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4. APRENDÊNCIA: PROCESSO VITAL E COGNITIVO

4.1 SOCIEDADE DO CONHECIMENTO E A CULTURA DA APRENDIZAGEM

É fato que vivemos em uma sociedade do conhecimento. Para muitos, sobretudo uma sociedade da informação, uma vez que nem todos podem ter acesso às múltiplas formas culturais de representação simbólica (numéricas, artísticas, cientificas, gráficas, etc.) social, econômica e culturalmente empobrecida, além de viver confundido, oprimido e desconcertado diante de uma avalanche de informação que não se pode traduzir em conhecimento, para a qual não se pode dar sentido. Até porque o não acesso ou a distribuição desse conhecimento acumulado torna-se cada vez mais difícil e desigual em face das crises constantes que sofrem nossos sistemas educacionais, “solicitados por crescentes demandas de alfabetização – isto é, de universalização de sistemas de culturais de representação e conhecimento – já não somente literária e numérica, mas também científica, artística, econômica, etc” (POZO, 2004, p.11).

O valor crescente do conhecimento e sua gestão social em nossa sociedade, segundo Pozo (2004), deveriam também valorizar, a importância dos processos de aquisição desse

conhecimento, uma vez que são algumas ferramentas mais poderosas para espalhar e distribuir socialmente essas novas formas de gestão do conhecimento, para democratizar o saber, tornando-o sentido mais popular e acessível para todos. Sabe-se que há um fosso e uma distância em relação ao acesso à informação e ao conhecimento de uma grande maioria da população mesmo com toda popularização das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação). Assmann (2004) afirma que elas “possibilitam mixagens cognitivas e cooperativas”, além do mais:

[...] grande número de agentes cognitivos humanos pode interligar-se em um mesmo processo de construção de conhecimentos. E os próprios sistemas interagentes artificiais se transformaram em máquinas cooperativas com as quais podemos estabelecer parcerias na pesquisa e no avivamento de experiências de aprendizagem. (ASSMANN, 2004, p. 9).

Acrescenta o autor (op.cit.), que as TICs começaram a possibilitar parcerias inéditas com os seres humanos, indo além de meramente configurar, formatar ou enquadrar conjuntos complexos de informação, participando ativamente do processo que transforma dados em informação e informação em conhecimento.

Bzuneck (2004, p.19), por sua vez, critica o artificialismo na comparação homem- computador, acrescentando razoável interpretação de legitimidade à teoria construtivista “uma vez que o aprendiz, ao processar a informação, é considerado como protagonista do processo e que não pode ser substituído por ninguém”.

Assim sendo, essas ferramentas poderiam, na sociedade, serem distribuídas equitativamente entre todos. Apropriar-se dessa cultura simbólica que a sociedade do conhecimento demanda, exige, portanto, novas formas de adquirir conhecimento. Acontece que, de fato, entre os conhecimentos culturais que esses processos permitem aprender, está, por sua vez, incluída ou

implícita, uma cultura da aprendizagem, que entre muitas ferramentas multimídia inclui um “kit de sobrevivência cognitiva” que, segundo Pozo, (2004), é composto de novos processos de aquisição do conhecimento.

A aprendizagem pode ser entendida como uma função biológica desenvolvida nos seres vivos de certa complexidade, que implica produzir mudanças no organismo para responder às mudanças internas pra futuras interações com o ambiente, e isto exige impor também de diferentes sistemas de memória ou representação de complexidade crescente. (POZO, 2004, p.12)

Compreendendo melhor esta questão, na realidade, conforme explicitado, o ambiente no qual um organismo vive não depende tanto de configuração física dos estímulos, como da organização cognitiva que o próprio organismo impõe a esses estímulos, isto é, os ambientes são ‘nichos cognitivos’ construídos pelos próprios organismos como conseqüência das próprias pressões seletivas do ambiente de tal modo que o organismo e ambiente se constroem mutuamente. O que caracteriza os ambientes culturais, na verdade, é precisamente sua extraordinária variabilidade e complexidade, em comparação com os nichos cognitivos das demais espécies, e isto exige novas formas de aprender, de mudar para adaptar-se a essas novas demandas ambientais geradas pela cultura. Contudo, essas novas formas de aprender, especificamente humanas, de acordo com a lógica da mútua construção entre organismo e ambiente, são, não apenas resultado de novas exigências culturais, mas também uma das vias essenciais para se ter acesso a esse mesmo conhecimento (POZO, op.cit).

A aquisição do conhecimento é o traço mais característico de nosso sistema cognitivo, o sistema que nos diferencia, não somente dos organismos que aprendem, mas também de outros sistemas cognitivos artificiais. Embora a fronteira que nos separa psicologicamente de outras espécies costume situar-se caracteristicamente na linguagem, ou o próprio pensamento consciente, tanto a comunicação mediante uma linguagem simbólica como o acesso

consciente aos próprios pensamentos ou representações estariam estreitamente relacionados à nossa capacidade de conhecer e de acumular os conhecimentos adquiridos.

Embora outras espécies, conforme afirma Tomasello (apud POZO, 2004, p. 13), outras espécies são capazes de inventar como nós, novas soluções adaptativas e, inclusive, de compartilhá-las socialmente. No entanto, somente os seres humanos conseguem acumular essas soluções culturalmente em forma de conhecimento, transmitindo-a de geração a geração, porque dispõem de sistemas de aprendizagem e representação que os diferenciam dos demais organismos e sistemas que aprendem.

Contudo, a fronteira que nos separa psicologicamente de outras espécies caracteristicamente situa-se na linguagem, ou no próprio pensamento consciente. Tanto a comunicação mediante uma comunicação simbólica como o acesso consciente aos próprios pensamentos ou representações estariam estreitamente relacionados à nossa capacidade de conhecer e de acumular conhecimentos adquiridos. Somente os humanos conseguem acumular soluções culturalmente em forma de conhecimento, transmitindo-as de geração a geração, porque dispõem de sistemas de aprendizagem e representação que os diferenciam dos demais organismos e sistemas que aprendem. De acordo com este fundamento, Pozo (2004) acrescenta que o homo sapiens teria, de alguma maneira, sua origem psicológica no homo discens, uma vez que os conhecimentos e saberes elaborados culturalmente exigiriam processos específicos de aprendizagem que permitissem não somente acumular suas próprias experiências e as dos congêneres, mas também torná-las explicitas (aprendizagem especificamente humanas) e através desses processos construí-las e compartilhá-las.

A aprendizagem humana pode, de fato, ser abordada em diferentes níveis de análise (comportamento, informação representação, conhecimento) que implicam uma complexidade crescente, uma vez que cada um deles, segundo a

lógica da integração hierárquica de sistemas, exige dos níveis anteriores ou, melhor ainda, os re-descreve num nível hierárquico novo. (POZO, 2004, p.14).

É possível considerarmos, a partir destes pressupostos, visões mais ampliadas em conexão com as outras concepções ecossistêmicas sobre nossa condição no planeta, na sociedade. As informações, os conhecimentos e atuações sobre os processos de aprendizagens não podem ser reduzidas ao plano individual como algo hermético, em que estão focados como causas das “dificuldades e facilidades da aprendizagem os fatores, psicossocioafetivos, cognitivos ou físicos, considerando-os isoladamente”, verifica Fagali (2006, p.12). Assim também, quando se focaliza exclusivamente as forças pedagógicas e as questões próprias de sala de aula, há uma tendência polarizada sobre o processo de aprender formal institucionalmente como o conhecemos enquanto finalidade precípua da escola.

Ainda na voz de Fagali (2006), é necessário maior aprofundamento numa abordagem mais abrangente e menos reduzida, de maneira a levarmos em conta as interações entre as múltiplas aprendizagens do homem na sociedade, em diferentes instâncias de aprender formal e informal, numa concepção em que interagem as forças geradas pelos fatores socioculturais e econômicos do sistema e da cultura e a rede de interações dos aspectos psicossociobiológicos dos indivíduos e grupos, tendo em vista as relações de reciprocidade entre eu-outro, e a dialogicidade entre as manifestações individuais e coletivas que se complementam.

Esta idéia se interliga com o que Pozo (2004) mostra através do compartilhamento de experiências vividas entre e pelos indivíduos. O estudo dos processos psicológicos por meio do qual as pessoas adquirem o conhecimento é, portanto, uma “janela privilegiada” para refletir nossa especificidade cognitiva, sobre aquilo que nos diferencia, enquanto sistemas mentais ou cognitivos, dos demais organismos uma vez que a construção no processo

evolutivo, de novas funções cognitivas e concretamente de conhecer ou representar explicitamente as próprias representações cognitivas, somente se completa num processo de humanização mediante acesso, culturalmente mediado, a novos sistemas de representação e conhecimento, em contínua evolução cultural, que abrangem novas formas de conhecer, e certamente, novas funções cognitivas.

Nesse sentido, é como se os indivíduos experimentassem a cada momento uma imersão de conectividade em rede, em interfaces hipertextuais entre eu-outro. É o que Assmann (2004) denomina de “sociedade aprendente ou organizações aprendentes”, noções que abordaremos com mais rigor adiante.

Somente se pode aprender a cultura, participar dela, quando se adquire uma cultura da aprendizagem que esteja de acordo com ela. A cultura - ou o conhecimento – e a aprendizagem são dois processos, ou sistemas, de construção mútuas.