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2. O Licenciamento Ambiental e a Teoria Social

2.1. O trabalho dos cientistas e técnicos

2.1.1. Sociologia Ambiental: um ponto de partida

Segundo Hannigan (2009, p. 15), o “Dia da Terra” em 1970, pode ser considerado o marco simbólico da emergência das primeiras manifestações do movimento ambiental moderno. As demandas desses movimentos, direcionadas fundamentalmente a participação política no que diz respeito à preservação de recursos ambientais cada vez mais escassos e as decisões democráticas frente aos riscos produzidos pelo próprio processo de modernização, crescem na exata proporção em que aumenta, também, a necessidade de incorporação à sociologia de uma série de novos métodos, técnicas e perspectivas teóricas que deem conta de entender essas novas manifestações.

Olhando em retrospecto, a jovem Sociologia não dispunha, a época, de precedentes que a referenciassem satisfatoriamente no sentido de iluminar os novos problemas a serem enfrentados31. Motivados pela crescente atenção direcionada aos movimentos e impasses ambientais ainda na década de 1970, alguns sociólogos passaram a se dedicar a investigação de assuntos que diziam respeito, por exemplo, “a opinião pública sobre as questões ambientais, as características sociais dos ambientalistas, as formas de organização, as transformações nas políticas públicas, etc. (Guivant, 2005, p. 10)”.

31 Para um panorama mais completo sobre o arcabouço de conhecimento produzido pela teoria social sobre o meio ambiente – inclusive nos clássicos das ciências sociais, Marx, Durkheim e Weber – antes mesmo das primeiras manifestações dos movimentos ambientais modernos, ver Hannigan 2009.

Em 1978, em uma importante obra intitulada “Environmental Sociology: a new paradigma” (1978), Catton e Dunlap se dedicam a averiguar a existência de trabalhos que apresentassem coerência em analisar as relações entre meio ambiente e sociedade, que pudessem ser considerados como parte de um novo campo da teoria social: a Sociologia Ambiental (Guivant, 2005, p. 10).

Ao passar em revista sobre o desenvolvimento e a institucionalização desta ramificação da teoria sociológica – enquanto um domínio incipiente nos anos 1970 e 1980 –, Guivant (2002, 2005, et al.) nota a insurgência de uma polarização que – muito embora não se deixasse transparecer em algumas ocasiões – atravessa os debates que colocam em questão as interações entre sociedade e meio ambiente: a ambivalência entre as perspectivas realista e construtivista social.

A primeira delas – que tem em Catton e Dunlap (1978 et al.) seus estudos seminais – leva em consideração a existência objetiva dos problemas ambientais, “independentemente da forma com que os atores o percebem (Guivant, 2005). ” Já o ponto de vista construtivista social – que tem as primeiras contribuições ligadas a Frederick Buttel (1978 et al.) –, chama a atenção para as condições de evidência em relação aos fundamentos técnicos e científicos que apontam determinados problemas ambientais, e sua relação direta com uma série de questões de cunho “social” nas análises de riscos, eleição, problematização e popularização de problemas ambientais.

A perspectiva construcionista foi duramente criticada pelos realistas por esvaziar o debate acerca das evidências relacionadas aos problemas ambientais, caindo num relativismo infecundo e na inação em relação as catástrofes anunciadas por uma parcela cada vez maior de especialistas (Guivant, 2002, p. 72). As respostas dos sociólogos construtivistas chegam em igual tom, assinalando a limitação dos teóricos realistas em reconhecer que as demandas dos movimentos ambientais são também produto de posições valorativas, tomando forma e escopo a partir de condições sociais que determinam quais os problemas serão – e quais não serão – colocados na ordem do dia.

A diversidade de perspectivas no interior da sociologia ambiental perpassam a institucionalização da disciplina nas últimas décadas, sendo

notadas em pelo menos nove paradigmas distintos em contenda: “ecologia humana, economia política, construcionismo social, realismo crítico, modernização ecológica, teoria da sociedade de risco, justiça ambiental, teoria ator-rede e ecologia política (Hannigan, 2009, p. 29)”.

Evidente fica também que, entre essas posições, existem tentativas de aproximação, que se irrompem, em grande medida, em função da permutação de críticas e de uma preponderância das posições mais equilibradas no debate.

Se tomarmos em conta versões menos fortes do realismo, ainda que mantendo diferenças substantivas, podemos observar tais confluências – sem dúvida, em parte resultado das próprias críticas do construtivismo. Assim, como, de fato, as diversas versões do construtivismo na Sociologia Ambiental em nenhum momento pretendem negar a realidade objetiva dos problemas ambientais. É difícil encontrar defensores de posições radicais ou de um relativismo forte dentro desta corrente que, em lugar de pensar a natureza como uma realidade única, prefere considerar diferentes construções e significados que socialmente são dados ao conceito de natureza (Guivant, 2005, p. 12). Algumas dessas tentativas de síntese do debate natureza versus cultura são perceptíveis, por exemplo, nas investigações acerca das análises de Risco – em especial, nas conhecidas obras de Beck (1997, 2010, et al.) ou em Giddens (1991, 2010, et al.). Nessas obras, os autores – mais especificamente em Beck – colocam em discussão a construção das análises de riscos ambientais por meio de especialistas, que fazem frente a desconfiança generalizada do público leigo, que já não mais vê no caminho trilhado pela ciência moderna, a segurança esperada e desejada a respeito da solução dos problemas ambientais enfrentados no cotidiano de atores individuais.

Esses problemas, que não podem mais ser classificados como exclusivamente naturais – como as catástrofes ambientais de outrora –,

são entendidos agora como produto do próprio processo de radicalização da modernidade. Essa modernidade – classificada pelos autores como “alta modernidade”, ou “modernidade avançada” (Beck e Giddens, 1997) – colocaria, frente aos atores, a responsabilidade de escolher os riscos que devem tolerar e os caminhos que devem trilhar a nível social para mitigar as possíveis catástrofes. Esses riscos, portanto, não encontram resoluções inefáveis, nem tampouco possibilidades de superá-los a partir das opções tradicionalmente dadas pelo conhecimento científico.

A insurgência dessas necessidades aparece, ironicamente, justo quando a existência individualizada se torna finalmente possível – como uma individualização exacerbada que desintegra as antigas formas de pertencimento de classe, como o agrupamento no âmbito dos ofícios, etc. – exigindo que nos confrontemos diretamente com “os risco, dos quais, por suas origens e formas, resistem a qualquer tratamento individual (Hannigan, 2009, p. 45)”.

O ponto central destas perspectivas é que o trabalho de decisão da tecnociência não pode restringir-se aos ambientes dos laboratórios ou ao interior das instâncias de decisão e regulamentação dos Estados Nacionais. Essas decisões devem levar em consideração as demandas de diferentes atores para o enfrentamento dos riscos no âmbito da sociedade civil, na qual coloca em prática uma série de mudanças no nível do comportamento individual (ou micro) (Beck, 1997).

Mas, por outro lado, resta evidente também que os problemas ambientais só ganham forma em função da própria estrutura de apoio da ciência e da tecnologia. Em outras palavras, os problemas ambientais têm sua origem no corpo de pesquisas científicas que lhes dão forma e escopo. O papel da ciência e da técnica é fundamental, portanto, na formulação dos problemas ambientais, mas sua disseminação não se restringe a ela.

Portanto, nos encontramos de frente com um problema de demarcação das definições de conhecimento legítimo por um lado, e os contornos que tomam as interpretações dos problemas ambientais a nível social de outro. Em grande medida, a perspectiva que propomos para esclarecer o conflito ambiental ao qual nos debruçamos – a TAR – tenta transpor esse debate a partir de um ponto de vista instigante sobre o questionamento dos próprios termos que se colocam como centrais na

sociologia ambiental: a polarização entre natureza e cultura. No próximo tópico, começamos a esclarecer melhor esse problema, que tem como ponto fulcral o trabalho da tecnociência e suas implicações no processo de demarcação do que entendemos por conhecimento leigo e conhecimento perito.