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SOFRIMENTO PARTILHADO COM IMPACTO TRAUMÁTICO

5 MAL DO SER E CRISE DE SENTIDO

5.12 SOFRIMENTO PARTILHADO COM IMPACTO TRAUMÁTICO

O eu sente-se motivado em acolher pelo traumatismo ético. “O um-para-o-outro redimensiona o conceito fenomenológico de motivação. Trata-se de significação que anima o sentir, o perceber, o valorar, etc.” (FABRI, 2008, p. 268). Pode-se dizer que ao acolher se “encontra na ética todo o socorro necessário” (KIERKEGAARD, 1947, p. 96). O traumatismo “desperta o eu da dormência” (SUSIN, 1984) de modo imediato e provisório para acolher ao outro. Não há egoísmo do eu que resista a esse impacto traumático, pois o potencial ético está presente até no mais radical egoísmo (ALTEZ-ALBELA, 2011).

Pela estranha lógica da integração do mal à consciência, haveria ética sem trauma? Haveria traumatismo ético sem o mal? Pode haver um sentido anárquico e até “messiânico” do mal. Susin relata que as tradições judaica e cristã, foram marcadas pelo messianismo. Ora teve caráter religioso, ora secular e mesmo anti-religioso, mas sempre algo “messiânico, ainda que metamorfoseado. Até o nazismo foi considerado por Heidegger com uma árurea messiânica, portador de um projeto, histórico, ao menos por um rápido tempo que logo levou Heidegger ao desencantamento (SUSIN, 2003). Assim, sustentamos a tese de que há um sentido anárquico, estranhamente “positivo” da participação provisória do mal para o despertar ético. Do mesmo modo em que há um sentido positivo no traumatismo psíquico, ao despertar para o traumatismo ético, podendo emergir como excesso que transborda a capacidade de contenção, que também é sofrimento, um mal.

Alguns pais se sacrificaram aos seus filhos por não suportar a dor da perda na tragédia. “Só um ser capaz de sacrifício é capaz de suicídio” (LEVINAS, 2008a, p. 142). Eis que emerge um traumatismo ético vivido a partir de um saber que se funda na sensibilidade, suspendendo de imediato o suposto saber em lidar com o outro, ao sentir a presença como puro sofrimento, sem usar nenhum critério formal para o suporte, uma escuta autêntica. O outro perturbou “a minha boa consciência [...] uma ordem nova manifesta-se através deste conflito” (LEVINAS, 1967, p. 251). 69

. Nessa direção, pode-se associar que o medo e a insegurança, que impede a liberdade (BAUMAN, 2011), seriam superados pelo impacto do trauma. Uma estranha coragem afeta uma comunidade que ficou completamente desordenada, e aos poucos, foi se reconstituindo, priorizando o cuidado ao outro em sofrimento, “tempo de

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Ao conduzir o outro [agricultor marcado pelo sofrimento e problema econômico] para a identificar seu filho morto na tragédia, perguntava: porque meu filho único? Porque tão jovem? Ricoeur em O mal na filosofia e

teologia, questionou o porquê de uma criança com câncer. São fenômenos que provocam no eu uma

desordem, aparentemente, sem inteligibilidade. A desordem é temporariamente má, depois se torna um bem, uma nova ordem. Mas a nova ordem não se renova sem a participação da desordem, mesmo não constituindo um bem em si mesma.

compaixão pelo outro [...] de suportar o peso do mundo sem livre escolha” (BERNASCONI, 1991). De imediato, o eu é voltado ao outro antes de si mesmo, pelo mal [impacto] da tragédia. Concede-lhe superioridade, esquece provisoriamente de si, dos projetos pessoais, da alimentação e da saúde. Um “sujeito que parte da alteridade, habita nela e morre por ela” (PELIZZOLI, 2008, p. 275), sendo capaz de morrer pelo outro, pela perda insuportável do filho na tragédia.

“Não é enquanto irracional ou absurda que a desordem perturba” (LEVINAS, 1967, p. 255). Há uma inteligibilidade no supostamente irracional, pois há um vestígio do infinito no desordenamento, também um mal. Seria a tragédia um bem? Diante do infinito, o que vem do outro é absolutamente estranho, uma ruptura no universo do eu pelo traumatismo ético. Um modo anárquico da imposição do bem, sem tempo para estima de si. Se o eu estima o outro a partir da estima de si, no sentido de Ricoeur, não há traumatismo ético, pois convém acolher a posteriori a partir de um estar bem consigo mesmo, numa relação de reciprocidade. É na emergência, que ocorre a relação assimétrica, como acolher o outro em ataque cardíaco, em que o médico esquece completamente de si, de seus projetos, pelo menos nesse momento, o outro está acima dele e lhe é concedido, involuntariamente, esse lugar. O médico cardiologista deverá se coloca em alguns instantes depois do suporte emergencial.

Mas na falta de estima70, impera o sentir de um impacto que torna o eu deposto ainda mais vulnerável e se dispõe para o outro, numa relação assimétrica, uma ética sacrificial, uma bondade patológica. “O sujeito levinasiano é um self traumatizado [...] um sujeito da melancolia. [...] Sem trauma, não haveria ética em Levinas no sentido particular da palavra” (CRITCHLEY, 2009, p. 194-195). O impacto do outro afeta a subjetividade e emerge uma relação melancólica. “Melancolia não é algo que devemos evitar a todo o custo, é parte da nossa condição” (ABEL, 2009, p. 10). É fictício o existir humano com sensibilidade ética, que emana da harmonia, sem trauma, sem tragédia, sem a presença do mal, como no paradigma ético tradicional. No paradigma ético anárquico, pelo trauma, o eu é jogado para fora do seu narcisismo de modo violento, evadindo em direção ao outro. É preciso traumatismo para garantir a hospitalidade.

70 Alguns profissionais que trabalham na saúde básica [Estratégia de saúde da família] se doam ao outro sem

respeitar seus limites, também como um modo de reconhecimento, um problema de auto estima. Há uma relação, uma bondade patológica ao outro que também é, estranhamente, ética. A diferença entre o agente de saúde e o médico cardiologista é que este último é movido pelo outro a partir do impacto psíquico ou ético que lhe causa no momento do ataque cardíaco. Ao passo que, o agente de saúde, é movido pelo traumatismo psíquico, como uma tentativa inconsciente em aplacar sua ansiedade, mas que beneficia de modo anárquico, o outro em sofrimento, de modo permanente, ou enquanto continuar um ser deposto, dominado pela miséria psíquica.

O outro se apresenta como enigma, “intervenção de um sentido que perturba o fenômeno, mas disposto a retirar-se como um estranho indesejável”. Após a superação do trauma a consciência tende a se pôr novamente, e espera pelo contexto ético-traumático. A redução do impacto traumático reconstrói a onipotência do eu. Muitos sofreram impacto da tragédia, mas poucos permanecem fiéis à sensibilidade ao outro. “Essa forma de o Outro buscar o meu reconhecimento, ao mesmo tempo que conserva seu incógnito [...] essa forma de se manifestar sem se manifestar, chamamos-lhe [...] enigma (LEVINAS, 1967, p. 254). O eu pode assumir a atitude ética radical em um tempo provisório, tendendo a se por de modo não voluntário a partir de demandas do psiquismo.