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4.3 Resultados e Discussão

4.3.6 Sociedade de Risco: Colônia de Pescadores Z-3

Quando analisamos a Colônia de Pescadores Z-3 pelo viés da “Sociedade de Risco” de Ulrich Beck (2010), esta parece estar em risco, assim como outras comunidades em torno da Lagoa dos Patos. Pois, o risco segundo esse autor, “fundamentalmente tem a ver com a antecipação, com a destruição que ainda não ocorreu, mas que é iminente, e que, nesse sentido, já é real hoje” (BECK, 2010, p.39), como pode ser o caso do desaparecimento de comunidades tradicionais de pescadores artesanais em torno da Lagoa dos Patos, em função da gradativa redução dos estoques pesqueiros que vem ocorrendo desde a década de 1970, provavelmente, devido à sobreexploração dos recursos pesqueiros e da poluição da Lagoa dos Patos.

Além disso, o GF-3 e a RC-1 expuseram que, muitos pescadores, talvez até a maioria, mesmo possuindo o Seguro-Defeso, se arrisca na pesca ilegal, por mais que tenha noção das consequências, se caso forem pegos pela fiscalização ambiental. Continuando ou pelo menos não parando totalmente as práticas de pescaria na época de proibição, para aumentar ou completar suas rendas.

Embora admitam a existência da pesca no período de defeso, outro ponto que merece ser destacado, além da falta de esclarecimento sobre a importância desse período de proteção e a baixa renda, como já citado anteriormente, pode ser a falta de informação sobre o correto período de proibição da pesca de cada espécie. Pois, quando indagados sobre o período da safra, as respostas de pelo menos 25% dos entrevistados que souberam ou quiseram responder, foi que, praticam a atividade o ano inteiro dependendo apenas de condições climáticas favoráveis para a pesca (ex: água salgada); outros, que pescam durante meses como setembro e julho, período que a pesca é proibida para a maioria das espécies alvo, esses relatos deixam evidente a disparidade entre os períodos de pesca de um pescador para o outro e até mesmo em desacordo com a legislação ambiental vigente.

No entanto, para que o cenário de risco da comunidade possa mudar, é necessário mais do que a fundamental instrução dos pescadores sobre o correto período de defeso e sua importância, de acordo com Beck (2010), para que um cenário de risco mude, é necessário que esse risco tenha sido bem sucedido num processo de reconhecimento social. Contudo, riscos são inicialmente bens de rejeição, cuja inexistência é pressuposta até que se prove o contrário, e isto quer dizer: “na dúvida, deixa estar”.

No caso da Colônia Z-3, parte dos moradores entrevistados, é otimista, pois, apesar da diminuição gradativa do pescado desde a década de 70, não enxergam uma situação de risco para a atividade, pois acreditam, que no próximo ano, ou no ano seguinte, a pesca vai melhorar. Vinculam essas dificuldades quase inteiramente às condições climáticas, pouco à pesca ilegal, e praticamente nada à poluição da Lagoa dos Patos pela própria indústria da pesca, cidades, indústrias e agricultura, o que parece indicar que esse fato, ainda não foi reconhecido socialmente. Portanto, como são inúmeras as incertezas, os riscos parecem permanecer invisíveis para esses moradores.

Por outro lado, outra parte dos moradores, é mais pessimista, e, apesar de terem as mesmas incertezas em relação aos motivos da diminuição do pescado, esses não acreditam que a situação possa melhorar, fazendo que cada vez mais moradores abandonem a atividade da pesca em busca de outras atividades que tragam uma maior garantia financeira. Na RC-1 foi recordado que, nos últimos três anos, não houve safra de camarão, e ressaltaram que, “os que trabalham na cidade têm um salário certo todo mês para trazer para cá”, se referindo às pessoas empregadas na zona urbana do município, mas que vivem com suas famílias na comunidade. Ainda, um afirmou: “se eu gosto dos meus filhos, eu não vou empurrá- los para o abismo. Quando eu tinha a idade deles, a lagoa era rica, hoje tem que ficar dependente do Seguro”. Mostrando, desse modo, o pessimismo para com a pesca artesanal, e a triste realidade do baixo volume de peixes na laguna, e consequentemente, a vulnerabilidade e fragilidade atual de comunidades tradicionais dependentes dos recursos naturais costeiros, como a Colônia de Pescadores Artesanais Z-3.

Já em relação aos resíduos de pescado, embora, seja claro para os entrevistados as problemáticas ambientais que podem ser causadas pela má

disposição desses resíduos, os pescadores não enxergam outro possível problema ambiental que possa vir a ocorrer na Z-3.

O problema da diminuição dos estoques de pescado é relacionado pelos pescadores às condições climáticas, como destacado anteriormente, como a baixa quantidade de água salgada na Lagoa dos Patos. Dizem eles que, “o peixe só dá, quando salga a lagoa”, o que não vem ocorrendo nos últimos tempos.

Todavia, a baixa entrada de água salgada na laguna, não pode ser a única explicação válida para a diminuição do pescado. Primeiro, em vista de que essa diminuição já vem ocorrendo há mais de 40 anos. E segundo, em virtude de que essa gradativa diminuição dos estoques de pescado também vem se sucedendo em outras regiões do Brasil.

Segundo Silva et al. (2005) e Ceni (2015), a diminuição do pescado na Lagoa dos Patos pode ser devido ao esforço de pesca além da capacidade de reprodução das espécies, grande parte causada pela indústria da pesca de Rio Grande/RS, que se desenvolveu a partir da década de 1960 e começou a ruir na década de 1980; bloqueios à reprodução das espécies marinhas no estuário da referida lagoa; altos níveis de poluição; e ação predatória externa na zona econômica do mar territorial brasileiro.

Muito do que foi exposto pelos entrevistados na Colônia de Pescadores Z-3, não são problemas encontrados apenas na região sul da Lagoa dos Patos, como é o caso da diminuição gradativa, ano após ano, do volume de pescado capturado. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo - SMA (2013), existem muitos outros exemplos em todo litoral brasileiro de uma cultura predatória dos recursos naturais, como no caso da lagosta entre os estados do Espirito Santo e o Amapá descrito por Veiga (2007). Há uma evidente necessidade de evitar o colapso de recursos que são a principal fonte de renda de centenas de milhares de trabalhadores autônomos do setor (os pescadores artesanais). Pois, mesmo com a proibição da captura no período chamado de defeso, não está surtindo o efeito esperado e necessário para a continuidade da pesca artesanal.

Isso evidencia a necessidade de medidas mais funcionais, levando em consideração as características socioeconômicas dos pescadores artesanais, pois os problemas da pesca artesanal são reflexo da má gestão governamental e problemas educacionais, que geram baixa escolaridade e desqualificação, gerando também desemprego e pobreza (CENI, 2015).

Além disso, Veiga (2007) também destaca outra problemática do país como um todo, que é um sistema de fiscalização e punição extremamente precário, corroborando com a pesca ilegal, tanto na região Sul quanto Sudeste, Norte e Nordeste brasileiro, prática que muitas vezes é absolutamente predatória, como por exemplo, a rede de arrasto na Lagoa dos Patos e a rede chamada caçoeira no litoral nordestino, métodos que acabam arrastando tudo o que encontram pela frente, filhotes de pescado e destruindo a biomassa do leito da lagoa ou do mar. Segundo a SMA (2013), a prática da pesca de arrasto encontra-se entre as modalidades mais predatórias que existem.

Ainda, de acordo com Veiga (2007), as práticas de pesca consciente desaparecerão se os pescadores “conscientes” perceberem que nada sério é realizado, por exemplo, contra o absurdo uso de redes de extermínio.

Diversos fatores que estão contribuindo para a diminuição dos estoques de peixe, estão diretamente relacionados ao avanços tecnológicos, principalmente em função das políticas de modernização do setor pesqueiro nacional a partir da década de 1960, que estimularam a industrialização da atividade, desde a captura até o beneficiamento, e elevaram, em muitos casos a captura de pescado a níveis superiores à capacidade de renovação dos estoques naturais, e ainda, intensificaram a transformação dos sistemas de produção da pesca artesanal, (PESQUOTTO; MIGUEL, 2004).

Além disso, também estão relacionados a modernidade a degradação e poluição dos ambientes aquáticos. De acordo com Garcez e Sánchez-Botero (2005), a Lagoa dos Patos sofre com a poluição gerada pelo despejo de esgoto doméstico sem tratamento, rejeitos industriais e escoamento de agrotóxicos (utilizados principalmente nas lavouras de arroz).

Alguns agentes químicos presentes nesses poluentes, de acordo com a relevante obra de Colborn e Dumanoski (1997), podem avançar pela cadeia alimentar. Suas concentrações podem ser ampliadas até 25 milhões de vezes nos tecidos dos animais. A biomagnificação destes agentes ocorre da seguinte forma: os organismos microscópicos retiram agentes químicos persistentes da água e dos sedimentos. Esses organismos, por sua vez, são consumidos em grande número pelo zooplâncton. Espécies maiores, como os camarões, consomem o zooplâncton; peixes comem os camarões; e, assim por diante, em direção ao topo das cadeias

alimentares, que se industrializadas e globalizadas, interligam cada um a praticamente todos os demais na face da terra.

A situação atual de risco da Colônia de Pescadores Z-3, assim como de outras comunidades de pescadores artesanais, vai ao encontro da teoria de Beck (2010), pois esse autor demonstra que a modernização, de um modo geral, ampliou os riscos civilizacionais, com ameaça à natureza, à saúde, à alimentação, etc., relativizando as diferenças e fronteiras sociais. Nesse sentido, a sociedade de risco, não é a sociedade de classe, dessa forma, seus conflitos também não podem ser concebidos como conflitos de classe. “A produção industrial é acompanhada por um universalismo das ameaças, independente dos lugares onde são produzidas”.

Fica claro que, a decadência da pesca na Lagoa dos Patos tem diversos responsáveis, porém, o que se tentou mostrar com isso, é a chamada “desvalorização” ou “desapropriação ecológica”. Segundo Beck (2010), tudo o que ameaça a vida nesse planeta, estará ameaçando também os interesses de propriedade e de comercialização daqueles que vivem da mercantilização da vida e dos víveres. Surge dessa maneira, uma genuína contradição, que sistematicamente se aprofunda, entre os interesses do lucro e propriedade que impulsionam o processo de industrialização e suas diversas consequências ameaçadoras, que comprometem e desapropriam, inclusive, os lucros e a propriedade (para não falar da propriedade da própria vida).

Os impactos socioambientais relacionados à pesca na Lagoa dos Patos, com seus recursos pesqueiros cada vez menores e afetados pelo efeito de águas contaminadas, não impactam apenas os muitos que dela vivem, mas também, os consumidores desse pescado.

Assim, esses conflitos que surgem em torno dos riscos da modernização inflamam-se a partir das causas sistemáticas congruentes com o motor do progresso e do lucro. E nos levam a refletir sobre se podemos prosseguir com a dilapidação da natureza e, consequentemente, se nossos conceitos de “progresso”, “bem estar”, “crescimento econômico” e “racionalidade científica” ainda valem (BECK, 2010).