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4. TRABALHO E SOFRIMENTO

4.1 SOFRIMENTO NÃO RECONHECIDO

Christophe Dejours, psiquiatra francês dedicou a sua obra à análise e construção da psicopatologia e psicodinâmica do trabalho. Em seus estudos, Dejours constatou a existência de um sofrimento psicológico engendrado na classe trabalhadora por meio da organização do trabalho.

A organização consiste em um conjunto complexo formado pela divisão do trabalho, pelo conteúdo da tarefa a ser realizada pelo trabalhador, pelo sistema hierárquico, pelas modalidades de comando, relações de poder, questões de responsabilidade, entre outros.51

A noção de sofrimento é central para o psiquiatra Dejours. Ela implica um estado de luta do sujeito contra forças que estão o empurrando em direção à doença mental consolidada. Tais forças, conforme a teoria Dejouriana, estão na organização do trabalho.52

As análises do psiquiatra se iniciam fundamentadas, sobretudo, no modo de produção Taylorizado. No contexto marcado pela Revolução Industrial, o método de Taylor foi estabelecido com vistas ao aumento da produtividade e, para tanto, utilizou-se um “modo operatório cientificamente estabelecido”, levando em conta a agilidade do operário na produção e a realização de movimentos repetitivos, com uma estrutura de trabalho organizada hierarquicamente.

Instituiu-se, em detrimento do trabalho artesanal predominante no período pré-revolucionário, no qual o operário coordena seu ritmo de produção, uma Organização Científica do Trabalho (OCT), caracterizada pelo fracionamento máximo das atividades dos operários, movimentos repetitivos realizados pelos obreiros e rigidez da organização do trabalho nas fábricas.

Pelas palavras de Dejours, na instauração método Taylor de produção:

51 DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992, p. 25.

52 Ibidem. p 10.

“o homem no trabalho, artesão, desapareceu para dar luz a um aborto: um corpo instrumentalizado – operário de massa – despossuído de seu equipamento intelectual e de seu aparelho mental”.53

A organização do trabalho taylorizado exerce violência no funcionamento mental do empregado, uma vez que retira a sua capacidade de autodeterminação no meio ambiente laboral, impondo a Organização Científica do Trabalho guiada pela agilidade e produção veloz.54

Entre a organização do trabalho e o aparelho mental desapareceu o

“amortecedor” que constituía a atividade intelectual do operário-artesão em seu trabalho. Ao artesão era comum, por exemplo, saber quando parar de trabalhar devido ao cansaço; ao operário do modo Taylor, essa faculdade é retirada.

Do ponto de vista psicopatológico, a organização cientifica do trabalho, segundo Dejours, traduz-se por uma tripla divisão, qual seja: divisão do modo operatório, divisão do organismo entre órgãos de execução e órgãos de concepção intelectual.55

Assim, do choque entre um indivíduo personalizado (que controla a sua atividade laboral por intermédio do seu aparelho psíquico) e a organização do trabalho despersonalizante, emerge sofrimento, a medida que o operário, antes artesão, não se reconhece no seu trabalho.56

A introdução do sofrimento pela organização do trabalho no meio ambiente laboral é demonstrada por Dejours através da análise de dois casos concretos: o caso das telefonistas e o trabalho nas indústrias petroquímicas.

4.1.1 CASO DAS TELEFONISTAS

53 Ibidem, p. 39.

54 RAGO, Luzia Margareth; MOREIRA, Eduardo. O que é Taylorismo. São Paulo: Brasiliense. 1986.

55 Op. Cit. p. 39.

56 Ibidem. p. 43.

O caso das telefonistas foi analisado por Christophe Dejours a partir de pesquisas realizadas por Dominique Dessors na empresa estatal francesa Postes, Télégrames et Telecommunication, a qual agrupa os correios, telégrafos e telefonistas.57

O trabalho das telefonistas propicia a análise da relação existente entre

“tensão nervosa” e produtividade. No cotidiano laboral, inúmeras são as reações agressivas proporcionadas pelos interlocutores (clientes), pelo controle da chefia e pelo conteúdo inadequado da tarefa realizada.

As reações agressivas, frente às situações de estresse no trabalho, não são exteriorizadas contra o interlocutor ou contra os hierarquicamente superiores, devido ao controle exercido pela organização do trabalho. Há, por exemplo, comandos da chefia que determinam a proibição de responder agressivamente, proibição de desligar, proibição de irritar o atendido o fazendo esperar indefinidamente, dentre outros. Por óbvio que, frente a necessidade de se manter em seus postos de emprego, as instruções são acatadas pelas trabalhadoras.

Para exteriorizar a agressividade, a única solução autorizada, então, é reduzir o tempo da comunicação e empurrar o interlocutor a desligar mais depressa.

Em outras palavras, a única saída para a agressividade das telefonistas é trabalhar de forma mais veloz, fazendo o cliente desligar o mais rápido possível.

Constata-se então que é provocando a agressividade das telefonistas que a organização do trabalho consegue aumentar a sua produtividade. O sofrimento psíquico das trabalhadoras, longe de ser um epifenômeno, é o próprio instrumento para obtenção de trabalho. Pelas palavras de Dejours, “o trabalho não causa sofrimento, o sofrimento é que produz o trabalho”.58

A referida constatação é confirmada por Bégoin, autor citado por Dejours, quando afirma que “algumas das telefonistas chegam a ter rendimentos excepcionais, não por excesso de zelo, mas porque o trabalho – dizem – as enerva, e quanto mais nervosa ficam, mais rápido trabalham”.

57 Ibidem p. 97

58 Ibidem p. 103

O sofrimento das telefonistas resulta da organização do trabalho

“robotizante”, que expulsa os desejos e liberdades do sujeito no meio ambiente do trabalho. A frustração e agressividade resultantes dessa organização, assim como a tensão e o nervosismo são utilizados em prol da própria organização, a medida que aumentam o ritmo de trabalho e produtividade.

4.1.2 TRABALHO NA INDÚSTRIA PETROQUÍMICA

No cotidiano das indústrias petroquímicas, os trabalhadores são ignorantes em relação à totalidade dos processos de produção. A falta de conhecimento sobre o processo e seus incidentes é mantida pela direção em virtude da natureza do trabalho realizado e em função dos acidentes que devem ser evitados. Manter os trabalhadores em estado de ignorância é uma opção consciente da direção.

Entre os operários, embora não haja um saber contínuo, técnico e proveniente de capacitação profissional, o qual circula somente entre os engenheiros nos escritórios de projetos e nas matrizes, é constatado um saber próprio.

Os trabalhadores adquirem ao longo do tempo conhecimentos consideráveis sobre a empresa. Eles aprendem espontaneamente por hábito uma série de dicas e macetes necessários à realização de seu ofício. Trata-se de um saber pragmático e operatório dos trabalhadores, sem o qual a fábrica não opera. Não se trata, portanto, de um saber secundário e menosprezado.

Embora os macetes sejam de inegável utilidade à realização dos serviços, trata-se de um saber incompleto e pouco tranqüilizador, uma vez que é colocado em cheque por uma troca de posto de trabalho, pela instalação de novos equipamentos ou pela vinda de novos empregados, a título exemplificativo.

Os macetes e dicas funcionam. No entanto, conforme preceitua Dejours

“não representam nem uma profissão com seu know-how desenvolvido

completamente, como os artesãos, nem uma verdadeira formação ou uma formalidade de domínio completo sobre o trabalho”.59

A ignorância sobre a totalidade dos processos produtivos é uma opção perpetuada pela organização do trabalho e não sem motivos: o desconhecimento da completude das técnicas da produção gera sentimento de medo nos trabalhadores.

Sobre o tema, Dejours incita: “quanto mais a relação homem/trabalho está calcada na ignorância, mais o trabalhador tem medo”.60

O medo, por sua vez, é utilizado pela direção como uma alavanca para fazer trabalhar. Segundo o psiquiatra:

Efetivamente o medo serve à produtividade, pois com esse tipo de atmosfera de trabalho, os operários são especialmente sensíveis e atentos a qualquer anomalia, a qualquer incidente no desenvolvimento do processo de produção. Ficam atentos e ativos, de modo que em caso de quebra, vazamento ou qualquer outro incidente, intervêm imediatamente, mesmo se a ocorrência não for diretamente ligada as suas atribuições diretas.61

É fundamental a consideração de que em um ambiente permeado pelo medo, ocasionado pela ignorância e insegurança no trabalho, os empregados se mantêm mais atentos às situações de risco, fato que, por vezes, impede a ocorrência de acidentes no meio ambiente laboral.

Não obstante à atenção redobrada, o medo também é fundamental à elaboração dos macetes – conhecimentos práticos que permitem a fábrica funcionar.

Sobre o tema, discursa o autor francês:

[...] a rapidez de desenvolvimento destes “macetes”, isto é, a descoberta e a invenção de modos operatórios eficazes, sua articulação, sua colocação em prática e seu campo de extensão, testemunham, inegavelmente, a mobilização dos operários. Mobilização cujo motor principal é, evidentemente, o medo.62

59 Ibidem, p 105-6.

60 Ibidem, p. 107

61 Ibidem, p. 112.

62 Ibidem, p. 97

Ademais, o medo também preceitua a manutenção da ordem social na empresa, sendo um instrumento de controle social dos empregados. Os conflitos trabalhistas, quer sejam de ordem salarial, de melhoria de condições de trabalho ou de qualificação profissional, não ensejam a paralisação da produção.

As greves clássicas são raras nas indústrias petroquímicas, uma vez que a paralisação produtiva acarretaria, além de prejuízos financeiros à empresa, risco de acidentes em escalas gigantescas. Incita o psiquiatra que, utilizando do argumento de manter a segurança, a organização do trabalho torna a paralisação repentina impossível e as greves selvagens muito raras, de forma que a sabotagem reivindicatória de direitos fica definitivamente excluída.

Em conclusão, tem-se que a articulação entre a ignorância, o risco e o medo serve como instrumento de produtividade e controle social, representando uma forma completa e original de exploração que pressiona trabalhadores fazendo-os trabalhar.

Dejours consagra o sofrimento psicológico conferido aos trabalhadores por meio da organização do trabalho como sofrimento não reconhecido. A expressão ganha sentido pela constatação de que, pelas palavras de Dejours, “somente o sofrimento físico pode ser reconhecido pela organização do trabalho, enquanto que o sofrimento mental e, em particular, a ansiedade, não têm o direito de existir no local de trabalho”.63

Ou seja, o trabalhador que se recusa a retomar o trabalho, motivado pelo sofrimento e ansiedade, está sujeito à demissão sem justa causa e sem qualquer direito à indenização ou pensão pela Previdência Social. Somente uma doença mental caracterizada permitiria a aquisição de status de invalidez ao empregado.

O ponto mais insólito das considerações sobre sofrimento não reconhecido tecidas por Christophe Dejours diz respeito, a exemplo do caso das telefonistas e do trabalho na indústria petroquímica, à utilização das estratégias defensivas elaboradas pelos trabalhadores acometidos pelo sofrimento.

Em verdade, pela doutrina de Dejours, o sofrimento por si só não interessa à organização do trabalho. O ponto de exploração pelo capital organizado são os

63 Ibidem, p. 124.

mecanismos de defesa empregados contra esse sofrimento, os quais se tornam instrumentos de exploração e rendimento apropriados em benefício da organização laboral. Há, portanto, uma verdadeira dominação da vida psicológica dos trabalhadores pela organização do trabalho.

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