6.1 Grupo Focal
6.1.2 O modo de vida na comunidade
6.1.2.4 Solidariedade e Partilha
Os moradores que participaram do grupo focal percebem sua comunidade como um local no qual a solidariedade e a partilha acontecem de forma bastante recorrente. Em pequenos exemplos os moradores vão nos narrando de que forma realizam uma rede de cooperação mútua:
Quando a pessoa chega do mar sempre tem aquele amigo mais próximo, aquele parente, para o qual você tira um peixe, dá um peixe. Isso continua muito forte, aquele parente você sempre dá um peixe, partilha. Você vê que o cara chega do mar muitas vezes o cara fica quase sem levar nada porque tirou o de comer, chegou um, partiu, outro, partiu, ai chegou o derradeiro amigo, partiu o peixe.
Pude presenciar algumas vezes na comunidade cenas como essa embaixo dos barracões. As pessoas vão chegando devagar enquanto os pescadores que estavam no mar dividem entre si, de forma igualitária o pescado. Cada um destes acaba presenteando algumas pessoas que estão ali, e a dinâmica acontece de forma mais ou menos silenciosa. As pessoas não pedem o peixe, simplesmente se aproximam, ficam conversando a “espera” de ser presenteadas, sabendo que quando elas próprias chegarem do mar o mesmo deve ser feito. Tudo isso acontece quase como se fosse um ritual, presenciei isso ocorrendo algumas vezes, mas tive dificuldade de identificar exatamente como ocorria, apenas quando um dos moradores, que havia inclusive estado comigo em um desses momentos, e também estava presente no grupo focal nos explicou:
Por exemplo, naquela visita que você teve aqui a gente foi até uma jangada, lembra? Talvez você não percebeu, mas para nós aqui é a coisa mais comum do mundo, ninguém fica prestando atenção realmente se vai acontecer mas quando termina aquele movimento da jangada muitos dali sai com um, nós chamamos, mercado de peixe, com quatro ou cinco peixes que alguém deu, e nós temos aqui as vezes debaixo do barracão tem os malandros [rindo] também que vão pro mar ou não vão, ou passa semanas sem ir pro mar, espera quando a jangada chega despachar, eles ficam só ali esperando [muitas pessoas rindo]. Sabe que é teu amigo e não sei o que, aí o sujeito fala: “quer um peixe ai, né fulano?” e acaba levando o peixe pra levar pra comer e vender pra
123 comprar a farinha. Tudo isso acontece, esse processo sabe. (Participante 08)
Dessa forma, pertinho do por do Sol na Prainha do Canto Verde é só ir para próximo do mar que diariamente esse ritual se repete, ficam diversas pessoas em torno das jangadas que chegaram do mar, jogando conversa fora, falando dos mais diversos assuntos locais, nacionais ou internacionais, esperando os pescadores separarem e tratarem o peixe, e a espera de levar algum pescado de presente.
Além da partilha cotidiana os moradores narraram também de que forma a comunidade se organiza para ajudar alguém que esteja necessitando como um morador que esteja enfermo e que não possa cuidar do sustento de sua família:
E outra coisa que é importante, eu achava muito legal, até um tempo desse atrás quando alguém da comunidade caia doente tinha uma pessoa, qualquer uma pessoa: “Um amigo nosso caiu doente!”. Ai a gente ia pra de baixo do barracão, ai uma pessoa se encarregava: “Cada jangada que chegar vamos pedir um peixe pra fulano”. Ai tinha um grupo e dizia: “eu vou ficar pegando o peixe pra fulano”. Ai o cara chegava ai dizia: “Fulano, arranje ai um peixe pra fulano, o cara esta doente não esta podendo pescar. Esta acontecendo isso e isso.” Ai cada embarcação daquela dava um peixe, se chegasse dez jangadas o cara recebia dez peixes. Aí o cabra vendia cinco peixes e levava cinco peixes pra família dele, isso era uma coisa que eu vi e vejo e que você não vê em outras comunidades. Isso tinha muito, ainda tem, mais tinha mais. (Participante 07)
Percebemos que os vínculos comunitários na região se formam também a através de relações de solidariedade e ajuda mútua. Como sabemos a Prainha do Canto Verde tem sua principal atividade econômica a pesca desde que se originou. O isolamento fazia com que as relações econômicas fossem muito mais informais que nas cidades grandes, a permuta era muito praticada, em substituição da relação monetária formal, que é muito mais rígida. Hoje a Prainha do Canto Verde já é bem mais monetarizada, mas a tradição de uma economia informal e mais solidária ainda é uma herança que pode ser parcialmente percebida na comunidade.
Essas coisas diminuíram mais, mas a troca as vezes ainda acontece. Se eu dou um peixe pra um amigo que é um agricultor aculá ele vai me recompensar com uma goma, farinha. Ainda tem isso ainda, não é forte como antigamente, mas hoje ainda tem (Participante 13)
Isso já vem de muito tempo atrás, e se mantem da mesma forma né? Hoje é menos, porque antigamente nos tínhamos uma troca de
124 alimentação sem dinheiro, como era, nos tínhamos um vizinho aqui que ele não pescava, mas ele tinha farinha da mandioca e tinha o coco e tinha goma, ai o amigo dele foi para o mar, ele não tinha o dinheiro pra comprar o peixe mas quando ele vinha trazia o coco e trazia a goma. Ai quando ele chegava ele dizia rapaz passei na tua casa e deixei um negocio pra você, ai o cara já sabia que ele queria o peixe. Ele sabia que ele precisava da goma que ele não tinha e existia essa troca. (Participante 11)
Chegava do mar o pescador dava peixe pra aquelas pessoas que estavam lá depois do morro aculá, que a gente chama campestre, vinha com a farinha, com o coco, com a goma, dava pra o pescador o pescador dava o peixe (Participante 01)
Percebemos por este relato do morador que as relações de troca não funcionavam em uma lógica “toma lá da cá” como funciona hoje mercado monetário comum. Não havia uma unidade monetária como por exemplo: “três cocos valem um peixe”, como acontece em uma relação comercial usual hoje, que usa o dinheiro para intermediar os valores. As coisas funcionavam de uma forma que se assemelhava a algumas sociedades comunitárias primitivas, onde aquilo que um tinha era compartilhado com o outro e vice-versa, para que assim todo o grupo pudesse sobreviver junto. Não era apenas a falta de unidade monetária que diferenciava essa relações das de hoje, mas o sentido da troca que era totalmente diferente do que é uma relação comercial contemporânea. Enquanto em uma relação comercial tradicional o objetivo é obter uma vantagem individual na sociedade narrada por esse indivíduo os objetivos são coletivos, é a sobrevivência e o bem-estar de todos.
Em relação a solidariedade, ela acontecia não só dentro da comunidade como também na ajuda a sujeitos de outros locais do entorno, que viviam em situação mais precária que os da Prainha:
Aqui tem uma comunidade que é de Juazeiro que vinha muito pra cá pra arranjar peixe, a gente dava esse peixe ás vezes não era nem em troca de nada. É por que eles vinham de lá porque passava necessidade mesmo, era muito difícil conseguir peixe lá. E ai a gente dava esse peixe. Hoje não mais porque depois que o governo passou a ter esses bolsa família aí e eles não precisam vir mais. (Participante 04)
Claro que a Prainha do Canto Verde já mudou muito desde os tempos em que era isolada até os dias atuais, o comércio já se intensificou, temos atividades de turismo, e outras fontes de renda, porém boa parte do sentimento de valorização do
125 coletivo, vivenciado de forma intensa neste período, parece ter se preservado. Preservar parte desses aspectos pode ser um grande diferencial que fez com que a localidade tivesse se tornado referencia na luta comunitária, pois consegue mais facilmente retirar a ênfase do individual e colocar no coletivo.