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Sofrimento das crianças hoje

No documento A infância está desaparecendo? (páginas 37-52)

2. INFÂNCIA ATUAL E SEUS DESDOBRAMENTOS

2.2 Sintoma das Crianças

2.2.1 Sofrimento das crianças hoje

Meira (2008) fala sobre o nascimento dos bebês atualmente, onde os pais se preocupam em filmar o parto e acabam ficando fora da cena. Anteriormente a cena do nascimento era diferente, ocorria o ritual de dar o nome a criança, os pais a pegavam no colo, porém hoje, está cena familiar passará para os outros e a câmera tentará suprir uma falta.

Os pais participam dos partos com suas filmadoras, preocupam-se, desde que o bebê nasce, em registrar em vídeo todos os movimentos. Mal este chega ao mundo, já é apresentado a este cultuado objeto que marca a sociedade: a câmera de vídeo, o olhar de vidro, transparência, sem palavras. Primeira marca: diante do bebê, o pai escolhe segurar a máquina, gravar em vídeo seu nascimento, para que depois se assistam as cenas em família. Destas, o pai está substituído, porque está atrás, filmando, fora de cena (ibid., p. 160).

Os pais querem este registro para a posteridade, porém não pensam sobre efeitos que esta “compulsão por imagens”, segundo Meira (2008), produzirá neste bebê e na família.

Baitello Júnior (2001) apresenta a ideia de que há três formas de mídia: a mídia primária é o corpo, em decorrência das trocas de informações: há trocas de informações visuais, olfativas, auditivas, táteis e gustativas e segundo o autor,

possuem “um limite temporal e espacial, exige o tempo e o espaço do aqui e o agora” (p. 27), A mídia secundária caracteriza-se por informações de presença na ausência. Isto é, utilização de objetos exteriores ao corpo para se comunicar. Todos os produtos de escritas se definem nesta mídia, apesar disso o limite da transportabilidade é um limite. A mídia terciária surge no decorrer da era da eletricidade. Desenvolveu-se o telégrafo, o telefone, o rádio, a televisão, até as atuais redes de computadores. Há um imediatismo da informação. Porém, a mídia primária é indispensável em qualquer uma das mídias, pois ela é o início e o final da informação.

Meira (2008) cita Paul Virilio para pensar sobre os efeitos da televisão, onde esta seria conhecida como uma “babá eletrônica”. Segundo a autora isso ocorre porque:

Desde pequenas as crianças são colocadas à frente da televisão, assistindo a programas supostamente criados para sua faixa etária, onde seu corpo encontra-se anestesiado. Apenas seus olhos e ouvidos encontram-se pulsionalisados na direção da tela. Este é a contadora de histórias privilegiada pelos pais, em seu cotidiano. A busca de apaziguar o mal-estar da infância revela-se na concomitante proliferação de videotecas com filmes infantis. Muitas crianças pequenas vivenciam subtração da presença dos pais a partir destas rotineiras posições de espectadores a que são precocemente submetidas (ibid., p. 162).

Este ser posta em frente da televisão, Vasconcellos (2001) entende que é uma forma de projeção por parte dos pais, pois a desculpa para que a da criança não se sinta sozinha.

Podemos pensar, que em vez de a criança ser amparada pela mídia primária, que envolve os cuidados maternos, fica aos cuidados da mídia terciária, a televisão (BAITELLO JUNIOR, 2001; MEIRA, 2008). Jerusalinsky (2015a; 2017a) pensa numa “chupeta eletrônica”, pelo fato da criança ficar capturada pela tela brilhante, podendo incluir aí qualquer eletrônico (computador, televisão, celular, tablet etc).

Kehl (2001b) escreve sobre a violência do imaginário6 - influencia que a televisão exerce sobre as pessoas. Esta violência se caracteriza como uma “resposta à ausência de sentido na nossa vida quando o pensamento é dispensado,

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Não é violência imaginária ou imagem da violência, é violência do imaginário, segundo Kehl (2001b).

e quando o nosso único lugar de existência é o corpo e o ato” (p. 58). A autora desenvolveu três premissas para sustentar seu pensamento sobre este tema.

A primeira premissa é que o funcionamento do imaginário não proíbe e não reprime, mas dispensa a necessidade de pensar. Sendo assim, a “cada imagem apresentada é como se fosse um microfragmento de gozo que o espectador consegue obter” e “a cada fragmento de gozo o pensamento cessa”, pois este é movido pelo desejo, segundo Kehl (2001b, p. 47).

O sujeito busca através do pensamento um objeto perdido “tenta reconstruir, pela via simbólica, pela via da representação, um substituto para este objeto” (p. 47).

O interessante do pensamento é que ele tem que produzir sempre novas significações porque como não temos acesso direto ao Real, o tempo todo o Real nos escapa, o tempo todo temos que re-simbolizar o Real, e prosseguir com o desligamento do significante até produzir um novo significado. Ora, “realizar um desejo” é encontrar uma representação para um desejo que não conhecemos, ao qual nunca temos acesso. Esse encontro (ou invenção) da representação estanca momentaneamente o trabalho psíquico do pensamento (ibid., p. 48).

A televisão, deste modo, proporcionaria satisfação do desejo, dispensa que pensemos. Porém, as pessoas não param de pensar, o que ocorre é que as imagens começam a ocupar a vida real e a vida psíquica e assim pensamos menos, pois são estas imagens que ficaram nos nossos pensamentos (KEHL, 2001b).

A segunda premissa surge como decorrência desta primeira. Segundo a autora, como consequência estimulará a passagem ao ato, este modo de funcionamento imaginário, já que “o pensamento não opera, o sujeito, incapaz de simbolizar aquilo que vê, é compelido de certa forma a interferir, a existir em ato onde não pode existir enquanto sujeito simbólico” (ibid., p. 48, grifo do autor). Porém tudo dependerá da cultura em que o sujeito estiver inserido.

Em decorrência do modo de funcionamento imaginário, segundo a autora, “o Outro evoca sempre uma reação paranóide” (p. 52). Deve-se ao fato que o Outro está encarnado na produção imaginária, nas sociedades de massa, estando presente em vários lugares ao mesmo tempo. Ela está nos propondo, mesmo que não nos vê “mas ele está nos oferecendo uma produção de visibilidade e de imagem continua, que funciona para o sujeito como oferta incessante de objetos para o desejo” (p. 53). A autora associa esta função, a função que a mãe exerce sobre o bebê.

Kehl (ibid.) responde o seu próprio questionamento a respeito das consequências que ocorrem quando “o Outro encarna, imaginariamente, num objeto da cultura” (p. 53). Este exerce um poder sobre a criança, ameaça o saber, já que o sujeito não se questiona sobre seu desejo e acaba aceitando o que é dado. Além disto, esta suposta uma onipresença e uma onisciência, como se fosse deus. Sendo assim, a televisão torna-se o Outro.

A terceira premissa é “o imaginário como o lugar dessa encarnação do outro sem falta [...] faz com que o objeto causa do desejo seja intolerável” (ibid., p. 55). Isto é, ele é intolerável pelo fato do objeto não constituir num campo simbólico. O sujeito desejará, mas demandará este desejo. Ocorre violência quando “eu tenho

que ter isto que você me nega que a violência se instaura; eu tenho que ter o que

você tem, ou eu tenho que obter de você o que eu preciso” (p.55, grifo do autor), ocasionando assim a violência.

Levin (2007) reflete sobre a agressividade do imaginário, aponta que alguns de seus efeitos seriam “dificuldades na montagem e na construção do esquema corporal, o que aumenta a dependência das imagens exibidas nas telas” (p. 166). Segundo o autor, as crianças começam a agir sem pensar, pois entram num modo de pensar sem pensar. Mostra ainda que se necessita compreender como se apresenta a violência do imaginário, pois não se trata da eliminação da agressividade da criança através de castigos, por exemplo.

Vasconcellos (2001) aponta que se não houver a educação das emoções da criança, ela não identifica seus conflitos, responderá com violência. Quanto menor a criança será mais prejudicial, “pois ela não consegue discriminar o que escuta, o que vê, o que é real e o que é imaginário” (p. 70). Segundo Kehl (2001b) não é pela via de modelo e imitação, mas elas acabam achando normais as cenas de violência. Como nós adultos, que não ficamos mais impressionados com notícias atuais, que em alguns anos atrás nos deixariam chocados.

Segundo Ceccarelli (2001) a televisão torna-se perversa. Perversa pelo fato do outro não consentir ou não entender o que está passando, como é o caso das crianças, seja nos comerciais ou na grade da programação, onde ela é incentivada a consumir.

Figura 3 Mafalda

Fonte:Google Imagem – Consumismo na infância Mafalda

Segundo Bucci (2001) a criança “é consumidora antes de ser cidadã” (p. 94). Mas ela não consome somente com a televisão ligada, consome com ela desligada a partir das descargas imaginárias, sendo influenciada a consumir quando vai ao mercado ou observa o pai escolhendo o carro que vai comprar.

Meira (1997) escreve que um sintoma que se modificou foi o brincar, onde a perfeição é exigida desde que a criança é pequena. Segundo Jerusalinsky (2008) o brincar está pouco valorizado, mesmo havendo o entendimento de sua importância.

Levin (2007) aponta que os brinquedos apresentados para as crianças atualmente, não são para brincar, são para aprender. Isto é, importa que o brinquedo “seja o mais adequado à fase didática sugerida” (p. 64). Segundo o autor, isso resulta na “perda da essência da experiência infantil” (p. 65), que seria a criança reinventar o brinquedo, a partir de sua imaginação. Meira (2003) observa que atualmente, se a criança ficar brincando repetidas vezes com um brinquedo é dito a ela que é perda de tempo, ela tem de produzir.

Possui diferença o brinquedo pronto e o brinquedo que a criança transforma como aponta Meira (2008).

Há uma diferença crucial entre os brinquedos plastificados, automatizados e estes pequenos objetos de madeira, de pano, que as crianças encontram à sua volta, transformando-os em objetos de criação simbólica e imaginária. Nestes, a vestimenta da palavra dá vida ao brincar. Nos jogos virtuais ou automatizados, nos quais a criança aperta um botão e produz-se um som em sintonia sígnica, encontra-se apagada esta dimensão lúdica (ibid., p. 163).

As crianças são apresentadas muito cedo aos jogos virtuais, porém elas ainda não têm a possibilidade de representação simbólica para isto. No entanto, ocorre que os adultos contribuem neste processo:

[...] em consonância com os velozes ritmos do social, os pais, os professores e muitos terapeutas oferecem às crianças pequenas inúmeros jogos pedagógicos, virtuais, lançando-as uma ruptura com o processo de criação, tecido imaginário e simbólico, que dá suporte a uma existência (ibid., p. 162).

Jerusalinsky (2008) escreve sobre os jogos eletrônicos, onde a criança joga contra ela mesma, mas acima de tudo são criptografias na tela, “o outro, desse modo, ficaria reduzido a um código lógico, sem outro corpo que o meu olhar e o meu pensamento lhe outorgam” (p. 178). Porém o autor concorda que os jogos eletrônicos contribuem para a “elaboração simbólica da agressividade” (p. 178) da criança, mas tudo dependerá da interpretação da fantasia e da realidade fornecida. Fala ainda que o adulto torna-se cúmplice, pois é ele que oferecerá para as crianças estes jogos.

Os pais, segundo Assemany (2016), justificam este uso precoce da tecnologia, “como um auxiliar na ocupação dos filhos em casa, quanto para que tenham tempo de desenvolver suas atividades” (p. 235-236). Ou outra justificativa, é o mundo competitivo de hoje, sendo assim, ela precisa treinar precocemente. Segundo a autora, ocorre uma “abreviação da infância”, devido a esta superestimulação precoce.

O Google, ou melhor, “Doctor Google” aparece atualmente sendo o “Outro do sujeito contemporâneo”, segundo Jerusalinsky (2017a), devido sua condição de onisciência, de onipotência e de onipresença. Verificamos que a televisão já foi desbancada por outra tecnologia, que exerce as mesmas funções acrescidas da onisciência – o saber absoluto.

O “Doctor Google” fornece o saber para os pais, os destituindo de seus saberes. E isso não é sem consequência. O “Doctor Google” possibilita aos pais fazerem diagnóstico de seus filhos. Observa, porém, que entre as respostas dos questionários não aparece “depende” é somente “sim” ou “não”, pois não considera as condições em que aparece aquele comportamento. Para o Google, simples impasses da vida, tornam-se patologias (Jerusalinsky, 2017a).

Jerusalinsky (2017a) crítica o excesso de informação, que faz com que as pessoas fiquem na superfície da informação, não chegam a se aprofundar no assunto, porque não teria como, pois logo surge outra noticia ou simplesmente preferem não se aprofundar. Os pais fazem isso, ao fazer testes disponíveis na Internet, não se interrogam.

A autora ao abordar sobre o TDAH – Transtorno de Atenção e Hiperatividade – reconhece que diz que a cultura em que vivemos produz excessos sensoriais fragmentados, em decorrência do excesso de informação, como dito acima. Percebe que com as crianças não seria diferente, em virtude de que as crianças estão em processo de constituição. Em relação a isso aponta, que

[...] os adultos estão impacientes, os pais estão eles mesmos desamparados de uma rede simbólica que reconheça seu lugar como pais e que tornem legítimas suas transmissões singulares do gosto de viver... parece que não há tempo para isso. É preciso funcionar e rápido. E, quando as coisas não encaixam, é um transtorno e rapidamente se enquadram as crianças em ambulatórios de transtornos de sono, transtornos alimentares, transtornos opositivos transgressores... diagnósticos sobrepostos ao do TEA (JERUSALINSKY, 2017b).

Ou ainda,

Nesses ambulatórios os pais recebem indicações de como lidar com o transtorno da criança, não se trata de interrogar como lidar com a criança e o enigma que seu sintoma coloca. Instruções são dadas de como lidar com o transtorno que passa a defini-la para sempre: ou seja, a criança vira o nome do transtorno (JERUSALINSKY, 2017b).

Os psicofármacos aparecem para a infância atualmente como camisas de força, conforme Almeida, Freire e Próchno (2016), ocorrendo assim que as “crianças aparecem medicadas cada vez mais cedo” (p.313) e os pais anseiam por medicamentos. Jerusalinsky (2014) argumenta que a utilização dos medicamentos vem como uma forma de “palmatoria química”.

Jerusalinsky (2011) questiona o uso da Ritalina no tratamento do TDAH, em decorrência que até o momento não há evidencias cientificas que comprovem a cura. Mas argumenta que,

Não quer dizer que não existam crianças com problemas de atenção [...] porém, dizer que é causado por uma configuração especifica do sistema nervoso sem ter provas é, no mínimo, irresponsável (ibid., p. 241).

Jerusalinsky (2015b) aponta uma “epidemia diagnóstica” do autismo. Se cai num reducionismo, seja pela via orgânica ou pela via psicologizante. O que ocorre muitas vezes é uma intoxicação tecnológica (2017a; 2017b). Não fica restrita somente ao autismo, engloba as outras patologias atuais. Não podemos esquecer que a criança está se constituindo, se estruturando.

[...] estar não é ser. Uma criança não está plenamente estruturada nem psíquica nem organicamente, e, portanto, o seu diagnóstico não é fechado, não é para sempre, pode ser um estado transitório, capaz de modificar-se com a intervenção clínica (idem., 2015b).

Necessita-se reconhecer o sujeito e não seu transtorno, possibilitando “encontrar onde estão as brechas que podem ser ampliadas no tempo da infância“ (ibid., 2017b). Jerusalinsky sobre a intervenção para favorecer a constituição da criança alerta que é preciso,

[...] detectar dificuldades para intervir a tempo favorecendo a constituição. Por isso o que considero o melhor diagnóstico para encaminhar a uma intervenção precoce é, “não está bem” e ponto, não precisa haver risco específico de...(idem., 2017b, grifo do autor).

Jerusalinsky (2017b) se questiona se o que ocorre vêm pela via dos sintomas da infância como contrário aos ideais da sociedade atualmente, pois as crianças são excessivamente estimuladas e esta carga pode afetar sua mente que ainda esta se formando, se desenvolvendo. Segundo Vasconcellos (2001) e Jerusalinsky (2015a; 2017a) temos que nos interrogar sobre os excessos que o uso da tecnologia provoca na criança, pois a criança esta se constituindo psíquicamente.

Acontece que a televisão é a única janela para o mundo atualmente, segundo Jerusalinsky (2008). Devido à violência urbana e o tempo livre que as crianças dispõem devido as suas agendas neste mundo que “não há tempo para contos de fadas” (p. 178). Além disto, as crianças ficam muito tempo a sós, ocorre assim, que ficam na companhia da televisão e outros meios eletrônicos, o que trazem consequências psíquicas, “para os bebês pelas intoxicações eletrônicas, para as crianças por uma transmissão anônima, não mais mediada por pais e professores”, conforme Jerusalinsky (2017b).

Levin (2007) diz que o adulto necessita dar significado e gerar sentido, pois a criança estará marcada pela experiência da descoberta e desenvolvendo o seu pensamento infantil. Jerusalinsky (2008) reforça sobre a necessidade das palavras dos pais para os enunciados que se apresentaram para ela na televisão7. A televisão não terá como sobre a vida de cada criança, suas particularidades. Sendo assim, apresentará uma programação para todas as faixas etárias.

Jerusalinsky ao ser entrevistado para uma revista8, perguntaram para ele se teria como não padronizar a criança por meio do imaginário produzido pela indústria, levando em consideração a educação e o processo subjetivante da criança. Ele responde que é completamente pessoal o modo como cada um encara o mundo e os problemas, mas tem como auxiliar com algumas questões.

– quando uma criança contempla o percurso das formiguinhas, ela está aprendendo a partir do empenho, da colaboração recíproca, da teimosia (no bom sentido) e da coragem que esses pequenos bichinhos demonstram. E as formigas não falam inglês;

– quando uma criança “ressuscita” vinte vezes um personagem que “morreu”, durante suas brincadeiras, ela não está cometendo um erro, mas criando caminhos pelos quais escapar das tragédias da vida;

– quando uma criança fica abstraída, ciscando com um galho na areia, marcando traçados aleatórios, pode estar simplesmente pensando nos acasos da vida;

– quando uma criança ensaia vezes e mais vezes acertar uma bola, não está se preparando para ser Ronaldinho ou um craque de basquete, mas simplesmente medindo a distância entre sua modesta habilidade e o ideal social;

– além do inglês, há línguas interiores que precisam ser “faladas”, para uma criança chegar a compreender o mundo e a família que lhe são próprios; – as crianças também têm objetos de estimação, e eles precisam estar em lugares “respeitáveis” da casa, tanto quanto os objetos de estimação de seus pais;

– os sobreviventes deste mundo somos os adultos; as crianças ainda não estão lá, e por isso não precisam desenhar sua agenda e cada um de seus minutos de acordo com um projeto de sobrevivência; ainda estão no tempo de descobrir quais são as boas razões para viver;

– um livro de literatura infantil lido quando ainda as crianças não sabem ler, embora não tenha a mágica fascinante dos vídeos, tem, sobre estes, uma vantagem fundamental: a voz do pai, da avó, do tio, que lê para elas; essa voz, que não oferece a ilusão de realidade própria da tela televisiva, sustenta o enlace entre a criança e os outros;

– toda criança vai espiar por trás do pano do proibido; porém, é fundamental que esse pano esteja ali: ele marca a diferença entre o ato e a imaginação; essa fronteira serve tanto para o sexo quanto para a violência (p. 181).

7

Ou qualquer outro meio eletrônico.

Sendo assim, a infância para a psicanálise não está desaparecendo. As crianças estão se constituindo, como em outros tempos, o que mudou foram os sintomas que as crianças estão apresentando e o Outro na contemporaneidade. Analisamos a grande influência que as tecnologias exercem e as consequências no uso precoce.

Descrevemos alguns dos sintomas presentes atualmente na infância, porém depois destes sintomas, surgirão outros e outros após. Em decorrência disto, surgem os transtornos e as medicalizações que desconstroem a infância idealizada pelo social, possibilitando que as crianças contrariem os ideais impostos, tanto pelo social quanto pelos pais, que tentam recuperar-se narcisicamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De miniaturas de adultos, ao surgimento do sentimento de infância, de adultos não formados à adultos em constituição, a criança foi descrita de vários modos no decorrer da história. Para alguns a infância está desaparecendo. Já para a psicanálise o importante é a estruturação do sujeito, levando em conta o sintoma social da época. Tudo dependerá do referencial teórico utilizado.

Inicialmente apoiávamos a ideia de que a infância estaria desaparecendo, porém no decorrer deste trabalho percebemos que não. As mudanças que ocorrem são devidas ao sintoma social presente na sociedade atualmente, que faz com que as crianças sejam excessivamente estimuladas para irem ao encontro dos ideais parentais e sociais. Quando crianças não correspondem, muitas vezes são diagnosticadas com algum transtorno ou são medicalizadas, para justificar esta falha.

A infância atual não está pior ou melhor do que a da geração anterior. Está diferente. É outro tempo. Tempo este no qual ela terá de dar o seu melhor, já que é muito idealizada; e às vezes até terceirizada.

Quando mencionamos a infância, poderia se pensar que nos remetemos às crianças das classes médias às altas, devido ao maior acesso meios eletrônicos. Porém, a classe baixa também tem acesso às tecnologias ou outras formas para terceirizar a criança, sejam familiares ou escolares, ou até mesmo o governo. As tecnologias não ficam restritas a uma classe econômica, elas estão de certo modo interligadas à todas as classes.

Contudo, a criança necessita ser desejada pelas pessoas que exercem as funções parentais, ou seja, ser investidas. Os pais não precisam saber tudo a respeito da criança, este não saber, faz com que se produza um saber na criança por meio desta relação que se interroga.

Se os pais não fizerem suas funções, outros farão. O quadro da Mafalda

No documento A infância está desaparecendo? (páginas 37-52)

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