Capítulo 3 – Avaliação do Ciclo de Vida do produto e o design
3.1. Contextos e definições
3.1.3. Softwares e bancos de dados internacionais
Alguns países da Europa, dentre outros como o Japão, têm organizado os chamados “bancos de dados” 48, onde fica armazenada uma série de informações necessárias para o desenvolvimento do inventário do ciclo de vida (etapa mais complexa e demorada da ACV), facilitando o encontro de dados pertinentes e adaptáveis (visto que os impactos têm caráter local e regional) para avaliar o sistema de produto. Um exemplo disso é que no ciclo de vida de diversos produtos manufaturados estão inclusos outros ciclos de elementos comuns, como chumbo, ferro e cobre. A principal vantagem dos esforços em prol da constituição de um banco de dados universais (mundiais) e também específicos, definidos de acordo com fatores geográficos, sociais e econômicos, é a garantia do reconhecimento de elementos referenciais legítimos e confiáveis, obtendo economia de tempo.
A Alemanha é um dos países pioneiros em bancos de dados para o ICV. Em 1989, criou o “Modelo de Emissão Global para Sistemas Integrados” (GEMIS), que fornece informações sobre energia, materiais e transporte (GEMIS, 2011). Foram desenvolvidos no país dois softwares de ACV: Umberto e Gabi, ambos para análise dos fluxos de materiais e de energia presentes no ciclo de vida do produto.
No Brasil, ainda não há investimentos significativos neste setor, mas os padrões internacionais têm sido adaptados às matérias-primas e aos recursos nacionais. Considerando que as matrizes energéticas e as condições naturais da cada região são particulares, o resultado das adaptações de um país para o outro nem sempre representa fielmente as condições locais, neste caso, brasileiras. Como pôde ser observado ao longo deste trabalho e conforme será discutido no item 3.2.2, essa realidade tem um forte potencial de mudança nos próximos anos, a partir das regulamentações da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que devem ampliar a demanda por estudos de impacto ambiental e, por consequência, as possibilidades de construção de um banco de dados nacional.
48 Dentre os principais bancos de dados internacionais, pode-se citar o Ecoinvent (com dados de
abrangência mundial e dados específicos para a Europa e a Suíça); o Franklin US LCI (Estados Unidos); o SPINE@CPM (mundial); e o EDIP (Dinamarca).
CAPÍTULO 3 | AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA DO PRODUTO E O DESIGN
Dentre os softwares mais utilizados para os estudos de ACV49, considera-se nesta pesquisa a utilização do SimaPro (Figura 15), já difundido entre engenheiros e técnicos brasileiros. Este software incorpora a base de dados ou biblioteca Ecoinvent para contabilizar os impactos ambientais, porém não deve ser a única fonte de informação. A grande desvantagem de trabalhar apenas com o software e não considerar, em paralelo, o detalhamento das etapas da ACV (como descrito no subcapítulo 3.1) é a difícil compreensão do sistema de produto, visto que nem sempre se têm clareza dos resultados, automaticamente gerados.
Figura 15 – Primeira etapa da modelagem da ACV no software SimaPro, referente ao objetivo e âmbito do estudo. Fonte: imagem capturada pela autora do software SimaPro 7.3.3 Faculty Multi user.
49 Estão disponíveis comercialmente: CMLCA, EMIS, GaBi, KCL-eco, Regis, SimaPro, TEAM e Umberto.
Descrição do estudo e seleção da base de dados (ou biblioteca) que será utilizada.
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Conforme imagem acima (Figura 15), o usuário do SimaPro pode iniciar a ACV pela descrição do estudo, para depois modelar de forma sistemática o inventário do ciclo de vida (Figura 16), seguindo os princípios descritos na série ISO 14040. Cabe salientar que a inserção de dados que não estão armazenados nas bibliotecas do software, provenientes de outras fontes de informação, é demorada e, muitas vezes, alguns dos aspectos ambientais constantes no método de avaliação de impactos selecionado (Figura 17) não se tornam compreensíveis ou claros.
Figura 16 – Descrição das fases do produto e modelagem do Inventário do Ciclo de Vida (ICV) no software SimaPro. Fonte: imagem capturada pela autora do software SimaPro 7.3.3 Faculty Multi user.
Montagem das entradas e saídas do sistema de produto, inserindo processos constantes na biblioteca selecionada ou processos de outras fontes de dados.
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Figura 17 – Seleção do método Eco-indicator 99 para a avaliação dos impactos presentes no ciclo de vida do produto. Fonte: imagem capturada pela autora do software SimaPro 7.3.3 Faculty Multi user.
Na AICV (etapa final da modelagem dos fluxos de entrada e saída) é gerado automaticamente pelo software um gráfico comparativo para as diferentes fases do ciclo de vida do produto, de acordo com determinados indicadores de impactos ambientais. Conforme observado na Figura 18, a interface deste gráfico pode gerar incompreensões para novos usuários, uma vez que os dados não estão expostos de forma “amigável” e elucidativa. Além disso, na aba de “avaliação de impacto”, há as subdivisões de “caracterização”, “avaliação de danos”, “normalização”, “ponderação” e “pontuação única” que dificultam a identificação, para iniciantes, das diferenças e paridades entre elas. Por esta razão, no Capítulo 4, os gráficos de análise dos resultados da ACV da lata de alumínio foram elaborados pela autora.
Seleção do método que será utilizado para a avaliação dos impactos potenciais presentes no ciclo de vida do produto.
9 8 C A P ÍT U LO 3 | A V A LI A Ç Ã O D O C IC LO D E V ID A D O P R O D U T O E O D E SI G
N Figura 18 – Gráfico comparativo para a avaliação dos impactos ambientais nas diferentes etapas do ciclo de vida do produto.
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