2 COMPREENDENDO POLÍTICAS PÚBLICAS, EDUCAÇÃO, CIDADANIA E SOLIDARIEDADE PARA A DOAÇÃO DE
2.3 EDUCAÇÃO, CIDADANIA E SOLIDARIEDADE
2.3.3 Solidariedade Orgânica e Mecânica
Existem momentos em que [...] a acomodação no mundo é essencialmente “abstrativa” (mecânica, racional, instrumental), mas existem outros em que ela remete à “Einfühlung” (orgânica, imaginária, afetual). Mas, como já indiquei, há épocas em que, segundo ponderações diferenciadas, encontramos essas duas perspectivas juntas. (MAFFESOLI, 1987, p.185)
Entendemos, diante das ideias expostas acima, que há momentos em que nos colocamos na vida de forma mecânica, outras em que nos portamos de forma afetual, e outras ainda em que as duas posições se misturam e, por vezes, se confundem. Nesse contexto, podemos nos referir às doações de sangue, conforme os tipos de doação, ora como
vinculadas, ou mecânicas, ora como espontâneas, ou orgânicas, e ainda ambas podem se manifestar simultaneamente. Dessa forma, quando o doador é fidelizado, habitual, mas doa por solicitação de um determinado paciente que é seu amigo e com quem compartilha laços de afeto, consideraremos essa doação mecânica como orgânica.
A solidariedade orgânica é espontânea e refere-se ao afetual, à proxemia, que significa estar junto. Esse tipo de solidariedade encontra- se em oposição à solidariedade mecânica, concebida por Maffesoli (1987) como algo instituído, uma obrigação, um dever-ser, diferente do que é característico da solidariedade orgânica, na qual a ênfase se dá nas relações consigo e com o outro ou ainda quando há o sentimento de potência, sentimento de cooperação que brota de dentro do ser.
Para Durkheim, (1995), a solidariedade social mecânica é vista como própria das sociedades “inferiores”, ou não complexas, nas quais os indivíduos pouco diferenciados compartilham ideias, costumes, cren- ças, hábitos, valores e sentimentos comuns. A divisão do trabalho possi- bilitou a especialização dos trabalhadores em sociedades “complexas”, emergindo a solidariedade orgânica existente em um organismo, formado por indivíduos interdependentes. (DURKHEIM, 1995).
Maffesoli (1987) contribui sobremaneira para a reflexão sobre solidariedade, levando em consideração a paixão pelo social tal como ele é, tal como se dá, e não como deveria ser. Nesse sentido, analisa o ser humano em suas várias dimensões, abrangendo não apenas a relação interindividual, mas também a que o liga a um território, a um meio ambiente natural que partilha com outros.
Para Maffesoli (1987), a questão do afeto é substancial, tendo sido reconhecida anteriormente por Durkheim (1995). Maffesoli atribui ao grupo uma fonte singular, da qual é liberada uma força natural capaz de entusiasmar os corações e afeiçoá-los a uma determinada causa. O autor faz uma analogia entre o corpo individual e o social proposta anteriormente por Durkheim (1995). Este concebia ambos os corpos como organismos complexos, em que o funcionamento e a disfunção se ajustam da melhor maneira possível, imbuídos de uma certa coesão, induzindo a uma concepção orgânica.
A sociedade se organiza através dos reencontros, das situações e pelas experiências vividas em cada grupo. Dessa forma, Maffesoli (1987) aponta a existência de tribos que se constituem como grupos que surgem a partir do que os aproxima, da identificação, do afetual caracterizado pela atração e/ou repulsa. A ligação com o outro, a vontade de ser/estar com o outro é o que aproxima os indivíduos a um grupo, a uma tribo, através da solidariedade orgânica. Maffesoli (2005,
p. 23) complementa que “cada um entra num grupo conforme as circunstâncias ou desejos”. E ainda conclui que o valor, a admiração, o gosto partilhados tornam-se cimento.
Entendemos, então, os doadores de sangue como uma tribo unida por uma determinada identificação, por um determinado valor ético, por uma vontade de ajudar a salvar vidas. Nesse sentido, os doadores de sangue do HEMOSC de Florianópolis formam uma tribo que, conforme Maffesoli (1987, p. 194), “[...] se faz a partir do sentimento de pertença, em função de uma ética específica e no quadro de uma rede de comunicação”. O grupo de doadores é formado por indivíduos hetero- gêneos, que igualmente compõem outras tribos. Esses seres humanos heterogêneos ligam-se à tribo de doadores por sentimentos e valores que lhes são comuns e que lhes possibilitam o sentimento de pertença.
Ao se fazer referência à doação de sangue, pode- se dizer que o sangue do doador, que é parte do seu ser, através da doação seguida pela transfusão, estará junto com o do outro. A solidariedade orgânica encontra-se embebida de amor pelo próximo, pelo presente, pelo aqui e agora. Apresenta-se, então, a importância da preservação da natureza. É a “perdurância” do ser, a continuidade da vida. É uma transcendência imanente, uma aura, um valor englobante. É uma ética que serve de cimento aos diversos grupos que participam desse espaço-tempo. Através da solidariedade orgânica evidencia-se a alegria do estar junto, reiterada pela ideia de perdurância da vida. (PEREIMA et al., 2010, p. 325).
Sobre ajuda mútua, Maffesoli (2005, p. 88) afirma que “[...] há ajuda mútua por força das coisas e não se trata de algo totalmente desinteressado, pois a ajuda dada poderá ser recompensada quando eu mesmo precisar ser ajudado. Mas, dessa forma, cada um se insere num processo de conexão, de participação, que privilegia o corpo coletivo”.
E, ainda, sobre a referência acima, menciona:
[...] ajuda mútua, que não se resume unicamente às ações mecânicas das relações de boa vizinhança. Na verdade, a ajuda mútua, como a entendemos aqui, insere-se numa perspectiva orgânica em que todos os elementos, em sinergia, fortalecem a totalidade da existência. Assim, a
ajuda mútua seria a resposta animal, “não consciente”, do querer-viver social.
Entendemos as doações espontâneas como expressão da solidariedade orgânica, e as doações vinculadas, como manifestação da solidariedade mecânica, quando o doador sente-se obrigado e por vezes pressionado a doar sangue, mesmo que não queira ou que não esteja de acordo com as condições adequadas e permitidas para a doação. Porém, a doação vinculada também pode ser considerada como doação orgânica, quando o paciente para quem é doado o sangue é alguém importante ao doador, quando paciente e doador de sangue são ligados por sentimentos como laços de afeto. (MAFEZOLLI, 1987)
A doação mecânica se opõe ao afetual, ao querer estar junto, à ética da estética que vem tomando espaço em nossa sociedade contemporânea.
Ressaltamos que a doação vinculada, expressão da solidariedade mecânica, tomou proporção na década de 1980, especialmente quando foi proibida a comercialização do sangue. Nessa época, desenvolvia-se a captação hospitalar como estratégia de captação a fim de não permitir a queda nos estoques de sangue. Desde então, a captação hospitalar vem sendo desenvolvida nos serviços brasileiros de hemoterapia, porém não mais com tanta força em Santa Catarina, especialmente no hemocentro coordenador.