(1999).
Fonte: Rômulo Rocha (2002).
Assim, em 22 de dezembro de 1999, as comunidades remanescentes de quilombo de Barra e Bananal conquistaram o título definitivo de suas terras. Este é de caráter coletivo, como preconiza a lei e, portanto, foi expedido em nome da “Associação de Desenvolvimento Comunitário Rural de Barra do Brumado”. O mesmo compreende uma área de 1.339 hectares
e tem por limites os seguintes confrontantes: a comunidade de Mato Grosso, Serra do Molhado, Fazenda Sítio Pantanal e Fazenda Campos Gerais (Cf. Mapas 04 e 05)133.
Pesquisadora: - E do território, da terra de vocês aqui, você me explica quais são os marcos/as divisas, que você me falou uma vez?
Informante: - Riacho das Pedra divisano com um lugar que chama Gambo. Gambo, depois vem subino assim Florindo lá de cima. Aqui, lá em cima já divisa com a Capoeira que é Mato Grosso, mas tem um nomezinho é divisano com Mato Grosso, mas o lugar chama Capoeira. E depois travessa assim, vai no Fazendola, voltano por cá pega a região de Giló, vai divisar com o Rio do Junco lá em baixo no Bananal. Pesquisadora: - Essa parte aqui então, da Ponte do Coronel, seria território de vocês?
Informante: - Até lá em cima onde tem aquela casa que cerca aquele arame, não tem o pra cima que sobe a subida uma casa com aquele cercado de estaca de cimento?
[...]
Pesquisadora: - E lá na Ponte do Coronel, todos esses bares que têm aí são de vocês [pessoas do grupo]? Informante: - É, são tudo pra cá. É a divisa passa na Ponte do Coronel na Serra por lado de lá assim. Tudo pra cá desse baixam é tudo de cá.
Pesquisadora: - E os bares, todos os donos são daqui da comunidade?
Informante: - São tudo daqui. Um de Gerson, que tem a casa ali pro outro lado que você disse que num avistou com ele. O outro é de Antônio Aprijo (Antônio Aprijo tá no... mora em Rio de Conta), mas eres são daqui, mora aí, os avô deres tudo morava aí, o pai dere.
Pesquisadora: - Você me relatou um caso de invasão do território. Tem mais algum caso de pessoas de fora que não são da comunidade de entrarem [de ocuparem o território]? Ou só tem esse aqui que comprou o terreno e aquele outro lá de baixo? Que é de uma... Fazendola [comunidade de Rio e Contas]. Qual foi a comunidade?
Informante: - Não, ere é de Rio de Conta, mas ere é de Tamanduá, mas ele mora em Rio de Conta. Pesquisadora: - Ele vem e solta os gados?
Informante: - Não, ele cercou. Cercou mesmo. Pesquisadora: - Ele tem uma manga?
Informante: - Tem. [...] Ele cercou um território de uma muier que chamava Librinha. Então essa muier morreu. Os fio dela foi pra São Paulo, outros tem aí em Rio de Conta, e aí encheu a Barragem, começou aquele negócio da Barragem encher, aí todo mundo foi abandonano, né? Aí eres mudaram, só que eres mudou, mais não voltou mais pra tomar conta ali, pero meno dar uma oiada, aí eres entraram lá e tá lá até hoje.
[...]
Pesquisadora: - Na época que regularizou o território, vocês decidiram não tirar ele, não falar? Ou vocês não discutiram?
133
O acesso ao Processo Administrativo do INCRA, relativo aos quilombos remanescentes de Rio de Contas (Nº 54160.003204/2007-73) foi permitido pelas comunidades. Além disto, ele foi formalmente solicitado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - UFBA, por meio de ofício assinado pela coordenadora do mesmo a Profª. Drª. Miriam Rabelo.
Informante: - Mas não é isso. A gente esperou pelos filho dela, pelo parentes do dono da terra pra entrá em ação. Eres entraram em ação, mas na época acho que eres não conseguiram, porque acho que eres só mexeram aí, aqui em Rio de Contas. Eu acho que eres devia ter mandado um oficio assim diretamente pra fora, né?
[...]
Pesquisadora: - E de território, o que o senhor entende?
Informante: - Eu memo não entendo também, não. Território pro exemplo, assim é, como assim é, pode ser como a titulação aqui, né?
A figura jurídica do território está em processo de elaboração êmica de seu significado, uma vez que se trata de uma definição exógena e com preponderância da lógica coletivista que não é o aspecto central da relação de comunidades camponesas com a terra. Em tal organização, co-existe apropriação da terra como patrimônio individual (ficando na relação do trabalho familiar numa determinada área) e coletivo (a exemplo de caminhos, rios, etc.).
Naquele sentido, o conceito de território se assemelha ao de quilombo, uma vez que ambas as definições passaram a ser objeto de reflexão do grupo, após a descoberta do Art. 68 e, sobretudo, a partir da conquista do direito que este preconiza (a titulação das terras). A dualidade entre o direito consuetudinário, à herança da família, e o rótulo jurídico de território é expressa na fala do informante, quando o mesmo responde que a comunidade esperou que a reivindicação da área ocupada indevidamente por não quilombolas fosse feita pelos herdeiros134.
134
O território apresenta dois intrusos. O caso relatado acima expressa a invasão de uma área que outrora fazia parte de Riacho das Pedras e que faz parte do território. A outra situação refere-se à venda de um terreno em Brumadinho – Barra, por parte de um herdeiro que morava em Livramento, e não se identifica como quilombola, portanto não respeita as regras implícitas ao título coletivo. O comprador é o Sr. João Batista Pinto dos Santos, mais conhecido como Tista. Este senhor foi secretário de administração de Rio de Contas, no mandato do Prefeito Evilácio Miranda da Silva. A gestão deste ex-prefeito está sendo investigada pelo Ministério Público. E tanto o Sr. Evilácio Miranda quanto o Sr. João Batista são suspeitos de corrupção.