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Mendes et al. (2011) esclarecem que o trabalho pode ser fonte de prazer mas também gerador de sofrimento, sendo que este último pode atuar positivamente na mobilização da busca pelo prazer, ao permitir mutações e a busca da estruturação psíquica no trabalho, gerando portanto implicações benéficas para a organização (MENDES, 1999).

Mendes et al. (2003) definem sofrimento como sendo

uma vivência individual ou coletiva, frequente e permanente, muitas vezes inconsciente, de experiências dolorosas como angústia, medo e insegurança provenientes do conflito entre as necessidades de gratificação do binômio corpo-mente e a restrição de satisfazê-las, pelas imposições das situações de trabalho (MENDESet al., 2003, p. 60).

Nesse sentido, Mendes (1995) salienta que o sofrimento é caracterizado por sensações desagradáveis provenientes da não satisfação de necessidades. Para Dejours (1994), estas necessidades são de origem inconsciente e estão ligadas aos anseios mais íntimos das pessoas, desvelados constantemente ao consciente em formato de planos e perspectivas de vida.

O ato de sofrer pode levar a pessoa ao adoecimento, desestabilizando a sua saúde psíquica e física. Algumas vezes, o indivíduo tem um espaço de liberdade negociado dentro da organização, o que possibilita partir da organização prescrita para a organização real do trabalho. Se essa negociação é forçada até o seu último

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limite, o laço estabelecido entre o indivíduo e a organização do trabalho é bloqueado. Dessa forma, iniciam-se o sofrimento e o seu enfrentamento, que comumente se conectam ao adoecimento. Dejours (1992) considera que os sintomas físicos são espelhados em questões emocionais. Diante desse contexto, Dejours e Jayet (2011) corroboram que se a organização do trabalho não permite ao homem satisfazer necessidades, tanto físicas quanto psíquicas, pode transformar-se em sofrimento e culminar em patologias.

Brant e Minayo-Gomes (2004) revelam que esse sofrimento não se manifesta de forma única para todos os trabalhadores, mesmo quando submetidos às mesmas condições ambientais adversas, ou seja, o que é sofrimento para um, pode não ser para outros, ou, ainda, o que faz alguém sofrer no trabalho, pode ser fonte de prazer para outro e vice-versa. Isto porque cada pessoa tem a sua história de vida, seus antecedentes, sua cultura; enfim, a sua subjetividade, que se manifesta em suas relações sociais no trabalho.

Dejours (1999) relaciona o sofrimento no trabalho a situações negativas, como aflição, medo, desconforto e instabilidade, oriundas do embate e de paradoxos advindos do contraste entre os sonhos do trabalhador e as especificidades de um dado contexto produtivo. Esse sofrimento mobiliza o indivíduo na luta por melhores condições de saúde. Para Mendes (1996), o sofrimento do indivíduo inicia-se quando não há um equilíbrio entre os seus anseios individuais e as diretrizes organizacionais, não restando oportunidade para intensificar a capacidade do trabalhador. Quando o trabalho é sadio e enriquecedor, este oferece ao profissional a chance de atenuar a sua ansiedade e de canalizar sua energia pulsional1. Quando

esse processo não ocorre, a tensão se permuta em padecimento (DEJOURS et al., 2011).

No antagonismo que existe entre os desejos do trabalhador e os objetivos organizacionais, Dejours (2008) discorre sobre trabalho prescrito e trabalho real, argumentando que o ato de trabalhar completa a lacuna entre o determinado e o

1 Segundo Freud (1996), pulsão é um conceito que se encontra no limite entre o mental e o físico, configurada na representação psíquica dos estímulos originados no interior do organismo que alcança a mente e exige que esta trabalhe em consequência de sua ligação com o corpo.

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efetivo. O autor explica que, para o trabalhador, o real se contrapõe ao domínio, impulsionando-o a refletir e atuar de maneira distinta do que foi ditado pela organização. Nesse caso, há uma resistência aos métodos do saber fazer. No contexto de trabalho, cada circunstância conduz à formulação de novos regramentos. Assim sendo, emergem novas prescrições, configuradas em leis, normas e diretrizes, que, no decorrer do tempo, se dissipam e perdem o foco de rearranjar o trabalho, acarretando a incapacidade de realização das atividades.

Dejours (2011) elenca os principais temores que assombram o indivíduo no trabalho e concorrem para o seu sofrimento, dentre os quais estão o medo de demissão, agressões advindas de usuários, líderes autoritários, acidentes no trabalho, constrangimentos relacionados ao tempo e sofrimento devido a repetições contínuas de tarefas.

Lourenço et al. (2013) argumentam que o trabalho pode ser analisado sob o prisma negativo, estando vinculado ao sofrimento, o que traz insatisfação e tristeza para os trabalhadores. Na concepção desses autores, há uma maior significância e manifestação dessa temática em uma era em que o mercado de trabalho passa por um período de reestruturação, falta de empregos, condições de trabalho fragilizadas, salários diminuídos, empregos provisórios, terceirização e outras condições presentes no cotidiano dos trabalhadores, que precisam manter sua empregabilidade, em detrimento às vezes da própria saúde e independência.

Mendes (1999, 2004) adiciona a inflexibilidade hierárquica, impossibilitando a ascensão na carreira, burocratização nos procedimentos, centralidade das informações, falta de autonomia e de participação nas decisões em que não há espaço para a liberdade de expressão e de pensamentos, a divisão e a padronização das atividades, impossibilitando a manifestação da criatividade e ideias do trabalhador; a ausência de valorização profissional em que o trabalhador não é reconhecido pelo trabalho que executa e o descrédito/desesperança acerca do crescimento profissional, diminuindo a sua motivação em relação ao trabalho. Estas questões acionam transtornos mentais e psicossomáticos, que começam a refletir no trabalho, causando desgaste, cansaço e descontentamento, uma vez não resta espaço para a negociação entre o indivíduo e a organização.

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O sofrimento no trabalho é percebido como uma vivência profunda e duradoura. Em grande parte das ocasiões, são imperceptíveis as experiências dolorosas, como medo, ansiedade e insegurança, provenientes dos choques impostos pela necessidade que o sujeito tem de se sentir gratificado e das diversas contradições e dificuldades existentes no ambiente laboral. A estrutura organizacional, como fator fundamental de produção de bens e serviços, quando se apresenta negativa, impõe ao trabalhador o estado de mal-estar que fomenta o sofrimento (FERREIRA; MENDES, 2003).

Dejours (1992) aponta que o sofrimento tem sua gênese quando o indivíduo não tem autonomia sobre a sua atividade para alterá-la em algo que o agrade e o favoreça financeiramente, visto que, ao concretizar essa mutação, ele é capaz de preencher as suas aspirações psicológicas. “O trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico quando ele se opõe à sua livre atividade” (DEJOURS, 2011, p. 24).

Já Fieldler e Venturoli (2002) apontam a sobrecarga de trabalho além da capacidade física do indivíduo como uma forma de condução ao sofrimento, o que acaba gerando danos físicos e psíquicos, como o cansaço, que contribuem para a diminuição do ritmo de trabalho e consequente queda na produção, além de sujeitar o trabalhador a erros, acidentes de trabalho, bem como ao adoecimento. Essa sobrecarga também afasta os anseios pessoais, induzindo o sujeito a incorporar as metas organizacionais, quase sempre excessivas, o que eleva o sofrimento e impõe barreiras para a mudança, tornando o trabalhador mais susceptível a doenças (MENDES, 2007).

Silva (2011) correlaciona a sobrecarga emocional ou física ao estresse, uma vez que esse fator se configura em um enfrentamento do organismo frente a ameaças à vida e ao equilíbrio interno do sujeito, ou seja, é uma reação biológica de sobrevivência. Para Spindola e Martins (2007), o estresse é percebido como um distúrbio emocional que acarreta desequilíbrio da saúde mental, ocasionando irritação, mau humor e incapacidade para o trabalho. Alguns sintomas psicológicos e físicos se destacam como tensão emocional, falha da memória, esgotamento físico e mental, excesso de dúvidas, dores de cabeça e musculares, insônia, alergias, falta

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de apetite, queda de cabelo, entre outras alterações que podem colocar em risco não só a motivação, mas também o desempenho, a produtividade, a autoestima e, principalmente, a saúde dos trabalhadores (GREENBERG, 2002; LIPP, 2005).

Na mesma direção, Pitta (1994) institui uma interação entre organização do trabalho, carga mental e sofrimento psíquico, alegando que o desenvolvimento das tecnologias para uma diversidade de trabalhos tem se revestido de componentes cognitivos complexos e sobrecargas mentais nos profissionais. A autora garante que a organização do trabalho atua na gênese do sofrimento psíquico por meio de alguns fatores perceptíveis, como jornadas extensivas de trabalho, ritmos acelerados de produção, pressão constante e arbitrária proveniente de uma hierarquia inflexível e vertical, ausência de pausas para repouso durante as jornadas de trabalho, alienação do trabalho e do sujeito trabalhador, desintegração das atividades, desmerecimento do trabalho realizado e, consequentemente, daquele que o executa.

No intuito de se prevenir contra os efeitos nocivos do sofrimento vivenciados no contexto de trabalho que causam danos pessoais e impactam o meio organizacional, Mendes (2007) afirma que os trabalhadores buscam instituir mecanismos de modo individual ou em conjunto. Essa matéria é abordada a seguir.