1. Eles dizem, portanto, que o Pré-Pai dos Éons foi conhecido somente por aquele que dele foi gerado, o Unigênito (este é a Mente), sendo invisível e intangível a todos os demais. E a Mente, somente ela, regozijava-se em contemplar o Pai, e alegrava-se em compreender a sua imensurável magnitude. Incorreu-lhe, então, comunicar a todos os outros Éons a grandeza do Pai, quão grande e poderoso ele era, e como não tinha nem princípio nem dimensão, nem parecia ser tangível. Porém o Silêncio o conteve, segundo o intento do Pai, pois desejava
³⁴Lucas 3:23, “E o mesmo Jesus começava a ser de quase trinta anos, […]”
³⁵Mateus 20:1–16, “Porque o reino dos céus é semelhante a um homem, pai de família, que saiu de madrugada a assalariar trabalhadores para a sua vinha. E, ajustando com os trabalhadores a um dinheiro por dia, mandou- os para a sua vinha. E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça, e disse-lhes: Ide vós também para a vinha, e dar-vos-ei o que for justo. E eles foram. Saindo outra vez, perto da hora sexta e nona, fez o mesmo. E, saindo perto da hora undécima, encontrou outros que estavam ociosos, e perguntou- lhes: Por que estais ociosos todo o dia? Disseram-lhe eles: Porque ninguém nos assalariou. Diz-lhes ele: Ide vós também para a vinha, e recebereis o que for justo. E, aproximando-se a noite, diz o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando pelos derradeiros, até aos primeiros. […]”
conduzir todos ao pensamento e desejo de buscar o já mencionado Pré-Pai de todos. E todos os Éons aspiravam igualmente, em quietude, por um meio de ver aquele que projetou a semente de todos, e inquirir pela raiz que não tem princípio de existência.
2. O último e mais novo Éon da dodécade, porém, emanação do Homem e da Igreja, o qual é a Sabedoria, adiantou-se muito, e padeceu sem a cobertura da conjunção, o Desejado. Esse sofrimento³⁶, que se iniciou naqueles acercados à Mente e à Verdade, acabou sendo descarregado neste Éon distorcido (uns dizem que pelo amor, outros que pela ousadia), uma vez que não tinha comunhão com o Pai perfeito, assim como a Mente tinha. Este sofrimento é a busca pelo Pai, pois, como dizem, a Sabedoria queria compreender a sua magnitude. Uma vez que não era capaz, pois lançou a si algo impossível, e tornando muitas coisas em grande agonia, devido à extensão da profundeza entre eles, à falta de vestígios do Pai, e ao seu amor por ele; projetando-se sempre à frente, quase foi por fim consumida pela sua doçura, e elevada a sua completa essência, se não tivesse encontrado o poder que sustém e guarda todas as coisas fora da inominável magnitude. A este poder também chamam Limite, sobre quem a Sabedoria foi posta e estabelecida, e, com dificuldades, propriamente restaurada, convencendo-se de que o Pai é intangível, e colocando de lado o anterior apreço a ele, junto com o consequente sofrimento advindo daquela maravilhosa admiração.
3. Alguns dentre eles contam a história de como teria sido o sofrimento e a restauração da Sabedoria. Ela, tentando fazer algo impossível e intangível, teria dado a luz a uma essên- cia amorfa, segundo o que a sua natureza feminina poderia gerar. Primeiro, observando-a, ela se entristeceu, pois seu nascimento era imperfeito; depois, teve medo de tê-la sem que estivesse perfeita. Então ela se perturbou e se afligiu, procurando uma causa para o ocor-
rido, e uma maneira de esconder o que fora gerado. Encontrando-se em muito sofrimento,
a Sabedoria tomou alento, e correu para o Pai a fim de ser provada; e até ao ponto em que aguentava, extenuou-se, e passou a suplicar ao pai. Rogaram também junto a ela os outros Éons, principalmente a Mente. Disso, dizem, a essência teve seu o seu princípio a partir da ignorância, da aflição, do medo e da consternação.
4. O Pai, então, projeta o já mencionado Limite sobre todos através do Unigênito, sem
conjunção e sem a parte feminina. (Pois uma hora querem que o Pai esteja com sua conjun- ção, o Silêncio; outra hora, que ele seja supra-masculino e supra-feminino.) A este Limite também chamam de Cruz e Remidor, Frutificador, Limitador e Transferidor³⁷. E dizem que, através do Limite, a Sabedoria foi purificada e estabelecida, e restaurada à sua conjunção. Pois, tendo sido apartada dela a Estima, junto com o consequente sofrimento, a Sabedoria
veio a permanecer de fato dentro do Pleroma. E a sua estima, junto com o sofrimento, foi
removida e despojada pelo Limite, tornando-se externo ao Pleroma. Essa Estima é uma es- sência espiritual, sendo sua natureza como o ímpeto de um Éon, e é também sem forma e sem imagem, pois é intangível. E por isso a chamam de fruto adoecido e feminino.
5. Depois da Estima ser separada do pleroma dos Éons, e de sua Mãe ser restaurada à sua própria conjunção, o Unigênito emanou novamente outra conjunção, conforme a pro- vidência do Pai, para que nenhum Éon padecesse de semelhante sofrimento. Estes são Cristo e Espírito Santo, emanados para a fixação e estabelecimento do Pleroma, pelos quais foram restaurados os Éons. Pois Cristo os ensinou que é suficiente que as conjunções sejam cientes de como compreender o que não fora gerado, proclamando neles o conhecimento do pai, de que ele é invisível e também intangível, e que não é possível nem vê-lo nem ouvi-lo, senão conhecê-lo através do Unigênito. A razão da existência eterna é o primeiro entendimento do Pai dado aos demais Éon; a razão da sua criação e formação, no entanto, é o entendimento
dado somente ao filho³⁸.
6. E, enquanto o emanado Cristo realizou neles todas essas coisas, o Espírito Santo os ensinou a serem agradecidos, tendo se igualado todos, e os conduziu ao verdadeiro des- canso. Assim, dizem, todos os Éons foram estabelecidos iguais em forma e conhecimento; todos se tornaram Mentes, e todos Verbos, e todos Homens, e todos Cristos. E as partes femininas semelhantemente se tornaram todas Verdades, todas Vidas, todas Espíritos, e to- das Igrejas. Tendo sido assim estabelecidos todos, e descansado finalmente, dizem que com grande alegria entoaram hinos ao Pré-Pai, compartilhando de muitas bênçãos. E em razão desta beneficência, em comum acordo e entendimento, todo o Pleroma dos Éons, com o bem
³⁷Os termos em grego são, em ordem,Σταυρός, Λυτρωτής, Καρπιστής, Ὁροθέτης e Μεταγωγεύς.
³⁸Esse parágrafo é bastante obscuro, e diferentes tradutores sugerem diferentes interpretações. Vide 3.2.2 para uma delas.
parecer do Cristo e do Espírito, e com o selo de aprovação do Pai, decidiram trazer em con- tribuição o que cada um dos Éons tinha de mais belo e novo em si mesmo. E operando todos em comum acordo, concebendo em uníssono, emanaram uma projeção em honra e glória à Profundeza, a mais perfeita beleza e estrela do Pleroma, o fruto perfeito, Jesus, também proclamado Salvador, e Cristo, e Verbo, segundo o nome do seu pai, e o Todo, pelo fato de
vir a ser a partir de todos. Juntamente, em honra a ele, emanaram também Anjos da mesma
natureza, para lhe servir como guarda pessoal.