6. Um fantasma nativo sob a capa modernizadora
6.1 Soft power como dádiva no carimbó eletrificado
Neste subtópico vou abordar a questão do ―carimbó eletrificado‖. Minha pesquisa sobre as guitarradas e a formação da indústria fonográfica no Pará me levou a impressões nítidas sobre a manifestação da dádiva nessa transição tão importante da música paraense; transição de uma dinâmica tradicional, dos terreiros onde o carimbó floresceu (GABBAY, 2013), para o seu plano urbano e midiático.
Minha hipótese é que a música ―pop‖ paraense e todo o conjunto de estratégias que se formam em torno dela, da sua afirmação no contexto nacional, mostram reflexos da prática da dádiva metamorfoseada pela pressão da modernidade que promove a inclusão dessa cultura em uma dinâmica capitalista. De fato, essa não é uma grande revelação: a prática da dádiva está presente na dinâmica capitalista. Tão importante quanto, do ponto de vista do registro histórico, é a configuração dessa dinâmica subterrânea. E a identificação do que seria o hau, que, por ser o espírito da dádiva que circula, não temos como atingi-lo em sua essência. Apenas podemos tentar intuí-lo.
É aí que entra uma ideia de soft power como manifestação de dádiva. Isto é, uma espécie de regulador ―jurídico‖ da dimensão não compartimentada, não ―economizada‖ das trocas entre esferas produtoras de cultura, uma relação global como indica o estudo de Martel (2012). Proponho seguir esmiuçando a ideia, investigando as apropriações do significado de um soft power.
No seminário dos Fóruns Setoriais de Cultura, em que participei como delegado setorial de música, nos dias 15 e 16 de dezembro de 2012, em Brasília, a ministra da cultura, Marta Suplicy, em seu discurso de abertura, expôs qual seria a marca da sua gestão e como a política pública brasileira pretendia dinamizar o setor, indo além daquilo que até então havia sido promovido com as mudanças feitas por Gilberto Gil e os ministros que o seguiram na pasta. Suplicy justificou o investimento de recursos públicos na construção de centros de cultura brasileira em países da Europa como uma estratégia de ―soft power‖.
O conceito demonstrado por Martel (2012) que utilizo neste trabalho poderia ser, superficialmente e de maneira grosseira, entendido como estratégias de ―marketing cultural‖ para a afirmação de uma cultura nacional junto ao contexto global. O conceito utilizado para marcar a gestão de Barack Obama na presidência dos EUA representa de fato uma intenção declarada de socializar, de estabelecer trocas entre aquele país e os demais países do mundo, no âmbito do entretenimento e da cultura. Mesmo que seja uma intenção dissimulada, ela é declarada, o que por si só já encontra eco na conceituação de dádiva de Mauss. O jogo social
globalizado, mediado e midiatizado, impõe a coerência cênica com as afirmações e declarações.
Martel não afirma textualmente em sua pesquisa, amplamente centrada na descrição de processos globais de gerenciamento do que ele chama de indústrias criativas nacionais, mas posso sugerir que a disposição de colaboração dos EUA com outros países, inclusive, entre os países colonizados, como o Brasil, no cinema e em outras áreas do entretenimento, demonstra, mesmo que de forma dissimulada, uma ordem de troca, uma potência de disposição à socialização internacional centrada em uma lógica diferente da lógica imperialista vigente até então.
É complexo e crítico afirma uma intenção pacífica. Mas como é complexo tamném o conceito de ―dádiva‖ em sua profundidade. No entanto, é fácil reconhecer a intencionalidade declarada quando recorremos ao pai do conceito de soft power, o estadunidense Joseph Nye Jr. (2002). Para ele,
O caráter aberto e pluralista da nossa política externa [dos EUA] geralmente reduz as surpresas e permite que outros tenham voz, o que contribui para o nosso poder brando [soft power]. Ademais, o impacto da preponderância dos Estados Unidos fica suavizado à medida que ela se incorpora a uma rede de instituições multilateralistas que permite aos outros participar das decisões e que funciona como uma espécie de Constituição mundial capaz de limitar os caprichos do poder americano. Foi esta a lição que nos deu a luta para criar uma aliança antiterrorista na esteira dos ataques do dia 11 de setembro de 2001. Se a sociedade e a cultura da nação hegemônica forem atraentes, ficam enfraquecidas a sensação de ameaça e a necessidade de equilibrá-la. (NYE, 2002: p. 49)
Só é possível exercitar o poder brando, portanto, quando o agente tem poder suficiente. Ou seja, é possível controlar o fluxo de poder de tal forma que ele possa equilibrar o contexto social; no caso de Nye, para evitar a guerra e promover a paz que garante o equilíbrio e mantém o conforto da nação hegemônica. Ao jogo de recursos utilizados nessa guerra sutil e quase invisível, incluindo os de hard power, Nye chama de smart power. Esse ―poder inteligente‖ pode ser pensando também em esferas de poder menores, como numa esfera nacional de poder em que o referido ―centro dinâmico‖, o ―eixo‖, se torna a referência intersubjetiva de poder hegemônico.
Assim, a ministra, que é paulista, pode ser capaz de pensar o soft power brasileiro a partir de sua visão política sobre uma cultura exterior. Esse soft power brasileiro acaba por inverter as lógicas de persuasão e atração, desvirtuando o próprio sentido hegemônico de centro e margem em relação à cultura. Da mesma forma, considerando que o poder pode ser
algo que não a força militar ou qualquer força extrema que se considere, qualquer periferia ganha poder na intersubjetividade da diplomacia de convivência social em escala global.
Essa é uma sugestão arriscada, sem dúvida. No entanto, gostaria de deixar registrada essa hipótese, pois ela advém de uma reflexão de amostras de pensadores contemporâneos e que se inserem em um contexto global.
Se pensarmos que, mesmo na relação da solidariedade de base, existe uma desigualdade de forças que regula a dinâmica social sensível, podemos pensar primária e essencialmente que um soft power é uma ―força leve‖ aplicada numa dinâmica global onde os imperialistas norte-americanos mudam de postura por (re)posicionamento histórico, eles que sempre utilizaram o hard power, isto é, o poderio militar em primeiro lugar, juntamente a uma política externa agressiva.
Se considerarmos um suposto ―afrouxamento‖, mesmo que dissimule uma razão instrumentalizada, dos dominadores nas suas relações de força com os demais países, ou pelo menos com parte deles, teremos uma relação ―cênica‖, um teatro global de ―cortesia‖ e ―obrigatoriedade‖ diante das emergências do conhecimento e da ampliação do espectro da informação e da comunicação. Esse teatro pode servir também à dinâmica de colonização interna.
Em suas ―notas sobre um debate‖ da globalização, Ortiz (2009) afirma que a literatura de administração e marketing empresarial contemporâneas é ―uma literatura cínica e
sugestiva. Cínica, pois fundada exclusivamente na ganância material; sugestiva enquanto reveladora das contradições emergentes (Ortiz, 2009. p. 241)‖. O autor demonstra uma desilusão moral para com a literatura do capitalismo contemporâneo. Observe:
O desafio é apreender tal ―universalidade‖, instigar o consumo e promover a circulação desses bens. Pode-se dizer deste tipo de literatura o que Adorno dizia da industria cultural: ela nada esconde, revela inteiramente seu intuito. O que nos conduz à pergunta, como considerá-la? Estaríamos diante de uma mera ideologia? Uma corrente de pensamento orientada à esquerda, acreditava que sim. Este foi um mal-entendido que acompanhou o debate durante toda a década de 1990, sobretudo na América Latina, momento no qual a política neo-liberal predominou em diversos países. (Ibidem. p. 240).
O mea culpa de Ortiz nos dá a orientação do que proponho aqui. Não uma definição, mas uma reflexão sobre os conceitos, as intenções e as possibilidades diante do mundo dessas ferramentas que se apresentam teoricamente.
Soft power pode ser entendido como algo além de um ―produto de marketing‖, como uma dinâmica estruturada de estratégias e táticas que se empenham em afirmar uma cultura, ou práticas culturais, em jogos de poder e de troca. Se é dissimulada de um lado pode servir
ao jogo do outro lado, e faz parte da vida no mundo, assim como o mundo da vida. Torna-se uma injunção do convívio social globalizado.
Se o Brasil pode se utilizar de uma força branda de afirmação, essa força estabelecerá compromissos éticos de retribuição, assim como na dádiva. Da mesma forma, a relação interna, entre nativos colonizados e o centro dinâmico, pode estabelecer dinâmicas de trocas diante de regras não declaradas, através de uma força branda, que força o dominador a reconsiderar o olhar sobre a periferia discriminada, explorada, espoliada.
Mauss ressalta a importância dos chefes, dos caciques na dádiva, e mostra que a obrigatoriedade é dada a qualquer um seja qual for a posição dele no sistema societal. Como observa Lanna,
a Antropologia maussiana diferencia-se da dos economistas liberais à medida que, no primeiro caso, ―não são indivíduos mas coletividades que se obrigam mutuamente, trocam e contratam‖ (MAUSS, 2003: p. 190). Ou, por outra, as pessoas que trocam são ―pessoas morais‖, não indivíduos. Nessas trocas, os grupos podem ser representados por seus chefes (idem), mas apenas no capitalismo de mercado a troca é, antes de mais nada, entre indivíduos, pois esses são as pessoas morais no sistema. (LANNA, 2000: p. 179)
Dessa forma, o soft power como demonstração de vontade política do chefe da maior potência econômica mundial, pode significar uma intencionalidade em busca de uma economia menos impositiva. No sentido contrário, do ―dominado‖ para os ―dominantes‖, o Brasil, ao investir recursos na construção de centros de cultura brasileira na Europa, usa sua força leve para, quem sabe, esperar retribuição em forma de colaboração internacional.