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Sociologia da Infância e Estudos da Infância

3 DIÁLOGOS DA EDUCAÇÃO MUSICAL COM A SOCIOLOGIA DA

3.6 Sociologia da Infância e Estudos da Infância

Não podemos negar os méritos da Sociologia da Infância em nos revelar mais sobre as crianças, nos ensinando a considerá-las como informantes qualificadas nas pesquisas sobre seus mundos e modos de vida e sobre suas culturas. São muitos os ganhos em nos mostrar como o nosso adultocentrismo conduz as relações com as crianças, relações essas muitas vezes marcadas pelo poder exercido sobre elas.

A “naturalidade” com que era vista a infância, pensada a partir daquilo que ela não era, em oposição ao adulto e numa posição de invisibilidade e subalternidade, deu lugar à visão da infância como uma construção histórica e social. Isso permitiu enxergar as crianças como seres ativos que, ao mesmo tempo em que sofrem influências, influenciam e provocam mudanças dentro das famílias, nas escolas e na sociedade, seres competentes, afinal.

No entanto, na obra “The Future of Childhood” (2005), Prout faz uma reflexão sobre as investigações já realizadas a partir dos aportes metodológicos da Sociologia da Infância. Após essa visão retrospectiva, o autor propõe um redirecionamento na condução desses estudos, tendo em vista as mudanças ocorridas na sociedade ao longo dos anos e das pesquisas já realizadas nessa área. Se, num primeiro momento, aquele do estabelecimento do campo, o aspecto social era fundamental e contraposto ao aspecto individual e biológico da infância, o futuro aponta para um diálogo entre esses dois aspectos.

Segundo o autor, a Sociologia da Infância, na urgência de dar prioridade ao aspecto social nas suas investigações, foi deixando pelo caminho importantes questões ligadas ao fator biológico da infância. Mas no momento em que o sociólogo fez a revisão de seus próprios escritos, argumentou ser necessário recuar um pouco e recolher o que foi deixado para trás:

[...] os estudos da infância descrevem uma trajetória que envolve a dicotomia natureza-cultura e operou dentro de um pensamento modernista que separou natureza e cultura, ziguezagueou entre os polos dessa oposição, ora colocando a infância na sua vertente biológica, ora colocando-a na vertente social.

[...] O futuro dos estudos sobre a infância repousa em encontrarmos

maneiras de tratar a infância como “natureza-cultura”. Somente pelo

entendimento das maneiras nas quais a infância é construída pelos elementos heterogêneos da cultura e da natureza, o que em muitos casos não podem ser facilmente separados, é que será possível fazer o campo avançar (PROUT, 2005, p. 44, tradução livre, grifo nossos).

Os Estudos da Infância apontam na direção das integrações de áreas, do compartilhamento dos saberes e não das dicotomias que caracterizaram o mundo contemporâneo, herdeiro direto do modernismo. Para Prout:

A infância é mais bem estudada quando não se restringe a ser colocada dentro de uma moldura construída a partir da assunção implícita de uma série de dicotomias opostas. Isso caracteriza muitos dos novos estudos sociais sobre a infância, porque ela é tratada como uma construção social. Esta visão social é contraposta a uma visão natural ou biológica. Desse ponto de vista eles são o reverso do discurso que se coloca em uma relação opositora às visões mais antigas, as ideias biológicas sobre a infância. A

infância não é e nunca foi um fenômeno puramente social. As relações sociais são heterogêneas, são feitas de uma profunda variação de recursos materiais, discursivos, culturais, naturais, tecnológicos, humanos e não humanos. A infância, assim como todos os fenômenos, é heterogênea, complexa e emergente, e, por causa disso, seu entendimento requer um amplo aparato de recursos intelectuais, uma aproximação interdisciplinar e um processo investigativo de mente aberta (PROUT, 2005, p. 2, tradução livre, grifos nossos).

Desse modo, os estudos mais recentes sobre as crianças e sobre a infância vêm se firmando cada vez mais como um campo multidisciplinar de conhecimento e de investigações. Ao adotar novos paradigmas para abordar as crianças, esses estudos têm trazido à luz novos conhecimentos sobre a infância por meio de pesquisas realizadas não apenas sobre crianças, mas também com estas.

Para estudar as crianças atualmente, a partir desse novo campo de investigações, de acordo com Sarmento (2008, p.3), é fundamental considerarmos que “a análise das crianças e dos seus mundos de vida exigem uma abordagem interdisciplinar que considere em simultâneo, a natureza e a cultura, o indivíduo e o grupo, o corpo e o pensamento, a ação e sua reflexão”.

Nesse sentido, nas reflexões de Prout e de Sarmento está posta a visão de um futuro não só para a Sociologia da Infância em particular, mas também para os Estudos da Infância como um todo. Esta é uma área acadêmica em ascensão e para a qual contribuem a Educação, a Psicologia, a Geografia, a Antropologia, a História, o Direito e a própria Sociologia da Infância (MULLER; NASCIMENTO, 2014). Nesses estudos, não pode deixar de ser considerado o que acontece na sociedade em geral, e, de modo particular, como isso se reflete na vida das crianças, determinando, também, o seu desenvolvimento e o seu futuro.

São novos olhares sobre a infância, com importantes contribuições para a área da Educação Musical e do ensino da Arte. Nos Estudos da Infância, podemos incluir a Educação Musical, porque ela trata não apenas dos aspectos relativos à transmissão e aprendizagem da

música, mas, ao voltar-se para as crianças, possibilita-nos sua compreensão enquanto uma de suas linguagem expressivas. A música que elas inventam espontaneamente ou criam em situações de aprendizagem orientada revela seus modos de viver, sentir, pensar e interpretar o mundo por meio dos sons e das formas musicais. São interpretações estéticas preciosas, reveladoras de um rico e poderoso imaginário e de sua imensa capacidade criadora.

As novas abordagens nos Estudos da Infância podem trazer respostas para o que observamos no trabalho com as crianças: como não considerar seus saberes nas aulas de música se elas expressam tal conhecimento? Como persistir no intuito de classificá-las em etapas de desenvolvimento estritas, se em muitos momentos elas rompem com tais enquadramentos e superam as nossas expectativas? Como continuar pensando que elas ainda não estão “prontas”, se suas soluções, seus dizeres, suas expressividades artísticas já estão nelas, encarnadas em seus corpos dançantes, cênicos, plásticos, musicais e sensíveis?

Do ponto de vista desses novos estudos, o desenvolvimento das crianças não é negado, mas também não é mais colocado como uma das características apenas da infância. Todos os seres humanos, em todas as etapas das suas vidas, estão se desenvolvendo; ninguém nunca está “pronto” em qualquer que seja o aspecto a ser observado e acompanhado ao longo do tempo, seja ele biológico ou cultural. No caso das crianças, as etapas relacionadas ao desenvolvimento cognitivo podem ser pensadas muito mais como qualidades de pensamento infantil do que como um mesmo formato a ser sempre seguido, uma norma ou resposta padrão a ser esperada ou alcançada por todas as crianças indistintamente.

Rogoff, nome de destaque na área da Psicologia Cultural, estuda o desenvolvimento humano a partir de uma abordagem que se desloca do aspecto puramente individual, como se ele acontecesse em um vazio, para uma abordagem holística em que os aspectos cultural e social têm papel importante na constituição dos sujeitos. Segundo Fidalgo, as pesquisas que Rogoff vem empreendendo nos últimos vinte anos têm como objetivo “pôr em evidência a complexidade da unidade entre as pessoas e os seus contextos socioculturais, recusando separá-los teoricamente” (FIDALGO, 2004, p. 7). Em uma entrevista concedida a Fidalgo (2004), Rogoff afirmou que:

Uma das principais contribuições da Psicologia Cultural consiste exactamente em mostrar que não há “pessoas genéricas”. Fala-se normalmente da “criança” como se tal entidade existisse em si mesma. “A criança” não existe enquanto tal – todas as crianças são históricas. Os seres humanos nunca estão sozinhos, mas em comunidades culturais com uma história, e nós não temos prestado atenção suficiente à forma como as pessoas participam nessas comunidades (FIDALGO, 2004, p. 8).

As crianças são seres no mundo, e para compreendê-las faz-se importante considerá-las não apenas como indivíduos ou seres em transição para a vida adulta, mas como participantes ativas dos grupos sociais aos quais pertencem. As crianças podem ser pensadas como o que elas são hoje, no exato momento em que estamos juntas descobrindo os sons e sua possibilidade de se transformar em música. E não pensá-las somente como um “vir a ser”, como se ainda não estivessem dotadas de capacidades para suas descobertas, sendo necessário, portanto, prepará-las para sua vida adulta de plenitude artística.

Desse modo, elas podem ser reconhecidas como capazes, com modos muito próprios de sentir, pensar e fazer revelados nas interações que estabelecem umas com as outras e também com os adultos nos contextos culturais variados dos quais participam. A concepção de infância expressa pelas DCNEI (BRASIL, 2010) reconhece “o valor das interações das crianças com outras crianças e com parceiros adultos” e também a “importância de se olhar para as práticas culturais”.

Para os professores no trabalho com a música, sejam eles especialistas ou não, torna-se importante, portanto, levar em consideração como as crianças se apropriam ou não das propostas musicais lançadas por eles e como as reproduzem nas suas interações com as outras crianças, repetindo-as ou recriando-as. É aqui que vamos encontrar a música das crianças, feita genuína e espontaneamente por elas ou de maneira guiada pelos educadores musicais, que pode ser pensada como o fundamento sobre o qual será construído o seu conhecimento nessa área, tal como vimos na seção anterior deste capítulo.

4 A PESQUISA DE CAMPO E SEUS CONTEXTOS