CAPÍTULO III – DIALOGANDO COM OS TEXTOS DE CAMPO
3.2 Vivendo uma nova experiência: segundo momento
3.2.6 Solucionando problemas e aprendendo juntos
Os problemas encontrados por alguns alunos-participantes para acessar o grupo criado no MSN Messenger fizeram com que fosse necessário realizar chats entre eles e mim, a professora-pesquisadora, separadamente, ou seja, sem a participação de quaisquer outros membros do grupo. O participante Paulo tentou por vezes ingressar no grupo de sua turma (ELT) e não conseguiu; assim, realizamos interações à parte, fora do grupo.
O que pode ter acontecido? Será que foi alguma ação inadequada realizada por mim ao criar o grupo? Mas como os outros participantes ingressaram sem problemas? Talvez não seja isso... Durante nossas tentativas de solucionar o problema, tentava também procurar uma justificativa para a questão. Apresento, então, recortes dos chats ocorridos entre mim e Paulo em momentos diferentes e outro com o participante Fernando, todos nós envolvidos com a busca de solução para a dificuldade de adesão de Paulo ao grupo. Os recortes das figuras 14 e 15 contêm diálogos que contextualizam a experiência de não adesão ao grupo vivida por Paulo.
Figura 14 – Recorte de chat 8 via MSN Messenger
Fonte: Chat ocorrido em 15 nov. 2012
O que pode ter acontecido? Uma ação inadequada ao se criar o grupo?
Mas como se os outros não tiveram problemas?
Figura 15 – Recorte de chat 9 via MSN Messenger
Fonte: Chat ocorrido em 15 nov. 2012
O chat, cujo recorte apresento a seguir (figura 16), acontecia paralelamente ao chat anterior, enquanto tentávamos resolver o problema de adesão ao grupo. Fernando e eu, a professora-pesquisadora, tentávamos uma solução para que Paulo pudesse ingressar no grupo. Foram momentos de intensa interação e colaboração entre nós. Até que em um dado momento, Fernando, mesmo não tendo o conhecimento sobre a questão, buscou informações sobre o assunto e compartilhou o link55 para a compreensão dos outros, já que se tratava de um link contendo explicações que poderiam nos auxiliar.
Figura 16 – Recorte de chat 10 via MSN Messenger
Fonte: Chat ocorrido em 15 nov. 2012
O recorte do chat (figura 17) que se segue ilustra o momento em que chegamos à superação do problema. É possível perceber a nossa satisfação por conseguirmos solucionar os problemas. O que seria uma simples tentativa fracassada de adesão ao grupo de discussão em um aplicativo de chat foi responsável pela mobilização dos participantes, levando-nos a um desfecho satisfatório.
Figura 17 – Recorte de chat 11 via MSN Messenger
Fonte: Chat ocorrido em 15 nov. 2012
Como fomos auto-determinados!!! É preciso acreditar... Nossas experiências nos levaram a superar obstáculos e a aprender... Por meio de recursos – :D, Kkkk e :] – (recorte da figura 17) o participante Paulo e eu demonstramos satisfação por alcançarmos nosso objetivo, após várias tentativas: inserir o participante Paulo no grupo de discussão da turma.
A seguir apresento minhas notas de campo como forma de tornar mais claro o desenrolar de nossa interação.
Como o participante Paulo não conseguiu se juntar ao grupo de sua turma (ELT), realizamos o chat, ele e eu. Na verdade, o nosso chat foi uma tentativa de solucionar os problemas técnicos que surgiram em relação à ferramenta.
Embora ele tivesse sido convidado a participar do grupo, não conseguia, porque não recebia os convites enviados, e vários foram enviados.
Paralelamente à nossa tentativa de solucionar os problemas, o participante Paulo interagia com o participante Fernando, também à procura de uma solução. O seu empenho era evidente.
Como Fernando estava on-line no grupo, informei a ele o problema que ocasionava a impossibilidade de Paulo ser adicionado ao grupo de discussão. Foi então que Fernando fez uma pesquisa rápida e me passou um link com algumas informações que poderiam solucionar o problema. Enviei o mesmo link a Paulo o que nos auxiliou a encontrar a solução.
É preciso acreditar... As experiências podem nos impulsionar para a aprendizagem.
O que mais me chamou a atenção durante o processo foi a interação ocorrida entre os participantes. Todos se empenharam na solução do problema. O uso do inglês esteve presente durante todo o desenrolar do chat.
(Notas de campo da pesquisadora, 16 nov. 2012)
Tendo como referência o evento narrado, fiquei pensando sobre até que ponto estávamos preparados para interagir por meio da ferramenta proposta. Não imaginei que problemas como esse pudesse ter demandado tanto envolvimento de nossa parte. Parece que tive a falsa concepção de que os alunos, em geral, já estão totalmente inseridos no contexto das tecnologias digitais, o que não procede. Assim como eu mesma não me encontrava letrada digitalmente, percebi que os outros participantes também não estavam.
Pude perceber, também, de uma forma bem mais evidente, que a falta de letramento digital para uma ação específica de um participante, aparentemente simples – ingressar no grupo de discussão, ao invés de frustrar os participantes, fazendo-nos desistir da atividade, fez com que nossa curiosidade fosse aguçada e o desafio em solucionar o problema se intensificasse em todos nós, em busca da construção de conhecimentos sobre o ambiente digital.
As ações empreendidas fizeram com que houvesse um senso de colaboração entre todos a fim de, conjuntamente, solucionar o problema da impossibilidade de conexão de um deles. Minha atuação voltou-se para o gerenciamento, incentivando os alunos a buscarem a construção social do conhecimento (PAIVA, 2010). A respeito desse trabalho conjunto, Kenski (2007, p. 105) defende uma ação docente mediada pelas tecnologias digitais como um trabalho partilhado, o que implica dizer que, por meio do envolvimento de todos – aluno, professor e tecnologia –, a interação se transforma em um “movimento de descobertas e aprendizado”. Isso me pareceu ocorrer em alguns momentos de nossas interações, especialmente, nesse evento que aqui analiso.
Cabe ainda ressaltar a autonomia na navegação demonstrada pelo participante Fernando. Ele demonstrou ser autônomo ao buscar, espontaneamente, conhecimento que pudesse nos auxiliar a lidar no ambiente digital e, além disso, a postura de compartilhar com o grupo, sem que para isso tivesse que ouvir a minha solicitação. Suas ações são representativas do típico aluno virtual que assume uma atitude participativa e ativa, conforme defendem Maia e Mattar (2007).
Sem perder de vista o objetivo da comunicação que ocorreu sempre em inglês, vimos que além do aspecto linguístico, também o letramento digital dos participantes foi implementado por meio da ação conjunta dos participantes envolvidos no evento comunicativo. Nesse aspecto, remeto-me a Vygotsky (2000) que aponta as relações interpessoais como responsáveis pelo e definidoras do processo cognitivo dos indivíduos, estando esse processo sujeito a uma ação interativa entre esses indivíduos.
Foi bem legal a busca de solução de um determinado problema com o uso do inglês no meio disso. [...] realmente gosto de atividades que envolvem solução de situações-problema e acredito que isto deveria ser mais trabalhado nas escolas, tanto aplicado a LI quanto a outras disciplinas.
(Relato do participante Fernando, ao compor sentido da experiência, 17 set. 2013)
O participante Paulo, também, teceu comentários sobre o evento vivido, os quais se encontram no relato da figura 18, enviado por e-mail.
Figura 18 – Relato do participante sobre a realização do chat em inglês
Fonte: E-mail enviado pelo participante Paulo
O chat realizado com o participante Paulo ocorreu na modalidade professor/aluno. Pelo fato de não ter conseguido ingressar no grupo, acabamos por realizar o chat a dois, o que não deixou de ser uma experiência igualmente interessante. Por meio de sua fala no relato (figura
18), percebi que ele sentiu que o chat realizado não teria valor, embora tivesse dito aos participantes que poderíamos interagir a dois, e não apenas em grupo.
Na verdade, a experiência foi interessante, pois, segundo suas próprias palavras no e-
mail acima (Figura 18), foi uma forma diferente de interação, em que pôde interagir comigo em inglês e ter também a possibilidade de uma aprendizagem mais significativa. A solução do problema de adesão ao grupo também pode ser somada a essa aprendizagem, pois o participante teve que mobilizar suas ações em busca de superar um problema naquele momento, o que também se configura como uma experiência de aprendizagem. Dewey (1976) aponta para a importância de o educador utilizar de situações concretas, sejam físicas ou sociais, que possam conduzir o aluno a novas experiências de valor para a sua aprendizagem.
Apresento, em seguida, outra história em que abordo a expectativa de mais um encontro
on-line.