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TECENDO AS TRAMAS

3. Socorro e o apelo de se tornar mulher

Socorro era uma jovem de 30 anos, solteira, de traços orientais que, pelo grau de dependência e sofrimento estampado no rosto, aparentava ter menos de 15 anos. Foi seu pai que, vendo seu sofrimento, resolveu buscar ajuda.

No primeiro encontro, Socorro chegou acompanhada de seus pais e naquele momento foi possível observar a dificuldade da família na resolução de pequenos problemas do cotidiano. Como caía uma forte chuva, houve um longo atraso da consulta.

Ao recebê-los, depois da já citada uma longa espera, e olhando em direção a Socorro, convidei-a para entrar. Seus pais a acompanharam. Outro ponto que me chamou a atenção foi a maneira como ocuparam seus lugares. Dada a circunstância, deixei à disposição duas poltronas e, entre elas, uma cadeira menor. Socorro sentou-se na cadeira pequena entre seus pais, numa cena que lembrava mais a de uma criança indefesa.

Num primeiro momento, seu pai falou muito. Escutei atentamente sua preocupação ao relatar episódios de ameaças de suicídio da filha. Sua mãe permaneceu a maior parte do tempo calada. Diagnosticada com “síndrome do túnel do carpo”, a mãe tinha metade do braço direito engessado, em razão de uma recente cirurgia no pulso direito, e estava prestes a operar o esquerdo.

Socorro permaneceu a maior parte do tempo em silêncio e de cabeça baixa; ocasionalmente levantava o rosto com um olhar de quem pedia ajuda. Perguntei sobre o seu sofrimento. Com grande dificuldade de se expressar, respondeu que estava muito angustiada e que se sentia “pressionada”. Começou a chorar e seu pai se calou.

Tal ocorrência permitiu indagar-me sobre como se articulariam tais posições de pai e filha. Parecia haver um diálogo/pacto de que, quando um chora (Socorro), o outro (Pai) se cala. Desta perspectiva, tratava-se de um choro endereçado, com sentido a ser

buscado, mas um choro dotado de certa “eficiência”. Mas não seria justamente isso, o choro, no lugar de sua fala? Cogitar sentido e endereço coloca a possibilidade de transformar choro em fala.

Em decorrência desses fatos, resolvi encerrar nossa conversa, ao que seu pai se adiantou e, olhando para sua filha, manifestou o desejo de que esta deixasse marcado um retorno. Permaneci em silêncio, olhei em direção a Socorro e perguntei o que ela gostaria de fazer. Entreguei meu cartão de visita e marquei que ela estava ali porque seus pais haviam- na trazido e, fazendo uso do seu significante “pressão”, disse-lhe que só caberia a ela a decisão de retornar, ou não. Ao que ela respondeu que pensaria sobre o retorno.

Após o encontro, confesso que fiquei pensando o que teria acontecido para esta jovem sofrer tanto. Esperei que ela me ligasse, o que demorou para acontecer. Um mês depois, recebi uma mensagem dela informando de suas várias tentativas de marcar um horário, sem conseguir. Estranhei muito, já que mantenho meus telefones ativos. Na hora, lembrei-me da dificuldade que tiveram na primeira visita, isto é, o atraso, e tratei logo de lhe oferecer um horário.

O mesmo problema se repetiu, então, na hora de agendarmos um horário. Todas as alternativas oferecidas eram inviáveis para ela. Depois de várias tentativas, e só após uma imposição minha, o encontro foi marcado.

No dia do nosso encontro, Socorro chegou acompanhada pelo namorado, seu fiel escudeiro, que não a deixava sozinha por nada. Ao acompanhá-la em direção à sala de atendimento, fez menção de entrar com ela, ao que lhe sugeri que aguardasse na recepção. Socorro vacilou, mas me acompanhou, não sem antes confiar sua bolsa a ele.

Começamos a conversar e perguntei sobre o desencontro para marcar um horário. Socorro disse que ligava e, como eu não atendia, ela desistia. Diante do exposto, perguntei se havia pensado em deixar um recado na secretária eletrônica, ao que ela respondeu: “É, mas...

você não atendia, eu desligava”. Tais atitudes sinalizavam que ela se encontrava em algum tipo de impedimento.

Naquele encontro, Socorro falou muito pouco; como na primeira entrevista, permaneceu calada a maior parte do tempo. Por esta razão, tomei a iniciativa de interrogá-la do porquê de tanto sofrimento. Socorro começou a chorar e, em seguida, disse-me que havia se tornado um “peso morto” para sua família. Achava que estava dando muito trabalho aos seus pais e, por este motivo, tinha vontade de acabar com a própria vida. E disse que não conseguia entender o que estava acontecendo.

No decorrer dos nossos encontros, desconfiada e com muita dificuldade, Socorro foi contando mais sobre seu sofrimento. No início do ano anterior, havia ficado muito mal, entrou numa depressão profunda, com tentativas de suicídio, ingerindo grande quantidade de remédios. Em decorrência deste fato, iniciou um tratamento com uma psiquiatra. Primeiramente medicada com Rivotril, foi mudando de medicação até se adaptar aos medicamentos: Pondera para depressão e Amato para ansiedade e insônia. Comentou que teve alguma melhora com a nova medicação. Porém, após quase um ano de tratamento, resolveu interrompê-lo por conta própria quando a psiquiatra que lhe atendia foi transferida para outra unidade de saúde. Tomada por sentimento de abandono, Socorro se recusou a dar continuidade ao tratamento com outra profissional.

É impossível pensar no quanto são interessantes as distinções que Lacan propõe, no Seminário livro 4 (1956-1957: p.35-39), entre privação no real do corpo, frustração da ordem do imaginário e a castração da ordem simbólica. No caso em pauta, de alguma maneira, é como se Socorro operasse na via da frustração diante do limite, não estando lançando mão dos recursos via castração, muito embora não houvesse indícios de não estar marcada pela castração.

Com a interrupção do tratamento, Socorro tentou manter-se por mais ou menos seis meses sem medicação. Contudo, ultimamente encontrava-se muito angustiada. Indaguei-a

sobre o que estava chamando de angústia. Respondeu que sentia muita tristeza, acompanhada de pensamentos ruins: “uma vontade de acabar com a própria vida, e que não valia a pena viver” e que se sentia um “verdadeiro cocô”. Socorro continuou relatando outros episódios de tentativas de suicídio: tentou cortar os pulsos, ameaçou se jogar pela janela, mas tinha a sensação de que alguém a puxava de volta. Mais recentemente, quando começava a secar o cabelo, ocorria-lhe a ideia de se enforcar com o fio do secador. Tomada por esses pensamentos ruins, buscava qualquer objeto para se machucar. Enquanto se machucava, Socorro não percebia o que estava acontecendo, perdia o controle e só depois que voltava a si é que notava os hematomas registrados no corpo. Confessou que não sabia dizer de onde vinham aqueles pensamentos, que eles pareciam vir “do nada”. Interroguei-a: “Do nada, será? Isso interessa aqui”.

O que acontecia nos momentos de desespero? Que espécie de gozo era aquele que se nutria do desafio, das tentativas de se machucar, se ferir? A aposta da psicanálise é a de que o efeito do desejo torne possível trabalhar questões que poderão apontar para uma perspectiva diferente em relação ao gozo.

Naquela hora, Socorro disse que esperava uma palavra por parte de sua mãe – uma palavra apenas bastaria, mas ela não vinha. Segundo Socorro, a mãe era fria, pouco expressiva, e a família toda era muito seca, indiferente, à exceção do seu irmão, dois anos mais novo, a quem ela “ama de paixão”. Muito preocupada com o irmão, Socorro disse que muitas vezes assume o papel de mãe dele, para protegê-lo da rigidez do pai.

A seguir, relatou que, no mais recente episódio de autolesão, estava em seu quarto, pegou o peso que segurava a porta do banheiro e bateu várias vezes em sua cabeça, provocando hematomas, com a intenção de pôr um ponto final no seu sofrimento.

Enforcar-se com o fio do secador, bater na cabeça com o peso da porta, tomar remédios – ditos como tentativa de acabar com o seu sofrimento – pareciam encenar de fato um

“apelo” ao Outro, ironicamente oferecendo-se como “peso morto” aos pais, endereço de tal apelo. Tal situação conduz à possibilidade de pensar em fascínio, ideia de morte e o próprio sofrimento como pontos de captura e de gozo.

À medida que o trabalho analítico prosseguia, foi possível acompanhá-la a visitar um pouco mais de sua história, porém era preciso seguir com muita prudência, pois Socorro mostrava-se muito fragilizada e comprometida em seu gozo. Relatou que, quando estava em tratamento com a psiquiatra, face às suas recorrentes ideias de suicídio, a profissional sugeriu interná-la. Socorro rejeitou terminantemente a ideia e, neste quadro, teve que assinar um termo de responsabilidade por seus atos. Em seguida, interroguei-a sobre sua decisão. Ela, então, disse que a internação só aumentaria seu sofrimento e se recusou a seguir adiante com este assunto.

O estabelecimento do diagnóstico diferencial impõe-se, desde o início, não como uma identificação com o sintoma, mas como guia na direção do tratamento. Daí a pertinência das entrevistas preliminares, que determinam a orientação a ser dada na condução do tratamento, apontando o lugar para o analista no manejo da transferência.

Em outro encontro, Socorro falou sobre a dificuldade de se relacionar com seus pais. No seu entender, sua mãe a cobrava muito e qualquer tentativa de agradá-la fracassava, dada a rigidez da mãe. Em seguida disse-me: “Ela é muito distante. Mantemos um relacionamento onde cada uma cuida de si”.

Socorro mencionou uma prima que fora criada praticamente com ela e a quem era sempre comparada. Desde pequenas, a tal prima era sempre a melhor em tudo e atualmente é uma pessoa bem-sucedida tanto no campo pessoal quanto no profissional. Socorro percebia que ela não era a filha que os pais gostariam de ter. Assim, ao mesmo tempo em que sentia raiva da reiterada comparação à prima, também culpava-se por não corresponder ao modelo de filha que seus pais almejavam.

Ao falar de seu pai, Socorro o descreveu como uma pessoa severa, a quem temia e com quem tinha dificuldade de dialogar. Por esse motivo, ela se recolhia, procurava ocupar pouco espaço e causar menos despesa possível. Todavia, admitiu que, fora do ambiente familiar, seu comportamento era amigável. Embora nada lhe faltasse, disse que, no fundo, sentia-se como uma estranha e ficava culpada por viver sustentada pelo seu pai. Tal condição a incomodava bastante, porém Socorro dizia que não se sentia com forças para romper esta dependência financeira, já que se sentia incapaz.

Em minhas reflexões, comecei a pensar se seria essa impossibilidade de se identificar com uma imagem própria enquanto habitante de um corpo, pois em suas palavras ligava-se à família por meio da imagem de “peso morto”. Esse peso morto era ela mesma, na medida em que aquilo que Socorro tem que carregar é o peso e a dor de uma demanda de amor e reconhecimento que foi frustrada de forma preponderante pela palavra da mãe, que não lhe era oferecida, mas também pelo pai, que não intervinha nessa relação.

O que chamava a atenção era seu grau de dependência e alienação no desejo do Outro. Socorro era uma jovem que tinha diploma universitário e especialização, bem como experiência fora do país, adquirida na primeira e única vez em que se afastou dos seus pais. Ao ser questionada sobre fazer um curso no exterior, disse-me que foram seus pais que isso decidiram que seria bom para seu desenvolvimento profissional. Contou que foi difícil afastar-se deles, mas que sobreviveu.

Apesar da dificuldade de relacionamento com a mãe, Socorro relatou que a usava como interlocutora para obter alguma coisa de seu pai. Ela também expressou o sentimento ambíguo que tinha pelo pai, definindo-o como provedor, porém muito rígido. Durante a sessão, lembrou-se do quanto sofrera em suas mãos, quando criança, recordando-se das agressões e dos castigos sofridos por ela e pelo irmão, enquanto sua mãe, uma esposa obediente e submissa, permanecia em silêncio, sem nada fazer.

Podemos pensar, então, que Socorro, em sua dor, chora, procurava no Outro (mãe) uma saída, ou ainda, um significante que a lançasse adiante. Tal equacionamento é arrazoado por ser a mãe esse Outro primordial a quem a criança está entregue passivamente, desde um laço pré-edipiano, que Freud chamou de “catástrofe” (Freud, 1931:247). Em sendo assim, através de suas tentativas de suicídio, ela pedia socorro, em busca de um pai que a tirasse daquele lugar, pois permanecia presa ao corpo de sua mãe.

Socorro se achava um “verdadeiro cocô”. Seria assim que se fazia “peso morto”? Ela falou que não estava satisfeita com seu corpo, que se considerava gorda. Em busca de um corpo perfeito, Socorro reportou que vivia constantemente de dieta e frequentava academia de ginástica quase todos os dias. Ela também não gostava de seu nariz, o que a levou a fazer uma cirurgia plástica, achava seu quadril muito largo e queria ser mais alta. Como o tamanho dos seios não a satisfazia, resolveu aumentá-los cirurgicamente. Foram necessárias duas cirurgias porque, após a primeira intervenção, teve que trocar a prótese devido a problemas de rejeição. Em seguida, Socorro mencionou que gostava de seu cabelo – enquanto segurava uma mecha –, mas acrescentou que ultimamente “vinha perdendo muito cabelo”.

Não pude deixar de pensar que, neste cenário, o corpo orgânico poderia estar sendo arriscadamente oferecido como moeda de troca, numa tática perversa de preservar o que lhe era mais valioso: o lugar de “peso morto”, de “cocô”. Por um lado, continuava fazendo a conta da comparação com a prima, por outro, procurava a “perfeição”: seios, nariz, cabelos que caem. Mas o gozo não é assim? E também a pulsão, ou seja, também a pulsão não é sempre aos pedaços? Ao mesmo tempo, vale a pena lembrar que a idealização não necessariamente se refere à idealização do bem, uma vez que coisas muito radicalmente aterradoras habitam esse universo.

Socorro voltou a falar do incômodo com seu próprio peso, pois não estava emagrecendo. E perguntei: “E o que você faz com esse incômodo?”. “Ah, fico mais ansiosa.

Como não vejo resultados, então, só de raiva, abandono a dieta, começo a engordar e, em seguida, sou tomada por sentimento de culpa.”

Mas que resultados ela estava esperando? O empenho e o investimento neste projeto de realização no corpo, e atingir a perfeição – só assim faria frente à prima? Mas por que no corpo? Mais precisamente, por que na consecução de um corpo ideal? Ironicamente, parece que engordar era um ponto de resistência, no sentido de resistir em não capitular neste lugar mortífero. O preço: a culpa! Imediatamente pensei: o que será que tem aí? Na economia de gozo que se fazia premente na escuta de Socorro, havia mais um elemento digno de nota: a raiva.

Outras dores e outros incômodos igualmente abalavam Socorro. Havia o sério problema na coluna, diagnosticado como hérnia de disco, sendo que o médico chegara a lhe dizer que sua coluna era frágil como a de uma velha. Além deste problema, foi detectada a existência de uma hérnia em seu abdômen. Socorro disse-me que seus pais também sofriam dos mesmos problemas. Perguntei o que ela achava disso. Respondeu que o médico da coluna fez o seguinte comentário: “Você herdou o material ruim dos seus pais”. Não cabia deixar passar e interroguei-a: “Ainda assim, a questão é: o que você vai fazer com isso...?”. Socorro ficou surpresa e, diante do seu longo período de silêncio, resolvi encerrar a sessão.

Muito provavelmente estava evocado o âmbito das identificações primárias, gozosas deste lugar de “peso morto” e de “cocô”. Como corroborar sua gana de não permanecer neste lugar em que se encontrava numa condição paradoxal, a saber, a de reeditar uma posição de “peso morto” e. assim, a de ter um lugar, mesmo sendo “um lugar ruim”. Descolar desse lugar, parecia-lhe muito perigoso, gerando o risco de desaparecer.

Em nosso encontro seguinte, Socorro chegou pensativa e permaneceu em silêncio. O que ela estaria pensando? Disse-lhe: “Pensa alto...”. Comentou que estava em dúvida se esse tratamento poderia ajudá-la. Ao que lhe respondi que minha aposta era de que seus mal-

estares precisavam ser falados. Disse-me: “Falar me faz sofrer”. Interroguei-a: “Será que não falar faz isso desaparecer?”.

Socorro pedia ajuda, encontrava-se fragilizada, não sabia o que queria. No contexto, fiquei pensando que a nossa oferta como psicanalista é a escuta e não a resposta às demandas.

Por viver numa relação hostil e distante com seus pais, Socorro buscava apoio e atenção com o namorado, seu antigo treinador de academia de ginástica dez anos mais velho que ela, e com uma filha do seu primeiro casamento. Ela comentou que, desde o início, o namoro fora mais uma decepção para os pais, que não aprovavam a relação porque o namorado pertencia a um nível social inferior. Socorro não se cansou de exaltar as qualidades do namorado, enfatizar o quanto era grata por tê-lo conhecido, e acrescentou que se estava vivendo até aquele momento era por causa da força que vinha dele. Era visível o papel de “cão de guarda” do namorado, o que a um só tempo reforçava o lugar de Socorro na absoluta dependência do Outro e a sustentava neste lugar.

O que chamava a atenção era a configuração da escolha por um homem que não se dispunha a nada mais do que compor uma parceria sintomática, o que, no fundo, só reforçava a dificuldade de Socorro para sair desse lugar. Ela não seria um “peso morto” também nessa relação?

Com o transcorrer do tempo, Socorro passou a chorar menos e a falar mais. Comentou que, quando estava em casa, ficava lembrando coisas que gostaria de me contar, mas, chegando às sessões, esquecia o que havia querido falar. Ela acrescentou que muitas vezes usava seu namorado como um ponto de apoio para lembrar o que tinha esquecido. Em seguida, passou a contar que, ao preencher uma ficha numa loja, esqueceu a própria idade, e teve que perguntar para o namorado: “Eu tenho 29 ou 30 anos?”. Indaguei: “O que lhe ocorre quando isso acontece? Disse-me que também não entendia. Naquele momento, pensei que

Socorro parecia dizer que o Outro sabe, e, com isso, deixava ver sua posição de alienação no desejo do Outro. Tal equação nos remete às duas operações de causação do sujeito, ou seja, aos conceitos lacanianos de alienação e separação (Lacan 1964:199-203).

Durante a sessão, Socorro pensou que a saída para seus esquecimentos pudesse ser tentar escrever o que pensava e me mandar por e-mail. Indaguei-a: “Você acha mesmo necessário?”. Ela respondeu que sim porque às vezes chegava aqui e não sabia o que falar. Marquei: “É, mas você vem falando”. Depois de um pequeno silêncio, Socorro relatou que na noite anterior tinha ficado pensando por que ela não conseguia sair da casca. Disse-lhe: “É uma boa pergunta...”.

Não deixa de ser significativo notar os indicadores da transferência comigo como analista. Queria me contar coisas que esquecia. Terreno profícuo, o do recalcamento, quando endereçado ao Outro. Talvez algo diferente do habitual, automático. Querer contar – falar – implica corte (ou recorte) do gozo.

Socorro começou a se questionar sobre o quanto estava se incomodando com sua passividade. Lembrou-se de um episódio acontecido na academia de ginástica que frequentava, quando uma colega pediu-lhe de maneira grosseira para ligar o ar-condicionado, o que Socorro fez, mas a contragosto. Falou que não sabia dizer não e, após o ocorrido, ficou com muita raiva por sua atitude. Interroguei-a: “Por que ligou?”. Respondeu: “Ah, não sei. Quando percebi, já tinha feito”. Em seguida, disse-me que sua mãe agiria diferente se a situação fosse com ela. E, então, contou que, ao presenciar uma situação entre a mãe e a vizinha, ela tinha ficado envergonhada por causa da franqueza da mãe, mas, ao mesmo tempo, achava que a mãe tinha agido certo. Acrescentou que sua mãe gritava e jogava as coisas para cima quando estava nervosa, e que tinha começado a observar que ela reagia de forma diferente, sua reação era de se recolher em seu quarto para chorar.

De certa forma, Socorro começava a se perguntar por que seria que ela não conseguia pôr um limite e dizer o que estava sentindo. Algo parecia se deslocar do campo das

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