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3. APONTAMENTOS DE CONTEXTO E APROXIMAÇÕES TEÓRICAS

3.2. SOCIEDADE EM REDE

O fenômeno verificado na sociedade contemporânea, especialmente entre os jovens, resulta preliminarmente da apropriação pelas tecnologias digitais e do crescente movimento de acesso a essas tecnologias. Trata-se da configuração de uma sociedade de rede (CASTELLS, 2003), atualmente o mesmo autor já fala em sociedade móvel, na qual as interações baseiam-se mais fortemente em contatos promovidos via internet do que em encontros presenciais, fator que tende a tornar o homem cada vez mais um “ser virtual”. Segundo Castells (2003, p.107): “A grande transformação da sociabilidade em sociedades complexas ocorreu com a substituição de comunidades espaciais por redes como formas fundamentais de sociabilidade”.

Vivemos, assim, em uma sociedade de redes, que estimula o sujeito a um comportamento cada vez mais individualizado e capaz de deter o poder de escolha das informações e dos grupos que vai participar.

A ideia de sociabilidade em rede parece gerar um paradoxo diante da perspectiva encontrada pelos sociólogos pós-modernos que detectam um processo de tribalização. Mafesoli (2006), por exemplo, percebe que os grupos se diferenciam pela comunhão de ideias, preocupações impessoais, estabilidade da estrutura que supera as particularidades do indivíduo. Essas características, essenciais aos grupos, fundamentam-se, antes, no sentimento partilhado, remetendo-nos a um sentimento de despersonalização. O fato é que essa aparente contradição entre o individualismo estimulado pelo mundo digital e a

possível diluição do indivíduo na tribo da rede de computadores, na verdade, tende a se desintegrar nas operações praticadas pelos sujeitos comunicacionais. O ato individual da escolha só ganha sentido se ele for compartilhado pelos grupos de amigos na Internet, portanto, pelas tribos digitais. No âmbito da realidade digital, é uma tendência que, para Castells (2003, p. 109), confere um novo padrão em sociedade:

“O individualismo em rede é um padrão social, não um acúmulo de indivíduos isolados. O que ocorre é antes que os indivíduos montem suas redes, on-line e off-line, com base em seus interesses, valores, afinidades e projetos. Por causa da flexibilidade e do poder de comunicação da internet, a interação social on-line desempenha crescente papel na organização social como um todo”.

Portanto, o indivíduo digital precisa de uma tribo. E, na dinâmica da atuação desse sujeito e seu grupo e nessa ambiência midiática, inclui-se uma natureza de interação que se mostra mais complexa se comparada àquela entre indivíduos, ou entre indivíduos e tribos, ou entre tribos e sociedade, ou entre indivíduo/mídia/sociedade, descrita pela sociologia. Em um novo ambiente onde os sujeitos se unem por redes digitais, o processo de interação implica mais níveis de mediação para que a comunicação aconteça. Nesse universo, criam-se novas formas de relacionamento, e a interação, que deixa de ser apenas física e estende-se para o virtual, permite ações a distância (PRIMO, 2007).

A interação, hoje em dia, não está ligada apenas ao computador propriamente dito, mas a inúmeras formas de acesso à rede, como os dispositivos móveis, caso dos telefones celulares e tablets, que possibilitam a conexão contínua dos sujeitos em qualquer lugar e a qualquer momento graças à tecnologia de acesso à Internet sem fio. Não é por acaso que Castells em 2008 passa a falar em redes móveis. Com um smartphone, há a possibilidade de fotografar, filmar, ainda que brevemente, escrever pequenos textos e compartilhar conteúdos na rede. Tudo isso mesclando múltiplas linguagens como intenção de compartilhar coisas consideradas relevantes. Portanto, pretendemos avaliar na pesquisa se, neste ambiente de amplo acesso à informação, através da interação, a lógica da rede ou a ideia de tribalização podem influenciar as escolhas de carreira do indivíduo.

Já a interação, entendida nos termos de Primo, pressupõe a “ação entre”, enquanto que comunicação seria “ação compartilhada”; ou seja, processo que se dá entre participantes da interação. Seriam os interagentes (PRIMO, 2007), como já mencionado, e que preferimos designar como sujeitos interacionais.

A interatividade, dentre todas as características que agregam valor a este ambiente virtual ao qual nos referimos, é a que anuncia ser mais revolucionária e a que mostra maior potencial de desenvolvimento de modelos de negócios na Internet.

Já Levy nos propõe que: “a possibilidade de reapropriação e de recombinação material da mensagem por seu receptor é um parâmetro fundamental para avaliar o grau de interatividade do produto” (2010, p.81). Assim, interação, por mais complicada que seja de definir, deve ser entendida como um processo de ação compartilhada entre os agentes interacionais, no caso de ser esta mediada pelo computador.

Já a interatividade é definida por Barbosa Filho e Castro como:

“relação estabelecida entre o campo da produção e da recepção, onde as audiências podem interagir, em diferentes níveis, como produtores e/ou editores de audiovisuais de ficção ou realidade, podendo participar inferior ou comentar os programas” (2008, p.232).

Os níveis de interatividade podem variar conforme o meio e a intenção. Para Primo (2007), há dois tipos de interação: mútua e reativa.

A interação mútua é aquela caracterizada por relações interdependentes e processos de negociação, em que cada interagente participa da construção inventiva e cooperativa do relacionamento, afetando-se mutuamente; já a interação reativa é limitada por relações determinísticas de estímulo-resposta (PRIMO, 2007, p.57).

O processo de interação mútua requer “mudanças recíprocas” (PRIMO, 2007, p.57) dos agentes de comunicação durante o processo. Esse tipo de interação é relevante para este trabalho, porque é produtora de sentido. Além disso, permite também que haja relacionamentos que carecem de uma série de interações anteriores para influenciar os comportamentos de ambos. Essa forma de intercâmbio impacta tanto o “interagente, o outro e o relacionamento” (Ibd,57).

É importante salientar que a comunicação mediada por dispositivos informáticos13, por sua competência de mediar trocas “um-um”, aproxima-se da comunicação interpessoal e, por sua aptidão de mediar “todos-todos”, equivale-se à interação em grupos presenciais (PRIMO, 2007, p.99). Porém, nem todas as interações digitais podem ser dadas somente entre pessoas; também há as interações com os aparelhos e entre as máquinas. Essas possibilidades promovem o que o autor classifica como interações múltiplas.

Primo (2007) nos alerta que o estudo das interações deve partir de uma investigação das relações mantidas, jamais observando os participantes em separado, mas sim, analisando o que se passa entre os agentes comunicacionaiss.

Nesse ambiente digital, são construídos conjuntamente os relacionamentos, de maneira que as ações de um são influenciadas pelos atos dos outros:

“Em cada encontro, as ações de cada interagente definem (ou redefinem) o relacionamento”(...) Além de participarem da definição de suas relações, os participantes também são definidos pelos relacionamentos” (PRIMO, 2007, p.105).

Essa alteração mútua tem duas funções de modificação: transformar a compreensão dos interlocutores da ação em questão e alterar as relações entre os próprios interlocutores. Assim, depreende-se que as pessoas constituem-se do cruzamento de diversas interações, que irão manifestar seu histórico de relacionamentos (PRIMO, 2007).

Ambientes virtuais para embate de ideias servem justamente para isso. Espaços de interação, como blogs, chats e redes sociais14, permitem ao sujeito a abertura às possibilidades de contestação ou até construção colaborativa.

13Entendemos como dispositivos informáticos o computador propriamente dito, mas também uma série de aparatos digitais conectados à internet, tais como telefone celular, tablets, notebooks, entre outros.

14 Redes sociais são estruturas dinâmicas interligadas de forma horizontal e predominantemente descentralizadas. O estudo das redes sociais no âmbito da internet leva em conta padrões de conexões entre atores que estabelecem laços sociais diversificados em rede, como relações pessoais, organizacionais ou de interesses específicos. Enciclopédia Intercom- Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da comunicação, 2010.

O Facebook15 tem recursos que, por exemplo, permitem aos usuários deixar suas impressões sobre diferentes assuntos. Sem esse tipo de interface, seria possível apenas uma interação reativa. Porém, com a possibilidade de comentar as publicações alheias, podem-se ter fóruns de discussão sobre diversos assuntos diferentes, criando um ambiente de debate entre diversos agentes comunicacionais.

No caso em que há apenas a interação entre computadores, visando apenas ao funcionar deles, o intercâmbio de informações é administrado por instruções propostas pelos programadores. Dessa maneira, a relação entre as máquinas não é construída entre elas, não havendo nesse processo os pressupostos da interação mútua, tais como conflito ou cooperação.

Muitas pessoas acabam por confundir o que realmente é interatividade mediada pelo computador. Alguns acreditam que sejam recursos para facilitar o manuseio de programas ou escolha entre alternativas disponíveis, porém estes são processos já programados tecnicamente pelos webdesigners, que não representam a interação entre pessoas, mas sim uma facilitação do uso da máquina. Pelo contrário, enquanto as interações mútuas trabalham com a capacidade de relacionamentos, as interações reativas estão presas à previsibilidade e automatização das trocas.

Meyrovitz (2001) nos alerta que, para haver a interação do homem com qualquer meio de comunicação, é necessário que haja uma compreensão da gramática desse veículo. O autor batiza esse processo como alfabetização midiática, a qual deve garantir que o sujeito compreenda tanto a linguagem como o significado das variáveis de produção da mídia.

Na era analógica, cada veículo teria sua própria linguagem, que deveria ser compreendida. A linguagem digital, dos múltiplos dispositivos de acesso à rede, acreditamos, deve ser composta por uma multiplicidade de linguagens (TV, fotografia, rádio, cinema, etc.) que são acessadas concomitantemente, trazendo a ideia de hibridização (como veremos a seguir).

15 Rede social Facebook, disponível em: http://www.facebook.com. Visualizado dia 23 de outubro de 2011.

Dessa forma, para que haja possibilidade de interação com esses novos meios, é necessária a ampla alfabetização para esses suportes.

Esse atual ambiente de interação em rede traz também novos olhares para o estudo da comunicação social. O advento dos meios digitais cria novas formas de relacionamento e também abre discussões sobre o novo papel dos produtores e receptores, bem como a construção dos conteúdos e uso das novas tecnologias.