3.3 Paz como fruto do seguimento na misericórdia
3.3.2 Solidariedade com os pobres, fundamento do Ecumenismo
O descobrimento da realidade dos pobres é, de direito, a origem da solidariedade, cuja resposta é uma exigência ética e, além disso, uma prática salvífica para os que se solidarizam com os pobres. Na ajuda aos pobres se adquire “olhos novos” para ver a verdade; “novo ânimo” para percorrer caminhos desconhecidos e a “experiência de sentido” para a própria vida. Trata-se do exercício da corresponsabilidade como algo bom, plenificante e salvífico.286
A volta da Igreja ao mundo dos pobres constitui uma solidariedade fundamental com a qual a Igreja realiza sua missão e mantem sua identidade. A partir da solidariedade, Jon Sobrino, foca em três realidades: na catolicidade, na ajuda missionária e no movimento ecumênico.287
Na catolicidade, uma das notas da Igreja, aparece o problema do um e do múltiplo ou a universalidade e a localidade. Em virtude da universalidade da Igreja se fomentava, até há pouco tempo, a mesma doutrina, uma mesma forma de administração, mesma teologia que, a partir do Vaticano II, rachou, em nome do pluralismo,
285 ANJOS, Márcio Fabri dos. Crítica a sentidos éticos da misericórdia, p. 77-96, aqui p. 94-95, in:
MILLEN, Maria/ZACHARIAS, Ronaldo (orgs.). O Imperativo Ético da Misericórdia.
286 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 222. 287 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 224.
acentuando a diversidade de expressões litúrgicas, pastorais e teológicas. No entanto, Sobrino questiona o modelo pluralista porque não atribui maior importância eclesial ao que na Igreja existe de “local”, devido à situação histórica, econômica, social e política, nem se introduz neste modelo a “corresponsabilidade”, o “suportar-se mutuamente” como forma de catolicidade. Portanto, catolicidade significa corresponsabilidade direta entre as igrejas locais, dando e recebendo, ensinando e aprendendo, suportando-se mutuamente na fé.288 Sem prejuízo do vínculo entre Jesus Cristo, “verdadeira videira”, como o centro e fundamento da Igreja (cf. Jo 15, 1-5).
Uma forma concreta e importante da catolicidade da Igreja é sua atividade missionária, entendida como solidariedade. Sobrino diz que a solidariedade introduz uma circularidade na categoria teológica do envio, quer dizer, não só como dar, mas também como receber e aí pergunta: o que significa missionar a América Latina? Conclui dizendo da necessidade de levar a sério o destinatário da evangelização que não é qualquer “homem”, o “pagão”, mas é o pobre, porque é o destinatário privilegiado do amor de Deus e da ação de Jesus.289
Para Sobrino, a atividade missionaria é, fundamentalmente, solidariedade entre as igrejas locais. A atitude ecumênica supõe o mútuo respeito e aceitação; e supõe, sobretudo, a necessidade e urgência de unidade entre as diversas confissões.290 Essa postura está em continuidade com a declaração conjunta em vista dos 500 anos da Reforma Luterana em que se diz na expressão passando do conflito à comunhão: “Rejeitamos categoricamente todo o ódio e violência, passados e presentes, especialmente os implementados em nome da religião”.291 Jesus quer misericórdia e não sacrifício, pois veio não para chamar os justos, mas os pecadores (cf. Mt 9, 13). A misericórdia é mais importante que normas e preceitos.
Ao redelinear os pressupostos do ecumenismo, Sobrino, afirma: “Uma solidariedade interconfessional sem uma prévia solidariedade com os pobres deste mundo é irrelevante, anticristã e historicamente difícil”.292 E conclui: “Antes de buscar a
288 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 226-228. 289 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 232. 290 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 235.
291 Disponível em: http://www.luteranos.com.br/textos/confessionalidade-luteranos-em-
contexto/declaracao-conjunta-por-ocasiao-da-comemoracao-conjunta-catolico-luterana-da-reforna. Acesso em 21 de setembro de 2017.
‘unidade’ das igrejas, é preciso buscar, portanto, a ‘verdade’ da Igreja, na qual podem se unir as diversas confissões”.293
As reflexões aqui resumidas querem mostrar como a solidariedade oferece um modelo para que as igrejas ou confissões mantenham, recobrem ou aumentem sua identidade em relação com outras igrejas e confissões. A fé, sendo um ato pessoal, é vivido em comunidade. O mistério de Deus, formulado na revelação e no magistério da Igreja, não quer dizer que todos o captem da mesma forma e em igual grau. À medida que surgem novas concreções na captação do mistério de Deus, ele sempre se mostra imanipulável.294
Refletindo a implicação mútua entre as religiões e a busca da paz, Hans Küng, afirma que “não haverá sobrevivência sem uma ética mundial. Não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. E sem paz entre as religiões não haverá diálogo entre as religiões”.295 O teólogo suíço-alemão, Hans Küng, ainda afirmou recentemente por
ocasião da comemoração dos 500 anos da Reforma Luterana: “No nosso mundo globalizado e laicizado, o cristianismo só terá credibilidade se se posicionar como comunidade de verdadeira diversidade reconciliada”.296 Neste contexto recebem
especial relevância os cinco imperativos ecumênicos pelos quais luteranos e católicos podem comemorar juntos no ano de 2017 os 500 anos da Reforma Luterana: partir da perspectiva da unidade e não da divisão; deixar-se transformar pelo encontro e pelo testemunho mútuo da fé; busca da unidade visível; redescobrir a força do Evangelho de Jesus Cristo; testemunhar juntos a graça de Deus.297 Por isso, é necessário que o diálogo ecumênico e a busca da compreensão recíproca continuem entre teólogos e historiadores, sobretudo sobre temas como a justificação, a eucaristia, o ministério, a Escritura e a tradição.
A concepção sobriniana passa por um processo de confronto com a injustiça e a opressão do povo Latino-americano, no qual a opção preferencial pelos pobres é uma
293 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 238 (grifo do autor). 294 SOBRINO, Jon. O princípio misericórdia, p. 243.
295 KÜNG, Hans. Projeto de Ética Mundial: uma moral ecumênica em vista da sobrevivência humana. 3.
Ed., São Paulo: Paulinas, 2001, p.7.
296 Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/565331-os-500-anos-da-reforma-uma-oportunidade-
historica-artigo-de-hans-kueng. Acesso em abril de 2017.
297 PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS E
FEDERAÇÃO LUTERANA MUNDIAL. Do Conflito à Comunhão. Comemoração conjunta católico- luterana da Reforma em 2017, 1. ed., Brasília: Edição conjunta Edições CNBB e Editora Sinodal, 2016, p. 90.
exigência evangélica, não só como uma verdade a ser reafirmada, mas como uma boa nova que produza alegria e possibilidade de vida plena (cf. Jo 10, 10).
A base comum para o ecumenismo, conforme Jon Sobrino é, portanto, a solidariedade das confissões com os pobres, sendo que solidariedade é suportar-se mutuamente na fé. Rudolf von Sinner, complementando, sugere três valores que poderiam ajudar em um empenho ecumênico em busca da paz: confiança, esperança e serviço.298 Urge então, continuar construindo uma caminhada em comum que testemunhe a unidade na diversidade, pois a Igreja - Ecclesia semper reformanda, - está em constante purificação e renovação, e enquanto houver história, haverá um longo caminho a percorrer para aperfeiçoar a convivência humana na paz!