II. Enquadramento conceptual
6. A interrupção da gravidez à luz da bioética
6.3. Princípios de ética médica
Os princípios de ética médica encontram-se centrados na moral comum, sendo que esta adquire as suas premissas básicas através da moral partilhada pelos elementos da sociedade.
As teorias baseadas em princípios são pluralistas (Beauchamp & Childress, 2002/1994). Ao nível do argumento normativo são formadas por dois ou mais princípios prima facie, isto é, princípios que não discordam com as restantes teorias éticas e paralelamente não podem ser considerados absolutos, sendo flexíveis na sua aplicação prática e com capacidade de resposta ao nível de dilemas a que outras teorias não conseguem responder (Ricou, 2004). Estas teorias distinguem-se das teorias éticas normativas, desenvolvidas com o objectivo de direccionar a acção humana à luz da ética, que tinham nalgumas perspectivas um carácter unicista. As teorias utilitaris ta e do dever apresentam um único princípio na regulação da acção, pelo que são monísticas (Beauchamp
& Childress, 2002/1994).
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A ética da moral comum baseia o seu conteúdo nas crenças compartilhadas e não na razão absoluta, no direito natural ou num determinado sentido moral. Diferencia-se da moral habitual, que reflecte as atitudes simples e os costumes locais. E, neste sentido, os princípios da moral comum, à semelhança dos direitos humanos são critérios universais (Beauchamp & Childress, 2002/1994).
Ainda que os princípios de ética médica tenham a sua essência na moral comum, a sua finalidade não é necessariamente alcança-la. Cada princípio, na sua formulação, deve ser interpretado, especificado e ponderado de acordo com uma ética para a biomedicina. C omo princípios prima facie, os da ética médica constituem-se guias de acção normativa que estabelecem as condições de permissividade, obrigatoriedade, correcção e incorrecção das acções que respeitam à esfera da biomedicina. No âmbito dos conflitos, postul am o compromisso, a negociação e a mediação. Desta forma, não são intransigentes, visando uma melhor resolução dos dilemas éticos ao nível dos cuidados de saúde, à luz do postulado pelos autores anteriormente referidos.
Os princípios de ética médica propostos por Beauchamp e Childress (2002/1994) são quatro: 1) respeito pela autonomia, 2) não-maleficência, 3) beneficência e 4) justiça. A autonomia por si só difere da conceptualização do respeito pela autonomia. A autonomia é encarada em função dos agentes que a desempenham e é inerente a critérios de intencionalidade, existência de conhecimento e ausência de influências externas ao indivíduo que pretendam controlar as suas acções. Já o respeito pela autonomia individual implica assumir o direito da pessoa a ter opiniões próprias, a escolher e levar a cabo acções baseadas nos seus valores e nas suas crenças pessoais. Deve ser exercido de forma activa e não passiva, meramente a título atitudinal. Ao respeito pela autonomia está subjacente a obrigação de não intervir nos assuntos de terceiros, mas também assegurar as condições necessárias para que a escolha seja autónoma e ultrapassadas todas as circunstâncias que possam dificultar o exercício da autonomia.
No âmbito da prestação de cuidados de saúde assistiu-se nas últimas décadas à evolução do paradigma respeitante à relação estabelecida entre o profissional de saúde e o utente. Inicialmente esta relação pautava-se por uma postura paternalista, de assimetria em que o profissional decidia no interesse do utente. No entanto, ao longo do tempo esta relação tem evoluído no sentido do respeito pela autonomia do utente, sendo mediada pela
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ponderação entre os intervenientes com base na informação providenciada pelo profissional de saúde, mas em que a tomada de decisão cabe ao utente (Tovey, Atkin & Milewa, 2001).
O princípio da não-maleficência, no âmbito da ética médica, encontra-se intimamente associado à máxima primum non nocere, que pressupõe, no âmbito da prestação dos cuidados de saúde, primeiramente não causar dano ao utente. Este princípio impele a não fazer mal intencionalmente, relacionando-se assim com a máxima do Juramento de Hipócrates que considera que, pelo menos, não se deve causar mal.
Assim como transparece do Juramento de Hipócrates, algumas teorias éticas consideram existir similaridade entre os princípios de não-maleficência e beneficência. No entanto à luz desta teoria considera-se a sua diferenciação possível do ponto de vista conceptual. Desta forma, subjacente ao princípio da não-maleficência considera-se que não se deve causar dano ou mal. Doutro modo, o princípio da beneficência indica que se deve prevenir o dano e o mal, se deve evitar causar dano ou mal e que se deve fazer ou promover o bem. Enquanto o princípio da beneficência implica ajudar activamente o indivíduo, o da não-maleficência pressupõe apenas a abstenção da realização de acções que intencionalmente possam causar dano.
Subjacente ao princípio da não-maleficência encontra-se a doutrina do duplo efeito.
Esta doutrina pretende especificar as condições do princípio da não-maleficência nas situações em que o agente é incapaz de evitar todos os danos possíveis na intenção de obter importantes benefícios (Beauchamp & Childress, 2002/1994). Trata-se portanto do menor mal que é acarretado na maximização do bem alcançado. À luz da doutrina, para que uma acção com duplo efeito seja justificável, quatro condições devem ser cumpridas (Beauchamp
& Childress, 2002/1994): 1) natureza da acção, esta deve ser correcta ou pelo menos moralmente neutra; 2) intenção do agente, que deve apenas ir de encontro ao efeito benéfico, embora o efeito prejudicial ou danoso deva ser previsível, tolerado e permitido, não deve ser premeditado; 3) diferenciação entre os meios utilizados e a finalidade alcançada, o efeito prejudicial não deve ser um meio para obter o efeito benéfico; e 4) proporcionalidade entre os efeitos de beneficio e prejuízo, em que o primeiro deve superar o segundo. Para Beauchamp e Childress (2002/1994) cada uma das condições é necessária e o seu conjunto suficiente para que o acto seja moralmente permissível.
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O princípio da beneficência tem subjacente o conceito de beneficência como a virtude de fazer o bem (Silva, 1990). Refere-se, mais do que ao exercício das acções em benefício dos outros, à obrigação moral de pautar a conduta por tal asserção. Distingue-se da benevolência por esta concernir ao traço de carácter individual ou virtude de estar disposto a agir em benefício de outrem.
Muito embora a obrigação de conceder benefícios, prevenir e suprimir danos, assim como superar os ganhos face aos prejuízos imputados a uma acção sejam centrais na ética biomédica, o princípio da beneficência não é suficientemente amplo para abarcar os restantes. De facto estas normas de obrigações de beneficência, que na resolução dos dilemas de ética médica devem ser combinadas com os demais princípios, podem predominar sobre obrigações de não-maleficência, ainda que estas não devam ser descuradas.
Existe um interface entre os princípios de beneficência e respeito pela autonomia individual, na medida em que se deve praticar o bem, mas paralelamente, promover a tomada de decisão livre, esclarecida e informada do utente a quem são prestados os cuidados de saúde. Neste sentido, um conceito que surge aliado ao princípio da beneficência é o da vulnerabilidade que se firma na liberdade do indivíduo, na responsabilidade do outro e no reforço da solidariedade (Patrão Neves, 2006).
A justiça como um princípio pressupõe um tratamento igual entre os indivíduos, equitativo e apropriado em função do que lhes é havido ou constitui a sua propriedade.
Mediante o conceito de justiça aos indivíduos devem ser atribuídos benefícios ou punições mediante a natureza das suas acções. A justiça distributiva, por seu turno, concerne à distribuição igual, equitativa e apropriada na sociedade, determinada por normas que estruturam a cooperação social. Num sentido amplo é utilizada na distribuição dos direitos e das responsabilidades.
De acordo com o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948, p.1) “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”, o que implica que, para além das diferenças passíveis de serem estabelecidas em função do mérito de cada um, haverá um mínimo que deverá ser garantido a todos.
À luz do princípio da justiça social, no referente aos cuidados de saúde, considera -se que os indivíduos devem ter acesso aos cuidados de saúde de igual modo, de forma a
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promoverem activamente o seu direito à protecção da saúde por meio da sua a uto-determinação.