4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1. Características dos Solos
4.1.2. Solos de região altimontana e bem drenados
Este perfil foi coletado no Parque Nacional de Itatiaia. A altitude é de 1700m e está em uma encosta com 10% de declive. Sua posição na paisagem é em situação ligeiramente deprimida, no terço inferior da vertente, em interflúvio com forma de sela ou patamar. O solo é bem drenado. Foi observada uma linha de pedras, entre os horizontes Bi e 2Bi, bem como calhaus e cascalhos nos horizontes A1 e A2, identificando uma descontinuidade litológica. A posição na paisagem e a declividade favorecem a formação de um perfil de solo profundo.
O perfil RJ1 possui em todos os horizontes altos teores de C (Tabelas 1 e 2), pelo método do CHN, para horizontes minerais, porém insuficientes para serem classificados como materiais orgânicos e, portanto, como tendo horizonte hístico. Destacando-se que nos métodos Y&B e da mufla, os horizontes superficiais têm mais de 8% de C. Por esta razão, apesar de sua classificação no SiBCS como Cambissolo, o RJ1 foi incluído neste estudo.
O horizonte A1 apresenta grande volume de folhas, galhos, frutos etc., os quais têm diâmetros grosseiros (maior que 2,0mm). A densidade do solo em A1 é baixa (0,54Mg m-3), com teor de fibras esfregadas de 20%. Porém há um predomínio de material mineral com textura média. Se avaliada a fração orgânica do horizonte A1 está seria classificada, com base na TFSA, como de material hêmico, porém em toda a massa do horizonte é grande o volume de partes de vegetais. Este horizonte, pelo elevado teor de fibras esfregadas, possui predomínio de matéria orgânica pouco decomposta com alto teor de C-HUM, tendo relação EA/C-HUM superior a 1, indicando o predomínio na TFSA de compostos orgânicos alcalino- solúveis. A relação C-FAH/C-FAF é baixa. O horizonte A2 também apresenta tecidos vegetais como o A1, mas em menores quantidades, e possui Ds superior, de 0,96Mg m-3.
Embora os horizontes A1 e A2 apresentem cores brunadas e acinzentadas, os horizontes Bi e 2Bi têm cor preta (N2/). O que pode estar relacionado à característica sáprica do material orgânico nos horizontes B, na grande maioria humificada, com predomínio do C- FAH e do C-HUM, com humina real, ou seja, substâncias que conferem a coloração preta.
As propriedades físicas e químicas dos horizontes Bi e 2Bi são similares, com exceção dos teores de C-FAH e C-HUM, que no Bi possuem valores três vezes superiores aos de C- FAH e no 2Bi seus teores são praticamente iguais. O que se reflete no aumento das relações C-FAH/C-FAF e EA/C-HUM no 2Bi. A relação C/N do perfil é próxima da média (15 a 22). Os valores de pH são acima da média (5,0 a 5,1) e o Al3+é baixo (0,1 a 0,5cmolc kg-1) para
solos com altos teores de matéria orgânica e de regiões altimontanas. Os teores de Ca2+ são quase nulos e predomina no complexo sortivo o Mg2+. Porém o valor S é baixo (0,7 a 2,2cmolc kg-1), sendo um solo com forte distrofismo.
Quanto à classificação, com base nos teores de C, determinado pelo CHN, o solo é um CAMBISSOLO HÚMICO Distrófico típico.
Tabela 1. Localização, classificação e altitude dos perfis de solos.
Estado1
/ Perfil Ambiente
2 Município Posição (S, W) Classificação (SiBCS3) Vegetação / drenagem Altitude
(m) AL-2 1 Coruripe 10º 7’S 36º 12’W Organossolo Tiomórfico Hêmico típico Floresta perenifólia de várzea /
Mal drenado 5
BA-2 1 Ituberá 13º 42’S 38º 59’W Organossolo Tiomórfico Hêmico térrico
Herbácea arbustiva de caráter hidrófilo / Mal a imperfeitamente drenado
5
RJ-3 1 São José da Boa
Morte 22º 34’S 42º 42’W Organossolo Háplico Hêmico térrico
Várzea úmida c/ lavoura de subsistência / Muito mal
drenado
40
RS-4 1 Viamão 30º 10’S 50º 49’W Organossolo Tiomórfico Sáprico típico Campo de várzea hidrófilo / Mal
drenado 20
SC-2 1 Governador Celso
Portela 27º 21’S 48º 37’W Organossolo Tiomórfico Hêmico típico
Floresta hidrófila / Muito mal
drenado 10
DF-1 2 Guará II 15º 48’S 48º 1’W Organossolo Mésico Sáprico típico Floresta hidrófila /
Mal drenado 800
MG-2 2 Coronel Pacheco 21º 35’S 43º 17’W Organossolo Mésico Hêmico térrico Campo de várzea / Muito mal
drenado 432
MS-2 2 Porto Morumbi 23º 49’S 54º 5’N Organossolo Tiomórfico Sáprico térrico Campo de várzea / Muito mal
drenado 280
PR-2 2 Tijucas do Sul 25º 53’S 49º 8’W Organossolo Mésico Sáprico típico Floresta de araucária / Muito
mal drenado 850
RJ-1 2 Parque Nacional
Itatiaia 22º 22’S 44º 48’W Cambissolo Húmico Distrófico típico
Floresta altimontana / Bem
drenado 1700
RJ-4 2 Nova Friburgo 22º 18’S 42º 31’W Organossolo Mésico Sáprico térrico Campo de várzea / Mal drenado 800
SP-1 2 Taubaté 23º 4’S 45º 33’W Organossolo Mésico Sáprico térrico Campo de várzea / Mal drenado 500 1
Estados Brasileiros: AL, Alagoas; BA, Bahia; DF, Distrito Federal, Brasília; MG, Minas Gerais; MS, Mato Grosso do Sul; PR, Paraná; RJ, Rio de Janeiro; RS, Rio Grande do Sul; SC, Santa Catarina; SP, São Paulo; 2 Ambientes: 1 – Baixada litorânea; 2 – Planícies interioranas e ambientes de Altitude; 3 SiBCS, Embrapa (1999)
Tabela 2. Atributos químicos e físicos dos horizontes orgânicos dos perfis estudados.
Localização Horizonte Profundidade Cor Fibras
esfregadas Ds C.org. CHN Valor S Valor T Valor V% Sat. Na Sat. Al cm Munsell % Mg dm-3 g C kg-1 cmolc dm-3 %
Alagoas – AL2 Hdojp 0 - 23 10YR 5/4 24 0,38 305,8 2,54 42,5 6 0,82 19
Hdoj1 23 - 32 10YR 6/3 38 0,11 508,1 2,32 51,6 4 0,48 35 Hdoj2 32 - 65 10YR 7/3 68 0,08 454,7 2,37 33,2 7 0,64 71 Hoj 65 - 150 10YR 6/3 48 - 120,7 2,57 117,7 2 0,04 70
Bahia – BA2 Hdoj1 0 - 15 10YR 6/3 8 0,26 525,3 9,46 88,3 10 0,16 25
Hdoj2 15 - 32 10YR 7/3 28 0,14 528,5 4,34 72,1 6 0,12 46 Hdoj3 32 - 81 10YR 7/3 28 0,20 369,9 8,25 96,8 8 0,19 50
Rio de Janeiro - RJ3 Hdp 0 - 25 10YR 6/4 12 0,16 339,8 23,20 48,7 47 1,09 3
Hdo 1 25 - 45 10YR 6/4 16 0,17 314,9 27,77 47,7 58 0,94 1 Hdo2 45 - 63 10YR 6/5 28 0,15 332,3 24,17 43,8 55 2,08 0 Hdo 63 - 90 10YR 6/6 80 0,15 288,5 25,87 59,3 43 0,12 0
Rio Grande do Sul – RS4 Hdpj 0 - 16 10YR 5/4 6 0,10 425,7 8,03 97,1 8 0,15 13
Hdj 16 - 80 10YR 5/4 8 0,46 482,2 18,19 88,4 20 1,50 9 Hdoj 80 – 120+ 10YR 7/2 8 0,53 490,0 20,03 66,8 29 1,36 3
Santa Catarina – SC2 Hdoj1 0 - 20 10YR 6/4 18 0,19 460,0 6,90 56,5 12 0,29 24
Hdoj2 20 - 100 10YR 6/4 30 0,09 428,1 7,89 52,1 15 0,30 21
Distrito Federal – DF1 Hdp 0 – 26 10YR 5/2 2 0,80 101,70 21,05 33,2 63 6,09 0
Hd1 26 – 48 10YR 4/2 2 0,57 132,40 5,92 34,9 17 1,61 4 Hd2 48 – 80+ 10YR 4/2 0 0,39 196,60 18,90 57,1 33 0,61 0
Minas Gerais – MG2 Hd1 0 – 20 10YR 6/3 20 0,41 114,80 2,08 15,2 13 5,36 38
Hd2 20 - 60 10YR 8/2 20 0,24 206,40 5,05 28,8 17 2,84 5
Mato Grosso do Sul – MS2 Hd 0 - 40 10YR 5/3 16 0,29 121,10 3,51 27,9 12 0,21 31
2Hd 150 – 180+ 10YR 6/2 8 0,86 189,30 6,21 40,7 15 0,14 26
Paraná – PR2 Hdp1 0 - 20 10YR 3/2 4 0,66 144,1 9,37 44,1 21 0,12 6
Hdp2 20 - 55 10YR 5/2 0 0,47 192,8 5,61 68,8 8 0,21 44 Hdp3 55 – 120+ 10YR 4/2 1,2 0,42 270,0 3,49 57,9 6 0,32 45
Localização Horizonte Profundidade Cor Fibras esfregadas Ds C.org. CHN Valor S Valor T Valor V% Sat. Na Sat. Al cm Munsell % Mg dm-3 g C kg-1 cmolc dm-3 %
Rio de Janeiro - RJ1 A1 0 - 25 10YR 5/2 20 0,54 63,5 2,16 26,2 8 0,15 13
A2 25 - 45 10YR 5/2 16 0,96 38,0 0,75 20,3 3 1,50 9 Bi 45 - 86 10YR 5/2 0 0,86 49,9 0,74 28,9 2 1,36 3 2Bi7 86 – 170+ 10YR 5/2 0 0,85 55,3 0,66 25,4 2 1,35 3
Rio de Janeiro - RJ4 Hdp1 0 - 9 10YR 4/3 20 0,80 91,7 7,58 27,8 27 1,89 0
Hdp2 9 - 43 10YR 4/2 8 0,86 99,5 2,56 22,8 11 0,09 40 Hdp3 43 - 67 10YR 5/2 2 0,97 69,8 1,14 17,9 6 0,05 17 Hd 97 – 115+ 10YR 4/3 2 0,82 44,8 2,28 34,2 6 0,07 4
São Paulo – SP1 Hdp1 0 – 12 10YR 4/2 4 0,58 207,40 3,15 61,4 5 0,99 11
Hdp2 12 - 45 10YR 4/2 4 0,61 144,40 1,51 43,2 3 0,10 16
Cor segundo a carta de Munsell; Ds – densidade do solo; C.org CHN – carbono orgânico determinado pelo analisador elementar PerKin Elmer 2400 CHNS; Sat Na – saturação por sódio; Sat. Al – saturação por alumínio.