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1.1 SOBRE DESASTRES, SIGNIFICADOS E ABRANGÊNCIA

1.1.1 Sociedade de risco, teoria dos hazards e teoria dos desastres

O ritmo descompassado entre produção, acumulação de capital e exploração

do meio ambiente estabelece as características da sociedade moderna. Novos

ritmos colocam a sociedade em uma situação de descontrole. Esse descontrole, em

suas múltiplas dimensões, coloca a sociedade, por sua vez, em uma situação de

vulnerabilidade, que remete a um constante “Estado de risco”. Convém citar Beck

(2002, pg.51):

No atual estágio da civilização, o perigo converteu-se em passageiro clandestino inserido em produtos de consumo normal e que a conversão dos efeitos colaterais invisíveis da produção industrial em conflitos ecológicos globais críticos não é, em sentido estrito, um problema do mundo que nos rodeia, mas uma profunda crise institucional da primeira fase da modernidade industrial.

Esses riscos perpassam a esfera individual e local, tomam dimensão coletiva

e global, são denominados riscos ecológicos, químicos, nucleares e genéticos,

produzidos industrialmente, externalizados economicamente, individualizados

juridicamente, legitimados cientificamente e minimizados politicamente, os quais, em

uma visão contemporânea, foram desencadeados riscos econômicos, como as

quedas nos mercados financeiros internacionais. De modo que, conjugando esses

riscos, pode-se entender uma nova forma de capitalismo, uma nova forma de

economia, uma nova forma de ordem global, uma nova forma de sociedade e uma

nova forma de vida pessoal (GUIVANT, 2001). Para complementação da ideia,

convêm também citar Saito (2007):

Assim, a materialização dos riscos ecológicos, chamados ambientais, provoca desastres ambientais, entendidos como o resultado do impacto de um fenômeno natural extremo ou intenso sobre um sistema social, e causa sérios danos e prejuízos que excedem a capacidade dos afetados em conviver com o impacto.

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Interpretar os desastres é uma tarefa árdua, posto que implica inúmeras

possibilidades que variam de acordo com a perspectiva de análise. Assim, sob o

enfoque das ciências sociais, os desastres ambientais são diferenciados conforme

“tradições de análise”, ou seja, sob a perspectiva da teoria das abordagens dos

hazards e da teoria dos desastres. A primeira concepção releva as condicionantes

naturais desencadeadoras do evento, sob a perspectiva geográfica; a segunda

concepção releva as condicionantes sociais, sob o enfoque sociológico. Logo,

segundo Mattedi e Butzke (2001):

Hazard refere-se à análise dos efeitos potenciais provocados pela interação de fatores físicos e humanos, enquanto a teoria dos Desastres resulta da análise dos efeitos reais provocados pela eclosão do fenômeno.

A Teoria dos Hazards analisa os fatores físicos desencadeadores do evento

independente da ação humana, tais como avalanches, terremotos, erupções

vulcânicas, ciclones, deslizamentos, tornados, enchentes, epidemias, pragas, fome,

dentre outros. A abordagem proposta por essa teoria encontra dificuldades para

categorizar eventos que derivam de fatores sociais e naturais. Para tanto, como

alternativa da comunidade geográfica, passaram a utilizar critérios relacionados a

eventos geofísicos, como: meteorológicos, hidrológicos, climatológicos, etc; com

liame ao comportamento dos grupos sociais que afetam (MATTEDI; BUTZKE, 2001).

A conjugação dos fatores físicos e sociais torna a abordagem dos hazards

ainda mais complexa, uma vez que os aspectos físicos são externos ao Ser

Humano, para além do seu domínio. Nesse sentido, Emel; Peter apud Mattedi;

Butzke (2001), afirma que hazards são:

“[...] como elementos do ambiente físico prejudiciais para o homem, os quais surgem do contínuo do processo de ajustamento entre sistema

humano e eventos naturais”. A visão do ambiente como um Hazard resulta

do modelo de análise sistêmico derivado da Ecologia Humana que representa a relação entre homens e natureza em termos do ajustamento/adaptação humana ao ambiente.

A forma de interação/apropriação/transformação dos fatores físicos resulta da

realidade social e determina a posição de vulnerabilidade da sociedade em relação

aos desastres (MATTEDI; BUTZKE, 2001).

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Para além da abordagem dada pela teoria dos hazards, que toma os

desastres de forma restrita, pois consideram aspectos físicos conjugados com a

realidade social, a teoria dos desastres amplia o dimensionamento da abordagem

dos desastres, pois considera o desastre uma patologia social, que desperta as

percepções emergentes em tempos de crise. O comportamento dos afetados e o

aparato estatal, como sistema de Defesa Civil, são desvelados nesse momento.

Assim, destaca-se o pensamento de Valêncio (2014), sobre a concepção da teoria

dos desastres:

A teoria dos desastres surge em grande medida como esforço do campo disciplinar sociológico e como uma alternativa à teoria dos hazards, tratando os desastres como um tipo específico de problema social que revela as singularidades dos modos de conflito e coesão social que afloram nesse contexto de crise. Além disso, esse campo também reconhece que os desastres desvelam a estrutura social existente e, assim, tornam mais visíveis as conexões entre as injustiças sociais precedentes e os grupos mais expostos aos perigos, bem como revelam o tipo diferenciado de exposição e de medida recuperativa adotada pelo ente público.

Além disso, sob o enfoque da teoria dos desastres, estes são definidos

segundo critérios de propriedades e dimensões de medida, segundo Kreps (1989, p.

221-222):

Neste sentido, um Desastre, pode ser caracterizado nos seguintes termos: quanto aos eventos, eles podem ser diferenciados por sua energia (física), sua periodicidade (temporal), sua declaração formal como desastre (social); impactos podem ser distinguidos em termos de seus danos ao ambiente natural ou humano (físico), duração (temporal), e grau de disrupção da rotina de funcionamento (social); unidade social varia pela localização (física), o tempo de convívio com o evento (temporal), e o nível societal (social); respostas envolvem modificação do ambiente natural ou construído (física), implementadas antes, durante ou depois da ocorrência (temporal), que resultam de uma variedade de processos institucionais e não-institucionais (social).

A experiência de cada sociedade, em relação aos desastres, interfere no

modo de resposta a eles. Nesse sentido, o aumento do número de desastres nos

últimos anos, em face das condições geofísicas relativamente estáveis, indica que o

aumento da vulnerabilidade está relacionado com o crescente processo de

subdesenvolvimento e de marginalização social: o desastre é visto como resultado

da interface de uma população marginalizada e um ambiente físico deteriorado

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(SUSMAN, 1983 apud MATTEDI; BUTZKE, 2001). Assim, como pode ser

visualizado no diagrama abaixo, considerando que a população mais vulnerável ao

desastre é a subdesenvolvida que vive em um ambiente deteriorado, após uma

ocorrência e ante a resposta dada ao evento, a sua condição de vulnerabilidade fica

mais acentuada, o que a coloca em uma posição que reproduz o ciclo de

subdesenvolvimento e marginalização (Figura 1).

Figura 1 - Marginalização e desastres

Fonte: (MATTEDI; BUTZKE, 2001, p. 14)

Logo, a dimensão dos efeitos dos desastres depende da interação do

fenômeno físico sobre o sistema social, de modo que, quanto mais este estiver

exposto, maiores serão os efeitos dos desastres. Enfim, ao considerar as diferenças

entre a teoria dos hazards e a teoria dos desastres, verifica-se que, em ambos os

casos, o conceito “ocorrência” dos desastres revela, como fator determinante, a

relação entre sociedade e Natureza.

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