apítulo 4. Quando novos atores entram em cena: conflitos e confrontos, gritos e silêncios
4.1.2. Da sociedade de risco à identidade real
A tese da sociedade de risco, proposta por Beck (1992) pode ser considerada uma das mais influentes na modernidade. Ele deixa explícita a sua crítica aquilo que a modernidade produz enquanto riscos e à própria modernidade. Reflexão esta endossada por Hannigan (2009, p.43). Para ele, essa tese parte do princípio que as nações passaram de uma sociedade industrial para a de “sociedade de risco” (Hannigan, 2009, p.44-45). Suas ponderações referentes à sociedade industrial, são de que “a riqueza socialmente produzida pode ser distribuída de uma maneira socialmente desigual” e que simultaneamente ela também “minimiza os efeitos colaterais negativos (pobreza e
fome)”. Já para o paradigma da sociedade de risco, “os riscos e perigos produzidos como parte da modernização, especialmente a poluição, devem ser prevenidos, minimizados, dinamizados, dramatizados e canalizados”. Neste caso,
“o risco é visto como sendo muito mais igualmente distribuído do que era o primeiro caso” (Idem, p.45). Beck argumenta que “a fome é hierárquica, a
poluição é democrática”. E Hannigan destaca que a chamada por ele de
“sociedade de distribuição de riqueza” e a “sociedade de distribuição de risco são compostas de desigualdades e está se alastrando principalmente pelos centros industriais do Terceiro Mundo”. Os “riscos dependem simultaneamente da
construção cientifica e social. A ciência é uma das causas, o meio de definição e a fonte de soluções aos riscos, e devido a isso, abre novos mercados de cientifização para si mesma”. (BECK,1992, p.154).
Pela exposto depreende-se que cada vez mais a utilização das técnicas produz diferentes riscos e intensidades de afetação a diferentes atores sociais. A
produção de energia elétrica por hidrelétrica é uma delas, a exemplo do risco da perda de territórios por diferentes tipos de comunidades tradicionais na Amazônia e sua interferência inclusive na identidade destas populações.
Afinal, a sociedade pode ter mudado, da industrial para a que alguns chamam de pós-industrial, de serviços, etc., mas a essência continua a mesma: o lucro à custa de tudo, do homem e do ambiente. E a técnica ou as tecnologias, neste sentido, seguem a rota que abrevia o lucro, causando destruições à parte da sociedade e do ambiente que interessa aos poderosos.
A existência dos conflitos denota que os atores sociais estão expostos diferentemente a uma vulnerabilidade, aos riscos. Assim, a gestão dos mesmos não poderia pautar-se em aspectos unicamente técnicos. Zanirato et al., sobre isso, afirmam que:
A gestão dos riscos naturais, tecnológicos ou sociais solicita a multiplicação de atores e não pode ser colocada somente em termos técnicos ou estritamente securitários. As negociações devem envolver agências multilaterais, governos dos estados, empresas, associações ou grupos de pressão e a sociedade em geral, de modo a esclarecer os fatos que desencadeiam os riscos e determinar as condições para seu enfrentamento. (ZANIRATO et al., 2008, p.14).
Essas ocorrências podem ser frutos das conseqüências da modernidade assinaladas por Giddens (1991, p.15-16) basicamente no que se refere à descontinuidades entre as instituições sociais modernas e as tradicionais. A primeira a que ele se refere é ao “ritmo de mudança” observando que em condições de modernidade a mudança é “extrema”. A segunda descontinuidade é o “escopo da mudança”, onde em diferentes espaços do planeta, as descontinuidades “são postas em interconexão” onde “ondas de transformação
fim, apresentada é a “natureza intrínseca das instituições modernas” por que “algumas formas sociais não se encontram em períodos históricos precedentes
(...) outras tem apenas uma continuidade especiosa com ordens sociais pré- existentes”.
Os riscos percebidos por Beck estão relacionados à modernização e suas conseqüências, muitas imprevisíveis. Essas consequências podem interferir nas representações sociais e nas culturas tradicionais, “onde o passado é honrado e
os símbolos valorizados porque contem e perpetuam a experiência de gerações”.
Assim, a técnica que muda e amolda o mundo, engravidada pela lógica do lucro, instala o novo sem preocupação com o passado, pois o que interessa é o ganho, presente e futuro. O passado não conta tanto; sobretudo o das comunidades tradicionais.
A tradição, aliás, segundo Giddens (1991, p.44), é um modo de integrar a monitoração da ação com a organização tempo-espacial da comunidade.
Nos termos de Soja (1993, p. 185) as representações são expressas naquilo que chama de “localidades”, termo não usado por Giddens. São tipos
“particulares de locais permanentes social e espacialmente estabilizados através do estabelecimento aglomerado de sítios de atividade primária e do estabelecimento de comunidades territoriais afins”. Como todos os locais, elas
são estruturações espaço-temporais provenientes da combinação da ação humana e do impacto condicionador das condições espaço-temporais preexistentes.
Neste contexto de riscos, é preciso entender a percepção de risco que
“significa reconhecer e aceitar a dimensão social do risco, porque sua percepção é em si um fenômeno social e não individual. Daí, como tal, uma construção
social do risco decorrente de acordo com o tipo de sociedade da qual emana, suas crenças e visões dominantes”. (ACOSTA, 2005, p. 16).
A construção social do risco é possível a partir da diversidade social. É esta diversidade que coloca determinados grupos em situações de diferentes vulnerabilidades. Blaikie et al. (1996, p.30) analisa as características chaves que denotam quais grupos estão mais vulneráveis que outros como a classe social, casta, etnicidade, gênero, incapacidade, idade ou status. Os autores mencionam que essa definição inclui também a variável temporal, pois a vulnerabilidade não está somente relacionada a vida e à propriedade, mas também aos meios de vida, onde os mais vulneráveis tem maiores dificuldades de reconstruir seus meios de sobrevivência.
Por vulnerabilidade, os autores entendem as característica de uma pessoa ou grupo a partir do ponto de vista que possuem para antecipar, sobreviver, resistir e se recuperar do impacto de uma ameaça natural.
Dos eventos hidrelétricos no Brasil, o relato geral é de que a vulnerabilidade populacional está intimamente ligada àqueles desprovidos do acesso a bens informacionais e com recorte de raça e etnia. Podemos entender que há também a vulnerabilidade institucional, pois os órgãos reguladores e responsáveis pelo setor estão à mercê de outros setores. Neste caso, não específico ao setor interno ao órgão, mas ao setor econômico globalizado que não permite a vocalização dos que compõem a vulnerabilidade populacional mantendo-os invisíveis perante a sociedade quando não marginalizados.
Porto (2009) diz que o tema sobre vulnerabilidade foi desenvolvido para designar aquelas populações e regiões que possuem maiores dificuldades de absorver os impactos destes eventos. Estas populações e regiões acabam
sofrendo com interferências externas aos seus espaços locais-lugares, promovendo sobremaneira a desarticulação das relações sociais aí estabelecidas. Este desencaixe de relações é ocasionado pelo dinamismo da modernidade. Essa configuração é posta por Giddens (1991) onde:
“o advento da modernidade arranca crescentemente o espaço do tempo fomentando relações entre outros ‘ausentes’, localmente distantes de qualquer situação dada ou interação face a face. Em condições de modernidade, o lugar se torna cada vez mais fantasmagórico: isto é, os locais são completamente penetrados e moldados em termos de influências sociais bem distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente o que está na cena; a ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza”.
A modernidade com sua capacidade de desencaixe das relações sociais em seus respectivos espaços geográficos, acabam por interromper as territorialidades. Elas estão marcadas pela relação das pessoas com o território. O território é uma categoria geográfica que expressa a partir de seu uso e apropriação as representações sociais e identitárias daqueles que o detêm. CLAVAL (1999, p.17) levanta esse questionamento – “pode-se ter identidades
sem ter referentes espaciais?”. Na medida em que a identificação com os objetos
fragiliza o indivíduo e o grupo, alguns pensam que é necessário consolidá-los através de medidas territoriais de exclusão. (CLAVAL 1999, p.20).
Esta situação alinha-se à perspectiva de Leff (2003), que enfatiza que, diante das conseqüências da modernidade, “nesses momentos devemos aceitar e internalizar a preocupação de que as intervenções científicas em processos naturais complexos podem constituir em si mesmas, uma fonte de geração de problemas, que afetem não somente o meio natural, mas também a saúde, o sustento da população e as perspectivas econômicas”.