3.4 Modelo norte-americano
3.4.2 O soft money e os PACs
A despeito dos parâmetros estabelecidos em Buckley v. Valeo, não tardaram a surgir
artifícios por meio dos quais os limites para as contribuições diretas poderiam ser virtualmente
burlados. Ainda na década de 1970, teve início o uso intensivo do chamado soft money.
Antes de mais nada, é preciso compreender que a decisão em Buckley v. Valeo, as
alterações subsequentes ao Feca315, bem como alguns pareceres consultivos (advisory
313
A propósito das discussões sobre a garantia da livre manifestação do pensamento e das ideias, Monica Herman
Salem Caggiano destaca o já mencionado caso Buckley vs. Valeo, cuja decisão da Suprema Corte estadunidense
assevera que “O candidato, não menos que as demais pessoas, encontra-se amparado pelo preceito do 1
oAditamento Constitucional, tendo o direito de participar das discussões acerca dos problemas públicos e advogar,
tenaz e incansavelmente, sua eleição” (CAGGIANO, Monica Herman Salem. Finanças partidárias, p. 120).
314
Eis a passagem na decisão: “as normas de divulgação [...] servem aos interesses governamentais substanciais
em informar o eleitorado e prevenir a corrupção do processo político”. Tradução livre do seguinte original:
“disclosure provisions [...] serve substantial governmental interests in informing the electorate and preventing the
corruption of the political process” (LEGAL INFORMATION INSTITUTE. Buckley v. Valeo, 424 U.S. 1
(1976). Disponível em: <http://www.law.cornell.edu/supct/html/historics/USSC_CR_0424_ 0001_ZS.html>.
Acesso em: 15 mar. 2015).
315
Conforme Luca Stroppiana, uma vez firmado o precedente, em 1976 houve emenda ao FECA para adaptar
suas disposições à decisão, especialmente a retirada da regra que limitava as despesas (exceto aquelas coligadas
ao financiamento público de campanha presidencial). As alterações de 1976 também introduziram um limite das
contribuições individuais para os partidos nacionais (vinte mil dólares por ano) e as contribuições individuais em
opinions) da Comissão Eleitoral Federal (Federal Election Commission – FEC), delinearam o
sistema de financiamento de campanha até a aprovação da reforma de 2002. Esse sistema
baseou-se na distinção entre as contribuições chamadas hard money e a publicidade express
advocacy, de um lado, e as contribuições denominadas soft money e publicidade issue
advocacy, de outro: as primeiras, operando de acordo com os limites e obrigações do Feca, ao
passo que as segundas escapavam da regulação federal.
Como não havia na legislação norte-americana limites para as doações particulares a
partidos políticos, todo dinheiro de doações diretas a candidatos que extrapolasse o limite legal
passava a ser destinado aos partidos316. O soft money, por sua vez, poderia ser utilizado sem
nenhuma limitação legal.
Esse dinheiro seria utilizado pelos partidos em atividades de filiação e, principalmente,
em issue advertisement, isto é, anúncios pagos nos meios de comunicação defendendo
bandeiras de certos candidatos ou criticando propostas dos adversários. Desde que não fossem
utilizadas expressões como vote for, ou don’t vote for, era perfeitamente possível a menção ao
nome dos candidatos nesses anúncios317.
Além disso, a despeito da vedação desses fundos para apoiar ou atacar candidatos, os
partidos utilizavam o soft money para patrocinar anúncios pagos que retratavam seus
candidatos de forma mais favorável do que os seus adversários. Os próprios sindicatos e
empresas, em regra, financiavam anúncios ostensivamente para influenciar a legislação,
camuflando, todavia, o claro propósito de influenciar a eleição318.
favor do PAC (cinco mil dólares por ano), junto com outras regras mais restritivas sobre o último. Destaquem-se
as disposições para limitar o âmbito da captação de recursos dos PACs de empresas e sindicatos, determinando
um único limite de contribuição para todos os PACs estabelecidos pelo mesmo sindicato ou empresa
(STROPPIANA, Luca. Il finanziamento dei partiti politici e delle campagne elettorali: modelli a confronto,
p. 294).
316
Veja-se que, em 1996, os partidos experimentaram expressivo aumento na sua atividade financeira, em grande
medida decorrente da arrecadação fora dos limites de proibição previstos em lei por meio do soft money. Os
números obtidos do relatório da Federal Election Commission demonstram a evolução dessa forma de
arrecadação: “Em comparação à corrida presidencial de 1992, as receitas dos comitês nacionais republicanos com
‘soft money’ mais que duplicaram, e as receitas dos comitês nacionais democratas triplicaram, ultrapassando o
total de suas receitas federais para o ciclo.”. Tradução livre do seguinte original: “Compared to the 1992
Presidential cycle, the Republican national committees’ soft money receipts more than doubled and the
Democratic national committees’ soft money receipts tripled, exceeding their total federal receipts for the cycle.”
(THE FEDERAL ELECTION COMMISSION. Trinty year report, p. 7. Disponível em:
<http://www.fec.gov/info/publications/ 30year.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2015).
317
MACHADO, Marcelo Passamani. O financiamento das campanhas eleitorais: perspectivas para uma reforma
política. In: LEMBO, Cláudio; CAGGIANO, Monica Herman Salem (Coords.). O voto nas Américas, p. 211.
As situações apontadas equivaliam, na prática, à total ausência de limites para
contribuições privadas. E a prática potencializava a corrupção, o que certamente continuou
preocupando estudiosos e políticos, pois, “Os partidos frequentemente pediam aos candidatos
federais e titulares de cargos que ajudassem a captar grandes doações, oferecendo aos
doadores acesso aos atuais e aos futuros legisladores federais e despertando
preocupações acerca de corrupção latente ou do aparecimento de corrupção”319.
No ano de 2002, foi aprovada a Lei de Reforma à Campanha Bipartidária (Bipartisan
Campaign Reform Act – BCRA), em uma nova tentativa de regular a arrecadação e dispêndio
de recursos. A nova legislação vedou o recolhimento de soft money pelos partidos perante as
pessoas físicas, associações e empresas. Com relação aos anúncios pagos, o BCRA proibiu
empresas e sindicatos de financiarem a transmissão de anúncio relativo a candidato federal
considerando a proximidade da respectiva eleição – por exemplo, no prazo de 30 dias antes
das primárias e de 60 dias antes da eleição geral.
O uso de soft money, todavia, continuou sendo uma realidade difícil de se ignorar –
tanto que os especialistas norte-americanos ainda discutem possíveis reformas capazes de
instituírem um efetivo controle sobre o financiamento das campanhas eleitorais.
Aliás, era esperado que o soft money não deixasse completamente a cena do
financiamento da política. Os juízes Stevens e O’Connors da Suprema Corte se opuseram à
decisão da maioria que confirmara todos os pilares da reforma de 2002, afirmando que não
tinham a ilusão de que o BCRA seria a última declaração do Congresso sobre o assunto320. Por
fim, ponderaram afirmando que “o dinheiro, como a água, sempre encontrará uma saída”321.
E a assertiva se confirmou. Proibido por lei aos partidos nacionais, o soft money
encontrou um novo canal e ressurgiu na forma de doações para associações externas, terceiros
e grupos independentes, engajados na atividade político-eleitoral para eleger ou derrotar um
candidato ou, de qualquer forma, para influenciar o voto. Essas organizações, formadas por
319
Tradução livre do seguinte original: “The parties frequently asked federal candidates and officeholders to help
raise large soft money donations, offering donors access to current and future federal legislators and raising
concerns about potential corruption or the appearance of corruption” (THE FEDERAL ELECTION
COMMISSION. Trinty year report, p. 7. Disponível em: <http://www.fec.gov/info/publications/ 30year.pdf>.
Acesso em: 15 mar. 2015).
320
A disposição da lei foi confirmada pela Suprema Corte (UNITED STATES OF AMERICA. Supreme Court.
McConnell v. FEC, 540 U.S. at 93 (2003). Disponível em:
<https://www.law.cornell.edu/supct/html/02-1674.ZS.html>. Acesso em: 15 nov. 2015).
321
Tradução livre do seguinte original: “money, like water, will always find an outlet” (STOREY, William. US
government and politics. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2007. p. 146).
civis supostamente preocupados com algum tema específico, não advogam de modo explícito
a eleição de determinado candidato, nem estão sujeitos à regulamentação e fiscalização da
FEC, como ocorre com os partidos políticos.
Portanto, mesmo após o BCRA, o soft money passou a ser utilizado pelos PACs322.
No documento
O financiamento da política no Brasil: as pessoas jurídicas e sua participação
(páginas 127-130)