Capitulo I. Os fundamentos teóricos do corpo no campo da Sociologia
5. O corpo mediatizado
5.1. Sociedade e imagem corporal
Esta questão tem particular relevância quando falamos da mulher e do corpo feminino, uma vez que se tem vindo a desenvolver uma noção de feminilidade que se entrecruza com a de consumismo e com a imitação de celebridades. Olhando para o passado, estas figuras de referência foram aristocratas, seguidamente herdeiras de grandes fortunas, passando mais recentemente às estrelas de cinema, modelos, estrelas da música e de televisão. Estas referências influenciaram assim o denominado ‘look’, ou seja, o conjunto iconográfico feminino. Assim, a identidade da mulher surge associada à exposição dos seus atributos (Craik, 1993), algo que já
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lhes é enraizado desde a sua infância: “a girl learns that a main function of her body is to attract others” (Stephens, Hill e Hanson, 1994: 144).
O consumo materializa-se num ato de compra e, por conseguinte, de posse, que atualmente inclui um variado leque de possibilidades, sejam eles bens materiais ou não. O ato de fazer compras está, desde sempre, associado à mulher, ato natural do ser feminino: “women belonged to the world of leisure and the men to the world of work” (Craik, 1993:71). Daí que, mesmo quando os produtos não estão diretamente relacionados com a mulher, os publicitários não deixam de orientar os seus recursos para ela. A própria organização das compras está dividida entre os diferentes tipos de bens e serviços que fazem parte direta ou indiretamente à vida das mulheres. Tal como a maioria dos atos das mulheres passam por um controlo e disciplina, também o ato de fazer compras deve ser disciplinado, na qual operam as suas competências de seleção, avaliação e formação. Uma vez que representa um papel significativo na vida da mulher, as compras contribuem igualmente para a formação da sua identidade através da variada oferta de imagens de feminilidade, estando aqui mais suscetível e, possivelmente, ao seu alcance (Craik, 1993).
A questão do consumo torna-se, pois, fundamental, para a construção da imagem corporal. Esta imagem constrói-se, como vimos, à semelhança daquilo que é vendido pelos media, ou seja, um ideal de beleza feminino que espelhe magreza, tonificação, juventude, e que se torna central na construção da autoidentidade, através do desenvolvimento da consciência do corpo, que se deve aproximar o mais possível da imagem ideal. A comparação social é aqui um fator bastante relevante, na medida em que afeta significativamente como as pessoas pensam e sentem sobre si próprios e as emoções que experienciam. Ao compararem-se com outros, nomeadamente quando essa comparação é superior, isto é, julgam os outros como estão acima de si próprios, pode levar a diminuição da sua autoestima, bem como originando uma autodepreciação visível também para os outros (Smeesters, Mussweiler e Mandel, 2010). Vários são os estudos que se debruçam sobre os ideais de beleza feminina retratada nos vários meios de comunicação ou questões relacionadas com o comportamento da anorexia e distúrbios alimentares.
Como já referido anteriormente, o conceito de dieta tem-se vindo a complexificar devido à difusão de informação sobre o mesmo, a par do desenvolvimento da nutrição e consequente medicalização das sociedades. Por isso mesmo, a relação entre corpo e alimento passa da simples relação básica da necessidade humana de se alimentar para uma relação de consumo que, na verdade, resulta num conjunto de escolhas de produtos. Saber alimentar-se devidamente, escolher os alimentos adequados e, sobretudo, ser capaz de se autocontrolar no que toca a ‘pecados e excessos’ são regras chave para um estilo de vida correto e saudável, muitas vezes vendidos por anúncios publicitários alimentares. A alimentação hoje tem, por isso, uma conotação diferente de
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outros tempos, sendo encarada como um problema difícil de gerir e que tem impactos, pois como afirma Falk, “Eating is defined as a problem on a much more basic level, which in fact envolves the very constitution of the apetite in a specific form, as na aspect of the constitution of individualized self and body” (1994:28) Num dia-a-dia agitado e stressante típico das sociedades atuais, os cuidados com a alimentação e a manutenção de uma dieta correta não é fácil, como Charles e Kerr (1986 cit. por Lupton, 2003) verificaram num estudo onde ficou patente as dificuldades sentidas pelas mulheres em alimentarem-se corretamente de acordo com o consideravam essencial para a manutenção do seu corpo e, ao mesmo tempo, alimentar as suas famílias. Muitas destas desejavam perder peso, mostrando, assim, o conflito destas mulheres com a alimentação.
A insatisfação das mulheres com o seu corpo é um dos temas centrais de muitas destas investigações, como é o caso do estudo desenvolvido por King, Touyz e Charles (2000) com jovens mulheres, com o objetivo de perceber se a exposição a imagens dos media afeta significativamente a satisfação dessas mulheres com o seu corpo. Sendo um dos métodos principais de pesquisa a avaliação de imagens de celebridades reais e distorcidas, os investigadores concluíram que o facto de as mulheres se sentirem insatisfeitas com o seu corpo leva a avaliarem as imagens das celebridades como sendo mais magras do que o são na realidade. Isso espelha então o desconforto sentido na primeira pessoa, o desejo de prossecução de um objetivo, sendo este a magreza visualizada, e confirma ainda a afetação pelas imagens mediáticas, o que não acontece quando não existe insatisfação. Além disso, a avaliação de imagens que continham celebridades consideradas pesadas corresponderam à realidade, estando aqui patentes as conotações negativas vigentes na sociedade atual no que respeita ao corpo gordo e ao que significa ‘ser pesado’ na atualidade.
Num outro estudo similar, Stephens, Hill e Hanson (1994) debruçando-se sobre o crescimento da indústria das dietas e os consequentes problemas relacionados com dietas crónicas, detetam também que a insatisfação e insegurança corporal nas mulheres corresponde a uma maior atenção dada a anúncios que envolvam o físico feminino enquanto condição de beleza, resultando numa maior persuasão dos consumidores. “Advertising researchers have found that na attractive model or product endorser may positively influence the recipient’s attitude toward the ad (…), attitude toward the advertised brand (…), purchase intension (…) and actual purchase (…)” (Stephens, Hill e Hanson, 1994:146).
Outras investigações destacam também, os impactos que a identidade focada no corpo podem ter noutras dimensões, como por exemplo, o género. Masculinidade e feminilidade são quase sempre pensadas como procedendo dos corpos das mulheres e dos homens, como afirmam
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Craig J. Thompson e Elizabeth C. Hirschman (1998). A experiência do corpo e as suas constantes mudanças derivam de um olhar sobre si próprio enquanto objeto, enquanto um ser material, que se conjuga com uma consciência subjetiva que se vai moldando com o desejável no momento. Isto corresponde às identidades pós-modernas que, segundo os autores são fruto do consumo que, através das mais variadas formas de discursos culturais, serviços e produtos, tornam o corpo numa tela para a materialização de aspirações pessoais e sociais. Assim sendo, e tendo em conta os resultados da investigação de Thompson e Hirschman (1998), a identidade de género centrada no corpo pode ser rompida se o corpo for impedido de ter as características que deveriam ter. O medo de se tornar gordo, o sentimento de perda de controlo sobre as transformações operadas no corpo pelo tempo e o desejo de compensar falhas físicas no corpo são alguns dos sentimentos comuns entre os participantes do estudo, que procuram no consumo uma forma de ultrapassar estas questões. Neste sentido, os autores afirmam que o ato de consumir nas sociedades pós-modernas é o principal meio através do qual o projeto pessoal está promulgado na esfera da vida quotidiana, projeto este que corresponde a um processo de construção da sua própria narrativa, da sua identidade. McCraken descreve este projeto de forma bastante apropriada:
“The project is a continual one in two senses. It is, first of all, intensely processual, so that its objective, the construction of a life, is realized not with a single operation, or a series of operations, but through the act itself. The project does not have a beginning and an end; the project is fulfilled as it is undertaken. Second, it is constantly changing as the individual is driven to change by circumstance, preference, and the life cycle. New projects become necessary as the individual ages, as some projects prove impractible, as some of them are completed and as the world around the individual changes. All of these factors call for new projects. It is for both of these reasons perpetual.” (1987 cit. por Thompson e Hirschman,1998: 440).
Os mesmos autores, numa outra análise pós-estruturalista de um conjunto de consumidores, destacam novamente a complexidade da construção do projeto individual. Este projeto, porém, não depende apenas da obtenção e consumo de determinados bens para a sua prossecução, mas também da forma como os indivíduos, ao procurarem pelo seu corpo desejado lidam com as várias mudanças, quer físicas, quer psicológicas que vão jogar com a sua identidade: “They saw their bodies as living records of their life stories and consumption habits” (Thompson e Hirschman, 1995: 15). O discurso sobre um estilo de vida saudável envolve, então, não só um corpo adaptado às exigências da própria sociedade, mas igualmente um projeto de construção do próprio self, o que pressupõe que o objetivo de realização pessoal passa pela busca da aparência desejada que, consequentemente, fará com que o seu self se sinta compatível com o seu exterior corpóreo.
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Em suma, o corpo adquiriu uma centralidade de tal modo significativa, acabando por evidenciar questões ligadas à ansiedade relativa aos seus limites, às dietas e ao seu controlo. Estes estudos são exemplificativos da evidente distorção da imagem corporal feminina nos media, e de como todos esses meios dedicados às mulheres atingem especificamente aquelas que experienciam problemas relacionados com a sua imagem corporal, seja por distúrbios alimentares, seja por excesso de peso, ou então pelo difícil acesso à mercantilização do corpo.
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