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Neste capítulo pretendemos analisar respostas dos jovens ao questionário aplicado para a pesquisa institucional ―Trajetórias de Vida de Adolescentes e Jovens em Situação de privação de Liberdade no Estado do Rio de Janeiro” sobre o seu perfil, escolarização, violência e vulnerabilidade, assim como questões em torno do ato infracional e as perspectivas de futuro dos jovens que cumprem medida socioeducativa de internação no estado do Rio de Janeiro.

É importante ressaltar que embora a pesquisa institucional tenha aplicado o questionário com adolescentes e jovens na faixa etária entre 12 e 21 anos, analisaremos preferencialmente os dados do banco referentes ao público alvo da pesquisa – jovens de 15 a 17 anos. Principalmente para a comparação dos dados em relação a este recorte estabelecido, em alguns momentos, no entanto, dialogaremos com os dados da pesquisa geral.

Através da análise do perfil destes sujeitos não pretendemos aqui pré-determinar e estigmatizar esse segmento populacional, apenas apresentar algumas questões sobre o perfil do jovem hoje em cumprimento de medida socioeducativa no estado do Rio de Janeiro. Em momento algum pretendemos reafirmar que são eles os sujeitos passíveis a cometerem atos infracionais, mas, pelo contrário, de fato se mostram mais vulneráveis socialmente.

A maioria dos jovens em cumprimento de medida de internação no estado doRio de Janeiro tem entre 16 e 18 anos, juntas essa faixa etária representa aproximadamente 80% dos jovens.

66 Gráfico 6 – Idade dos Jovens que cumprem medida socioeducativa de internação no estado do Rio de Janeiro

1% 3% 10% 21% 38% 22% 3% 2% 13 14 15 16 17 18 19 20

Chama-nos atenção que dos 307 jovens entrevistados, 212 tem entre 15 e 17 anos. Isso corresponde a quase 70% dos jovens em cumprimento de medida socioeducativa de internação. Como se pretende mostrar é a idade mais vulnerável socialmente, sendo vítimas e autores da violência ao mesmo tempo.

Os jovens no Brasil têm ocupado um preocupante papel nos índices de vulnerabilidade. De acordo com o Mapa da Violência de 2016, segundo estimativas do IBGE (2015b), os jovens de 15 a 29 anos de idade representavam, aproximadamente, 26% da população total do país, mas a sua participação no total de homicídios por armas de fogo mais que duplica, chegando a 58%.

O Plano Decenal Socioeducativo do Rio de Janeiro (2015) já apontava que aproximadamente 60% dos jovens que cumprem medida de internação no Rio de Janeiro tinham entre 16 e 17 anos.

No Brasil, segundo dados do IBGE (2012b), mais de 78 milhões de pessoas têm de 0 a 24 anos. Isso significa dizer que 40,2% da população nacional é formada por crianças, adolescentes e jovens. Destes, mais de 10 milhões (5,4%) têm entre 15 e 17 anos.

O Brasil tinha em 2013 aproximadamente 16 mil (0,08%) dos seus adolescentes na faixa etária entre 12 a 18 anos em cumprimento de medida socioeducativa (BRASIL, 2013b). Uma taxa bem reduzida se comparada ao total de jovens no Brasil.

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A taxa de internação no Brasil, em 2011, era de 9,5 internados para cada 100 mil adolescentes no país. De 2010 para 2011, houve um aumento da taxa em 0,7, indicando uma tendência de crescimento da população adolescente em situação de restrição e privação de liberdade no país (BRASIL, 2011).

Os jovens, objeto dessa pesquisa, em sua imensa maioria são do sexo masculino, 97%. O panorama nacional segue na mesma direção. Vale destacar que se verificou um crescimento de 4% para 5% a participação feminina no total dos atendimentos socioeducativos nacional: 985 (2013) para 1.181 (2014) (BRASIL, 2017).

O sexo feminino, embora seja maioria na população nacional, apesar de ter crescido nos últimos anos, ainda representa uma parcela muito pequena no sistema socioeducativo se comparado aos homens. Dados da última PNAD (IBGE, 2014), por exemplo, apontam que a população brasileira é de 203,2 milhões de habitantes, sendo 98,419 milhões de homens (48,4% do total) e 104,772 milhões de mulheres (51,6%).

No estado do Rio de Janeiro, essa diferença é maior se comprada às outras unidades federativas do Brasil. No estado, existem 7.625.679 (47,6%), homens contra 8.364.250 (52,3%) mulheres.Neste caso, a razão é de 91,2 homens para 100 mulheres. Em todo o país, esta razão é de 96 para cada 100 mulheres. (IBGE, 2014).

Com relação à cor, os dados gerais da pesquisa mostram que 30,3% são pretos, 45,9% pardos 19,9% brancos, 1,3% amarelo, 0,7% indígena e 2% outros28. Na faixa etária entre 15 a 17 anos: 32% são pretos, 46% pardos e 18% brancos, 2% amarelo e 1% outros. Como podemos observar, predomina no sistema socioeducativo os jovens negros (78%). Conforme apontado no gráfico a seguir:

68 Gráfico 7 – Cor dos Jovens que cumprem medida socioeducativa de internação no

estado do Rio de Janeiro

46% 32% 18% 2% 1% Parda Preta Branca Amarela Outros

O último levantamento realizado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2013) já apontava que 60% dos jovens em cumprimento de medida socioeducativa no Brasil eram negros.

Analisando os últimos dados nacionais sobre a população jovem na faixa etária entre 15 a 17 anos IBGE (2010) – 4.378.066 brancos, que representam (42,3%) dos jovens; 747.651 são pretos (7,2%); 5.071.877 pardos (49,0%); 104.193 amarelos (1,0%); 50.749 indígenas (0,5%). Somando pretos e pardos, teremos 56,2% da população de 15 a 17 anos.

Em 2015, pretos e pardos representavam 54% do total da população nacional. No entanto, 75,5% dos 10% com menores rendimentos (contra 23,4% de brancos), ao mesmo tempo em que eram apenas 17,8% das pessoas de 1% com os maiores rendimentos (contra 79,7% de brancos) (IBGE, 2015c).

Como podemos evidenciar, embora a população negra nesta faixa etária seja expressiva no Brasil (56,2%), ainda é mais representativa no sistema socioeducativo nacional (60%) e mais ainda no estado do Rio de Janeiro (78%).

Os jovens do sistema socioeducativo são marcados além de tudo pela baixa renda, 20% ganham até 1 salário mínimo e 26% mais de 3 salários mínimos

69 Gráfico 8 –Renda da família dos Jovens que cumprem medida socioeducativa de

internação no estado do Rio de Janeiro

20% 23% 11% 27% 18% 1%

Até 1 Salário Mínimo (R$880,00) De 1 à 2 Salários Mínimos (R$880,00 até R$1760,00)

De 2 à 3 Salários Mínimos (R$1760,00 até R$ 2640,00)

Mais de 3 Salários Mínimos (acima de R$ 2640,00)

Não sei Não se aplica

Por um momento, podemos pensar que mais de 3 salários mínimos seja algo razoável, o suficiente para se levar uma vida digna. Porém, outro dado chama atenção:

aproximadamente 30% desses jovens residem com 6 ou mais pessoas. Isso implica dizer que a renda per capita deles gira em torno de 146,00 a 500,00 reais. Logo não podemos dizer que é um valor satisfatório que supra as necessidades de todo um grupo familiar.

Conforme levantamento realizado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (2013), 66% dos jovens que estão em cumprimento de medida socioeducativa no Brasil vivem em famílias extremamente pobres.

O salário médio do brasileiro — levando em consideração o rendimento mensal real de todos os trabalhos das pessoas de 15 anos ou mais ocupadas — teve, de acordo com a PNAD (IBGE, 2015a), leve alta no ano passado em relação a 2013 e chegou a R$ 1.774. Já o rendimento médio em 2014 foi 0,8% superior ao de 2013 (R$ 1.760).

A média de rendimento para as pessoas pertencentes ao grupo dos 10% com menor rendimento mensal de todos os trabalhos subiu 4,1% entre 2013 e 2014, ficando em R$256,00. Por outro lado, a média de rendimento para os 10% de rendimentos mais elevados caiu 0,4% no período, ficando em R$  7.154. Assim, em 2014, as pessoas com menores

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rendimentos receberam 3,6% do valor obtido pelas pessoas com maiores rendimentos. Em 2013, essa proporção foi menor, 3,4%. (IBGE, 2015a)

Ao compararmos com dados nacionais, vimos que a média de salário entre os mais pobres teve um pequeno aumento, o que pode justificar a média dos 3 salários mínimos apontados pelos jovens. No entanto, ainda se apresentam de um modo geral como rendimentos baixos, gerando condições desiguais.

Pretos e pardos são maioria no país e no sistema socioeducativo, no entanto, são os com menores rendimentos. A nossa sociedade continua sendo extremamente excludente e racista, fazendo com que jovens negros ocupem espaços e status sociais historicamente determinados.

Em relação aos atos infracionais que cometeram, em sua maioria ainda são contra o patrimônio, ou seja, apenas o roubo representa 37%. Se considerarmos o roubo somado a outros atos (Lei de armas, por exemplo), representa 45% dos atos cometidos.

Já em relação ao tráfico, sozinho representa 24% e somado a outros atos chega a 40%. Homicídio 4%, estupro 4% e furto 6%.

Gráfico 9 – Atos Infracionais cometidos pelos Jovens que cumprem medida socioeducativa de internação no estado do Rio de Janeiro29

44% 41% 6% 5% 4% Roubo Tráfico de entorpecentes Furto – Artigo 155 Homicídio – Artigo 121 Estupro

Ao serem questionados se já cometeram outros atos além dos que o levaram à internação, 21% disseram que não e 37% que estavam envolvidos com tráfico de drogas.

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Embora o tráfico não seja o principal ato que os levaram ao cumprimento da medida socioeducativa, está presente no cotidiano desses meninos e meninas. Uma das hipóteses que emergem na discussão é a possível ―necessidade‖ destes jovens em se inserirem em uma sociedade capitalista visando a obtenção de bens de consumo, visto que 54% dizem ter cometido o ato infracional por dinheiro. No entanto, é importante ressaltar que essa hipótese pode e deve ser relativizada, visto que, esse jovem pode querer obter bens de consumo, assim como pode querer simplesmente satisfazer necessidades básicas, como alimentação e saúde. Nesse sentido, não se pode atribuir ao jovem autor de ato infracional tais como roubo ou furto, uma hipótese meramente capitalista.

É cada vez maior o número de jovens envolvidos em atos infracionais, como tráfico e roubo. Desta forma, o perfil dos jovens infratores se centraliza nas camadas mais pobres da sociedade, em que os impactos e efeitos de questões socioeconômicas marginalizam e criminalizam a população de baixa renda, pondo-os distantes dos direitos garantidos em lei.

A desigualdade exclui os jovens vulnerabilizados do exercício pleno da cidadania e os culpa pela adesão às práticas infracionais para criminalizá-los. Sendo assim, os reflexos da questão social se configuram por meio da produção da vida material, que concentra a riqueza, nivelando os altos índices de desigualdade social, miséria e alienação da classe trabalhadora (SILVA; LEHFELD, 2015).

2.1 – Violência e Vulnerabilidade de jovens

Temos no sistema socioeducativo adolescentes e jovens de 12 a 21 anos, sendo esta juventude presente nos principais índices de violência. Pretende-se aqui entender porque os jovens no Brasil são tão vulneráveis, e o que os documentos oficiais apontam sobre essa juventude em contraponto com os jovens privados de liberdade.

Aincidência do fenômeno dos homicídios ocorre de maneira heterogênea no país não apenas no que diz respeito à dimensão territorial e temporal, mas no que se refere às características socioeconômicas das vítimas. Pelas informações disponíveis, desde 2008 se atingiu um novo patamar no número de mortes, que tem evoluído de maneira altamente desigual nas unidades federativas e microrregiões do país, atingindo de forma crescente os moradores de cidades menores no interior do país e no Nordeste, sendo as principais vítimas jovens e negros (IPEA, 2016).

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Assim como vimos anteriormente, essas também são as características dos jovens do sistema socioeducativo.

Os homicídios são hoje a principal causa da morte de jovens de 15 a 24 anos no Brasil e atingem especialmente jovens negros do sexo masculino, moradores das periferias e áreas metropolitanas dos centros urbanos (WAISELFISZ, 2013, p.9). O homicídio, como mostra os dados da pesquisa, não é a principal causa que levam os jovens a serem privados de liberdade, mas é a principal causa de suas mortes. Logo, observamos que os jovens brasileiros mais morrem do que matam.

De acordo com o Atlas da Violência (2017), mais de 318 mil jovens foram assassinados no Brasil entre 2005 e 2015. Apenas em 2015 foram 31.264 homicídios de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Sendo esses jovens em sua maior parte homens e negros.

Os homens jovens negros continuam sendo as principais vítimas, mais de 92% dos homicídios. De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Ainda com relação à morte violenta de pretos e pardos, conforme o documento, jovens entre 15 e 29 anos pretos e pardos possuem 147% mais chances de ser vitimados por homicídios, que indivíduos brancos, amarelos e indígenas.

De acordo com o Índice de vulnerabilidade juvenil à violência e desigualdade racial 2014, a superioridade das taxas de homicídio entre jovens brancos e negros, revela o quanto se mostra pertinente analisar os indicadores de vulnerabilidade incorporando o recorte racial. (BRASIL, 2015a).

Gráfico 10 – Taxa de homicídio entre jovens por raça/cor (Brasil e regiões, 2012)

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Conforme gráfico anterior, no Sudeste a proporção de mortes de negros é 29,7 pontos percentuais superior que a morte de brancos. Já na realidade brasileira, esse número chega a 53 pontos percentuais.

No período entre (2004 a 2014), houve um crescimento progressivo na taxa de homicídio de afrodescendentes (+18,2%), ao passo que houve uma diminuição na vitimização de outros indivíduos, (-14,6%) (IPEA, 2016).

São índices muito altos e que incomodam. A pele negra no Brasil tem morrido de forma devastadora e violenta, e em sua maioria jovens e das classes populares.

A ―juventude perdida‖ acaba vivendo um drama que possui duas faces. De um lado a perda de vidas humanas e do outro a falta de oportunidades educacionais e laborais, que por fim condenam os jovens a uma vida de restrição material e de ―anomia social‖, que terminam por estimular a criminalidade violenta (BRASIL 2017, p. 26).

Por outro lado, Barreira (2013) ressalta a vulnerabilidade juvenil no contexto da violência, apontando a redução da faixa etária das vítimas e a entrada cada vez mais precoce dos jovens no mundo do crime, tanto como agressores quanto, principalmente, como vítimas.

Segundo Novaes (2003), há uma explicação para a violência entre jovens, que pode ser ilustrada por uma conjugação histórica de três fatores: (a) a proliferação de armas de fogo, que obedece aos interesses da indústria bélica, nacionais e internacionais; (b) a existência de territórios pobres dominados pelo comércio de drogas ilícitas, parte de uma rede bem mais ampla e complexa que cobre o mundo e gera lucros; (c) a corrupção e a violência das polícias, que, despreparadas para lidar com a juventude, exigem dinheiro dos mais ricos e sujeitam os mais pobres a vários tipos de humilhações.

O sexo masculino, além de ―super-representar‖ o sistema socioeducativo, representa também a face mais sensível da vulnerabilidade.

Não por acaso e na mesma direção, o Mapa da Violência 2015 (WAISELFISZ, 2015) p.17) registra a progressão histórica de homicídios de adolescentes de 16 e 17 anos, com o aumento percentual de 640% entre 1980 e 2013 que, em números absolutos, corresponde ao salto de 506 para 3.749 mortes, representando 46% da mortalidade nesta faixa etária. Não por coincidência, 16 e 17 anos é a faixa-etária de maior incidência no sistema socioeducativo do Brasil e do estado do Rio de Janeiro (57% e 60% respectivamente).

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O diagnóstico traçado aponta perspectivas ainda mais preocupantes e se afirma na tradição histórica do ―controle dos miseráveis pela força‖, disfarçada na lógica de contenção aos delinquentes (WACQUANT, 2011).

Não obstante, mesmo com todo esse enorme aparelho de recomendações, normas e resoluções (Declaração Universal dos Direitos Humanos, Constituição Federal, ECA), diariamente somos surpreendidos com notícias de graves violações, de atos de extrema barbárie praticados, em muitos casos, pelas pessoas ou instituições que deveriam ter a missão profícua de zelar pela vida e pela integridade desses adolescentes: suas famílias ou as instituições que, na letra da lei, deveriam ser as responsáveis pelo resguardo e proteção (WAISELFISZ, 2015, p.5).

Uma das razões apontadas por Waiselfisz para a elevada taxa de homicídios dos quais os jovens brasileiros são vítimas seria a chamada ―epidemia da indiferença‖, a que faz referência basicamente como um processo de naturalização e aceitação da violência por parte de grande parte da sociedade. Imbricada a este mecanismo, surge a lógica da ―culpabilização da vítima‖ como justificativa para a violência dirigida a grupos vulneráveis, como no caso do jovem que é apresentado como o ―marginal, delinquente, drogado ou traficante‖ (2013, p.98) e, sob essa lógica, seria ―corresponsável‖ pela violência da qual foi vitimizado.

Logo, nota-se que o perfil típico das vítimas fatais permanece o mesmo: homens, jovens, negros e com baixa escolaridade. Entretanto, chama a atenção o fato de que, na última década, a violência contra jovens e negros tenha aumentado ainda mais (BRASIL, 2017).

Contudo, a condição de vulnerabilidade dos jovens brasileiros não se expressa apenas dados apresentados, mas também se manifesta quando analisadas as estatísticas de encarceramento no país que, segundo o Ministério da Justiça, o Brasil passou da quarta para a terceira maior população carcerária do mundo em 2017.

Os dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (2017) apontam que o total de pessoas encarceradas no Brasil chegou em junho de 2016 a 726.712, quase o dobro do número de vagas (368.049 no mesmo período). Em dezembro de 2014, esse número era de 622.202 presos, o que simboliza um crescimento de mais de 104 mil pessoas em 18 meses — mais de 5,7 mil por mês, em média.

De acordo com o Mapa do Encarceramento: os jovens do Brasil (BRASIL, 2015b), desenvolvido pela Secretaria Nacional da Juventude, o sistema prisional brasileiro é formado, eminentemente, por jovens negros do sexo masculino que, sequer, concluíram o ensino fundamental. Assim como no sistema socioeducativo.

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O documento aponta a gradativa elevação da relação entre a população carcerária jovem e não jovem na série histórica entre os anos de 2007 e 2012.

Em 2012, para cada grupo de 100 mil habitantes jovens acima de 18 anos havia 648 jovens encarcerados, enquanto para cada grupo de 100 mil habitantes não jovens acima de 18 anos havia 251 encarcerados, ou seja, proporcionalmente o encarceramento de jovens foi 2,5 vezes maior do que o de não jovens em 2012 (BRASIL, 2015b).

Gráfico 11 – Taxa de encarceramento de jovens e não jovens no Brasil por 100 mil habitantes (2007-2012)

Fonte: Mapa do encarceramento: os jovens do Brasil (BRASIL, 2015b).

Com a observação dos dados, é possível perceber que ao longo dos anos houve um crescente protagonismo do jovem no sistema prisional e mais 60% da população carcerária é composta por negros. De acordo com o documento, estamos diante de um ―hiperencarceramento‖ que tem por predileção certos grupos sociais, o que marca uma seletividade penal:

Manifesta-se quando as instituições do sistema de justiça realizam constrangimentos e seleções para certos atores sociais, gerando desigualdades de tratamento no campo da segurança pública e da justiça criminal: os bem afortunados são aqueles cujas demandas por justiça transitam facilmente pelas estruturas judiciais e suas infrações atraem pouca atenção da repressão penal. Desfavorecidos são os que simultaneamente atraem a repressão penal aos seus modos de morar, trabalhar, comerciar, viver e encontram muitas dificuldades em administrar os conflitos de que são protagonistas por regras e procedimentos estatais (BRASIL, 2015b, p.13).

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Comparando os dados do Mapa da Violência (2015), do Atlas da Violência (2017) e demais documentos relacionados, com os dados da pesquisa, nota-se uma lamentável situação, os jovens das classes populares são as principais vítimas da violência, bem como são constantemente privados de sua liberdade. Em linhas gerais, a violência faz parte do cotidiano dos jovens negro do sexo masculino.

Ainda em relação à vulnerabilidade desses jovens, é possível notar também que a mesma se faz presente não só nas ruas, mas, sobretudo dentro do sistema socioeducativo, como se não bastasse toda a violência a qual esses jovens são expostos cotidianamente, mesmo dentro das unidades de internação ainda sofrem com as lacunas do sistema que os levam a óbito.

Gráfico 12 – Causas de Óbito de Adolescentes e Jovens em Unidades de Internação - Total Brasil (Comparativo 2013-2014)

Fonte: Levantamento SINASE, 2014.

Ao observar o gráfico anterior, pode-se verificar o panorama da vulnerabilidade dos jovens em atendimento socioeducativo. A principal causa de óbito em unidades de internação em 2014 foi em decorrência da categoria ―outros‖ com 22 casos, que representa um crescimento superior a 2.000% em relação ao ano anterior. Somente a categoria ―outros‖ representou 46% dos óbitos no ano de 2014. Este índice pode estar relacionado a algumas causas, tais como: descuido com o registro das informações, intencionalidade na produção incompleta destas informações e também indica pouca incidência no atendimento socioeducativo por parte dos órgãos de fiscalização, monitoramento e controle social.

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A segunda causa de óbito foi conflito interpessoal com 15 casos, uma redução de 13%, seguida de conflito generalizado com 6 casos que representou um aumento de 17%. Os óbitos decorrentes de suicídio e morte natural súbita permaneceram estáveis com relação a 2013, respectivamente, com 4 e 1 casos. Em 2014, não houve registro de óbito decorrente de doença crônica (BRASIL, 2017).

A juventude pobre no Brasil morre de maneira avassaladora em qualquer que seja o espaço, os dados anteriormente apontados nos mostram o quão frágil e suscetível tem sido não só os jovens, mas também as políticas que ao invés de protegê-los o submetem a mais violência.

Deste modo, surge outro conceito de vulnerabilidade que, segundo Catel (1997), está relacionado a outros fatores, que igualmente atingem e contemplam a pobreza.

Para caracterizar o processo que alimenta a vulnerabilidade social, o autor vincula a precarização do trabalho, responsável pela produção do desemprego, e a degradação dos

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