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4 MAL-ESTAR DOCENTE E SOFRIMENTO PSÍQUICO: PORTAS DE ENTRADA

4.2 Sofrimento psíquico no trabalho

Em geral, as pessoas dão uma importância enorme ao trabalho no conjunto de sua existência. Como afirmam Dejours, Dessors e Desriaux (19 93), ele não só garante a subsistência e o status social, mas também constitui a identidade do sujeito — para o adulto, ele é o meio principal de obter autoestima, valorização, respeito, poder e satisfação, seja pelo dinheiro (salário) ou pelo reconhecimento. Se a vida humana não se reduz ao trabalho, também não pode ser compreendida em sua ausência, que pode ser perigosa à saúde — ora, cabe pensar que a falta de trabalho angustia o desempregado e mesmo um recém-aposentado, pois gera um vazio, uma falta de sentido para a vida. Seja isoladamente ou numa equipe, com colegas ou clientes, em níveis hierárquicos idênticos ou distintos, os trabalhadores experimentam a solidariedade e o conflito, situações que podem se polarizar ou se mesclar ao cotidiano laboral deles.

Executado em condições favoráveis e por quem sente prazer ao fazê-lo (porque goza de boas relações interpessoais, de autonomia e controle sobre sua tarefa), o trabalho pode ser gratificante e saudável, pode ser fonte de realização, pode conduzir ao equilíbrio e ao fortalecimento da saúde — dizem Dejours, Dessors e Desriaux (1993). Em situações contrárias a essas, ainda segundo esses autores, ele não se traduz em sentido ou prazer na atividade realizada. Quando é marcado pelo individualismo, pela desconfiança e pela hostilidade, quando subjuga o trabalhador à organização autoritária, rígida e fragmentada, ao controle externo intenso e a pressões constantes, o trabalho pode gerar incômodo e constituir uma fonte de sofrimento cujos efeitos desestruturam o psiquismo do trabalhador, facilitando o adoecimento.

O trabalho pode ser portanto, fonte de realização e/ou sofrimento, mas raramente se situa em um só desses dois extremos; mais comum é ser atravessado alternadamente por componentes de um ou de outro. Noutros termos, o trabalho não só não é neutro na saúde do trabalhador, como também contraditório na vida das pessoas: pode afetar positivamente sua vida — ao proporcionar equilíbrio e realização pessoal — e afetá-las negativamente — ao criar condições para o desgaste psíquico e emocional e para o adoecimento. Daí seu caráter

ora patogênico — contribui para agravar sofrimentos e fragilizar a saúde; ora estruturante — ajuda a transformar o sofrimento em prazer, de modo que quem trabalha, em certas circunstâncias, preserva sua saúde mais do que quem não trabalha (DEJ O U R S, 2001).

Os agravos laborais ao corpo ou à mente se vinculam às condições nas quais se trabalha. Aqui, a análise destas permeia a relação entre saúde mental e trabalho para evidenciar a repercussão negativa que este pode ter na dimensão psíquica dos professores. Ela supõe desvendar uma questão que Dejours (1992) vê como crucial: como a maioria dos trabalhadores consegue preservar o equilíbrio psíquico e se manter na normalidade em situações de pressão advindas da execução do trabalho.

Leia-se equilíbrio como resultado da luta contra a doença mental, da “regulação” embasada em estratégias defensivas elaboradas pelo trabalhador. Leia-se normalidade como equilíbrio instável e precário — porque suscetível aos fatores desestabilizantes ou patogênicos do trabalho e às defesas psíquicas; como condição que não supõe ausência de sofrimento — porque é trespassada por este, a ponto de Dejours [1992] falar em “normalidade sofrente”; isto é, algo de anormal ocorre porque, mesmo que estejam normais quando trabalham, as pessoas experimentam, subjetivamente e em maior ou menor grau, algum tipo de sofrimento ligado à atividade laboral.

Assim, o sofrimento no trabalho exige atenção e investigação, porque pode provocar danos à saúde do trabalhador; não por acaso ocupa posição central nos estudos de Dejours (1992). Para esse autor, essa condição articula o sofrimento singular herdado da história psíquica de cada indivíduo (dimensão diacrônica) e o sofrimento atual surgido do reencontro do sujeito com a situação trabalhista (dimensão sincrônica). Portanto, a dimensão temporal atravessa inteiramente o sofrimento, porque este vai além do espaço e implica processos construídos não só dentro do lócus laboral, mas também fora.

Se o ser humano herda vontades e desejos de sua história psíquica — sua história pessoal —, então seria conveniente adequar, ajustar a lógica da vontade e do desejo à da organização do trabalho. Quando há desajuste ou ajuste em desequilíbrio, algumas organizações se tornam perigosas para o equilíbrio psíquico das pessoas. Na perspectiva de Dejours (1992), a organização do trabalho exerce uma ação específica sobre o homem: afeta seu aparelho psíquico. Quando essa organização garante mais liberdade, permitindo ao trabalhador concretizar suas aspirações, suas ideias e adaptar a atividade profissional a seus desejos, às necessidades de seu corpo e às variações de seu estado de espírito, o trabalho será fator de equilíbrio e fortalecedor da saúde; quando é rígida, atacando e destruindo o desejo dos trabalhadores sem deixar espaço para o livre funcionamento psíquico, como numa

atividade fragmentada, repetitiva, quase mecânica, então poderá se tornar fator de sofrimento favorável ao adoecimento. Assim, o atrito entre um indivíduo com uma história singular e a organização homogeneizante do trabalho produz o sofrimento psíquico.

Cabe dizer que os trabalhadores não aceitam esse sofrimento passivamente e sim constroem defesas para impedir o ataque à sua saúde e o adoecimento. Noutras palavras, “Se o sofrimento não se faz acompanhar de descompensação psicopatológica (ou seja, de uma ruptura do equilíbrio psíquico que se manifesta pela eclosão de uma doença mental), é porque contra ele o sujeito emprega defesas que lhe permitem controlá-lo” (DEJ O U R S, 2001, p. 35). Essa ótica prevê dois destinos para o sofrimento: beneficiar a saúde ou conduzir à morbidade. Com efeito, ao se defenderem do sofrimento, muitas pessoas buscam respostas efetivas para mudar as situações que incomodam; e tal busca supõe mobilizar recursos pessoais em prol de soluções criativas para minimizar ou superar adversidades, obter resultados positivos na execução das tarefas e tornar a prática profissional mais prazerosa e menos nociva. Outras pessoas, porém, reagem diversamente ao buscarem preservar sua saúde, isto é, procuram apenas se defender do ambiente que lhes agride, em vez de também buscar soluções para transformá-lo. Dejours (1996) se refere a esse estado como algo próximo de uma “anestesia psíquica”, enquanto Esteve (1999) o vê como mecanismo de inibição que permite cortar a autoimplicação com a tarefa realizada a qual conduz a um endurecimento afetivo e à indiferença ou falta de sensibilidade quanto aos problemas oriundos do trabalho. Com isso, eliminam-se as possíveis fontes de sofrimento.

A primeira situação corresponde ao sofrimento criativo; a segunda, ao patogênico — conforme a definição de Dejours (1996, p. 50):

Às vezes, em sua luta contra o sofrimento, o sujeito chega a elaborar soluções originais que [...] são em geral favoráveis simultaneamente à produção e à saúde: caracterizaremos então esse sofrimento denominando-o

sofrimento criativo. Ao contrário, nessa luta contra o sofrimento, o sujeito

pode chegar a soluções desfavoráveis à produção e desfavoráveis também à sua saúde. O sofrimento será então qualificado como sofrimento

patogênico.

Ambas as possibilidades correspondem à tentativa de viabilizar a relação entre trabalho e saúde, mas se diferem. No primeiro caso, as pessoas buscam enfrentar a situação incômoda pela transformação desta em situação mais favorável ao seu equilíbrio e bem-estar — o que pode ser tomado como estratégia de enfrentamento; no segundo, o intuito é poupá- las para não se desgastarem nem se desestruturarem física e psiquicamente, o objetivo é apenas defender-se contra o ambiente agressor, e não buscar soluções para transformá-lo — o que pode ser visto como estratégia de defesa (SA N TO S, 2004). Para Dejours (1992), não

se pode minimizar a função mascaradora dos sistemas defensivos contra o sofrimento, pois, se estes aliviam o sofrimento, também se voltam contra seus criadores graças ao seu poder de ocultar; ora, a luta contra o sofrimento será mais fácil caso se conheçam sua forma e seu conteúdo. Muitas vezes, o sofrimento é vivenciado, mas não reconhecido. Isto é: o corpo sente, mas a mente não reconhece.

A separação entre mente e corpo nesta pesquisa — feita por questões didáticas e semânticas — não ignora que uma e outro componham um todo indissociável na formação do ser humano, como o provam as doenças somáticas, fruto de conflitos não resolvidos mentalmente. Dejours (1992) ressalta que, se a atividade profissional pode gerar doenças somáticas e não só psíquicas, é porque o aparelho mental não está isolado da dimensão física, mas sim integrado ao funcionamento dos órgãos. Logo, a desestruturação desse aparelho repercute na saúde não só mental, mas também física. Essa peculiaridade faz da relação entre trabalho e saúde mental um assunto polêmico e complexo, objeto de preconceito, discriminação e negação no local de trabalho, pois, objetivamente, só o sofrimento físico tem reconhecimento; a visibilidade — e aceitação — do sofrimento mental depende de sua evolução para uma doença mental caracterizável. Se não há reconhecimento público do sofrimento mental, então resta ao trabalhador buscar uma saída individual entre duas soluções possíveis, diz Dejours (1992): largar o trabalho, trocar de posto ou mudar de empresa (fórmulas encobertas pela rotatividade) ou abraçar o absenteísmo; isto é, sem estar propriamente doente, procurar um médico para atestar tal condição e receitar medicamentos, o que culmina num processo de medicalização que disfarça o sofrimento mental e o desqualifica, ao mesmo tempo em que desloca o conflito entre homem e trabalho para um terreno mais neutro: o do adoecimento.

A invisibilidade do sofrimento psíquico vinculado ao trabalho pode ter origem, ainda, em valores impostos pela cultura do contentamento, marcante nas empresas hoje e que preconiza a satisfação, a excelência e a saúde perfeita. É como se, em tal cultura, adoecer fosse um sinal inadmissível de fraqueza e se a não participação nesse clima fosse vista como inadequada ou indesejável pela equipe de trabalho e pela estrutura hierárquica. Essa cultura exerce uma pressão invisível e poderosa sobre os indivíduos, induzindo ao presenteísmo, diga-se, à evitação ou protelamento da busca de ajuda médica ou psicológica (SE LI GM A N N- SI LV A, 2009). Essa possibilidade de origem do sofrimento mostra que as relações de trabalho com a vida psíquica têm muito a ser exploradas e que urge interpretá-las segundo a ótica dos sentimentos experimentados pelos trabalhadores e fora dos sistemas defensivos pelos quais estes escondem seu sofrer de si mesmo e do outro, interpelados pelas

contingências do mundo do trabalho contemporâneo em que — diz Bouyer (2010, p. 259) — “as alegrias devem ser públicas e o sofrimento deve ser velado e ocultado”.

Se essas observações finais sobre a relação entre trabalho e saúde revelam enfraquecimento dos vínculos do professor com o campo educacional, isto é, se o pintam como trabalhador igual aos outros, é porque as ideias centrais que embasam esta discussão — as de Dejours — não abordam o docente especificamente, mas sim operários, telefonistas, pilotos de avião etc.; também porque se acredita que a docência se assemelha às demais profissões, mesmo que se distinga por causa de sua natureza e sua condição de “atividade interativa”, cuja ação — como diriam Tardif e Lessard — tem seres humanos como “objeto”.

A organização do trabalho mostrou ser um elemento-chave na análise deste estudo porque tem vínculos fortes com a saúde do trabalhador. (Aqui, o professor). Pelo menos é o que parecem apontar os estudos que permeiam esse campo apresentados e citados aqui. Reafirmar esses apontamentos pressupõe duas coisas. Uma: entender tal organização — divisão do trabalho, conteúdo da tarefa, sistema hierárquico, modalidades de comando, relações de poder etc. — à luz da psicopatologia e psicodinâmica do trabalho, conforme a concebem Dejours e sua equipe: correia de transmissão de uma vontade externa que, em geral, se opõe à vontade e ao desejo dos trabalhadores, impondo-lhes, muitas vezes, diferentes tipos de sofrimento psíquico. Outra: ver a saúde humana como instável, não estática, porque se associa a um organismo vivo que se movimenta perpetuamente, oscilando entre o desequilíbrio e o retorno ao equilíbrio graças a dispositivos de regulação. Como tal, a saúde é algo processual: mutável, imprevisível até. Assim, associa-se a organização do trabalho docente e os agentes agressores que ela comporta aos efeitos causados sobre a saúde dos professores, evidenciando-se os mecanismos que estes erguem contra os riscos, as adversidades e as nocividades que o meio laboral impõe. Eis, então, o fio condutor da próxima seção: estratégias de defesa e de enfrentamento adotadas para proteger das pressões advindas do trabalho docente.