de uma sociedade bem organizada, uma sociedade na qual haja clareza dos princípios de justiça,

que qualquer um dos seus membros tenha claro discernimento do que é considerado justo e do que é considerado injusto. Assim, cada membro vive de acordo com esses princípios e sabe que os outros membros também o fazem.

Enfatiza-se três ideias inclusas nesse conceito: 1) o fato de cada membro social ter pleno conhecimento e consentimento dos princípios de justiça que vão nortear os atos sociais, sejam eles individuais ou institucionais, bem como cada membro sabe que os outros também têm conhecimento e consentimento, exatamente dos mesmos princípios; 2) todos sabem e reconhecem que a sociedade, enquanto sua estrutura básica, está alinhada e construída sobre esses princípios; e 3) os cidadãos possuem senso de justiça agindo conforme os princípios das instituições básicas da sociedade.21

Dessa maneira, numa sociedade assim considerada bem ordenada, há uma concepção reconhecida por todos da justiça e de seus princípios efetivos, estabelecendo-se “um ponto de vista comum, a partir do qual as reivindicações dos cidadãos à sociedade podem ser julgadas” (ibidem).

Esse ideal pode ser atingido mesmo por sociedades que contém em si uma gama maior de comunidades com interesses e concepções divergentes (as chamadas doutrinas abrangentes) e se dá pela sobreposição aos seus interesses e concepções distintos, uma concepção de unidade (unidade na multiplicidade) que atende aos interesses de todos: a ordenação da sociedade segundo princípios de justiça claros e racionais, aceito por todos, formando uma concepção de justiça como equidade onde todos são iguais na diferença, livres e dignos. Conforme Danner (2006):

[...], em uma sociedade bem-ordenada, embora não abracem a mesma doutrina abrangente (dado o fato do pluralismo), os cidadãos perseguem – compartilham – objetivos comuns, a saber: construir justiça social e agir de forma justa uns em relação aos outros. E é por isso que a sociedade se torna bem-ordenada (bem-organizada): em primeiro lugar, os cidadãos, defensores de diferentes doutrinas abrangentes, constroem uma concepção política de justiça que serve de identidade e de base comum para a vida social; em segundo lugar,

esses cidadãos entendem a importância de uma sociedade democrática, marcada pela justiça social e pelo pluralismo (p. 34/35).

Embora Rawls seja um pensador político liberal, diferentemente do que os comunitaristas o acusam, Rawls demonstra uma superação do egoísmo e do individualismo atomizado característico do liberalismo político. Inserido em uma sociedade bem ordenada, não há como o indivíduo manter-se isolado e alheio aos demais integrantes, visto que o bem de um é o bem de todos, há uma inter-relação, e isso se dá mesmo com ideais de vida e convicções de bem completamente díspares.

Uma sociedade bem-ordenada não é uma sociedade de indivíduos egoístas, individualistas e atomizados, que têm, como único objetivo, a satisfação de seus interesses pessoais, ainda que isso implique a manipulação e a exploração dos demais seres humanos. Pelo contrário: em uma sociedade bem-ordenada, ao mesmo tempo em que perseguem a realização de seus objetivos pessoais, os cidadãos querem que os demais também realizem o seu (dos demais) bem (Idem, p. 35).

Isso quer dizer que, em uma sociedade bem ordenada, tendo em vista a cooperação social, o crescimento pessoal de cada membro é compreendido como um crescimento da coletividade. No momento em que talentos vão surgindo e sendo desenvolvidos, a sociedade, como um todo, se beneficia disso dado o princípio da pluralidade. Ninguém pode ter em si a totalidade dos talentos, mas todos têm algo a contribuir. É um princípio de intercomplementação. Quando alguém é incentivado a acreditar em si, a se ver com capacidades e revelar o que pode fazer para cooperar, esse indivíduo passa a ser livre porque passa a ter uma função e um lugar na sociedade em que coopera, a dispor de dons que contribuem para si mesmo na busca por autonomia e também para o bem e o enriquecimento do todo coletivo. Nesse caso, não há lugar para mero egoísmo, mas para a realização pessoal no contexto do social.

Ora, compreendendo uma sociedade como sociedade cooperativa, com instituições políticas de justiça bem definidas e aceitas por todos, em que as desigualdades são reduzidas ou mesmo extintas, que se respeita a pluralidade, que todos se beneficiam dos talentos e habilidades uns dos outros e que, cada um de acordo com a sua concepção de bem tem todas as condições de planejar o próprio futuro e minimamente viver suas perspectivas, pode-se então viver com uma certa estabilidade (estabilidade relativa). Dessa forma, os pontos de pressão são reduzidos e administrados com mais tranquilidade e clareza.

Cabe chamar a atenção para a característica de relativa estabilidade de uma sociedade bem ordenada, isso se dá pelo fato de suas instituições serem efetivamente justas e de haver respeito aos que são diferentes e/ou divergem em questões ideológicas, religiosas, filosóficas e principalmente em relação à concepção de vida boa. Esse respeito dá-se pelo motivo de mútua aceitação daquilo que pode ser o único elo de unidade entre todos os membros sociais: a concepção de justiça.