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Solvabilidade da demanda e financiamentos públicos

5.2 O problema da moradia produzida pela indústria da construção

5.2.2 Solvabilidade da demanda e financiamentos públicos

Trata-se da relação entre o valor da moradia comparativamente ao poder de compra da população. Como vimos, o monopólio da propriedade da terra tem um papel fundamental na determinação do valor de venda da moradia, na medida em que tem o poder de tensionar o mercado da incorporação imobiliária a pagar alto pelo preço da terra. Quanto maior a disputa (capitalista) por solo urbano, maior o preço da terra. Ao mesmo tempo, o modo de produção capitalista estabelece aos trabalhadores o salário-mínimo, cujo valor é determinado pelo custo (mínimo) da reprodução da sua força de trabalho. Engels define bem esta realidade:

a crise da habitação não existe em si; é conseqüência da forma como se dá a produção e a distribuição de riqueza no modo de produção capitalista, o qual, por estar baseado na exploração da força de trabalho, na extração da mais-valia, reduz o salário dos trabalhadores ao nível mínimo de subsistência [...] e permite a especulação imobiliária. (ENGELS, 1872 apud GUIMARÃES, 1986, p.05).

Paul Singer, no texto O Uso do Solo Urbano na Economia Capitalista, faz uma análise da situação:

Em última análise, a cidade capitalista não tem lugar para os pobres. A propriedade privada do solo urbano faz com que a posse de uma renda monetária seja requisito indispensável à ocupação do espaço urbano. Mas o funcionamento normal da economia capitalista não assegura um mínimo de renda a todos. Antes, pelo contrário, este funcionamento tende a manter uma parte da força de trabalho em reserva, o que significa que uma parte correspondente da população não tem meios para pagar pelo direito de ocupar um pedaço do solo urbano. Esta parte da população acaba morando em lugares em que, por alguma razão, os direitos da propriedade privada do solo não vigoram (SINGER, 1982, p.33).

Ainda como condições que inibem uma demanda solvável pela habitação, podemos considerar a histórica desigualdade na distribuição da renda e da propriedade privada no Brasil, que reproduz a concentração da renda e do poder na mão de poucos. Também os baixos salários, a instabilidade do emprego formal e o alto índice de emprego informal, a falta de financiamento de longo prazo e juros baixos, especialmente direcionados ao segmento da população com renda de até três salários mínimos, no qual se concentra o maior índice do déficit habitacional brasileiro, são fatores que podem explicar a insolvabilidade da demanda por habitação.

Diante disso, a produção da habitação popular passa a depender da existência de financiamentos que solvabilizem a demanda. A intervenção do Estado no sistema financeiro torna-se necessária para garantir o fluxo de capital através de sistemas financeiros especializados.

O principal agente financiador de habitações populares no Brasil, através de ações governamentais (após o fracasso do BNH), é a CEF, com recursos provenientes do FGTS. A CEF constitui-se no órgão gestor do Ministério das Cidades e é responsável por cerca de 80% dos financiamentos imobiliários no país.

Dentre os programas atualmente destinados à habitação de interesse social podemos destacar o Programa de Arrendamento Residencial49 (PAR), o

Programa de Crédito Solidário50, o Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social51 (PSH) e o Programa Habitar Brasil52.

Contudo, na história recente, esses programas têm mostrado pouca capacidade para enfrentar o problema habitacional brasileiro. O próprio déficit habitacional, chegando a oito milhões de moradias e em crescimento, de acordo com a Fundação João Pinheiro e Ministério das Cidades, vai ao encontro da afirmação de que:

49 “O Programa de Arrendamento Residencial (PAR) criado em abril de 1999, é uma parceria entre CEF, Prefeituras e setor privado. Não se trata propriamente de um financiamento: o usuário é arrendatário do imóvel e paga taxas mensais de arrendamento; ao final de um contrato de 15 anos, tem a opção de compra, mediante pagamento de valor residual, se houver. A população contemplada deve ter renda familiar de pelo menos três salários mínimos, o que por si só já exclui grande parte da população.” (RICARDO, 2008, p. 55).

50 “O Programa Crédito Solidário destina-se a famílias organizadas em Cooperativas ou Associações e que tenham renda familiar bruta mensal de até três salários mínimos, admitindo- se parte das famílias com renda de até cinco salários mínimos (20% de cada grupo em regiões metropolitanas e capitais estaduais, e 10% nos demais municípios e áreas rurais). Essa linha de financiamento se distingue das demais porque o dinheiro é gerido diretamente pelas associações, e não pelo poder público ou pelo setor privado. Nesse sentido, é uma conquista do movimento social por moradia. Porém ela tem enfrentado inúmeras dificuldades, dentre elas, o fato de todo o aparato administrativo e burocrático da CEF e das Prefeituras ser bem mais adequado à produção convencional pelo setor privado do que a uma produção na qual os processos decisórios são, ao menos em tese, democráticos e cabem aos próprios grupos de moradores.” (RICARDO, 2008, p.56/57).

51 “O Programa de Subsídio à Habitação de Interesse Social (PSH) visa atender aos segmentos populacionais de localidades urbanas e rurais com renda familiar bruta mensal entre R$ 150,00 e R$ 900,00, sob a forma de subsídio e contrapartida oferecida pelo parceiro, isto é, Estados, Municípios, companhias municipais e estaduais de habitação e entidades privadas sem fins lucrativos da área rural. Este programa apresenta diversas modalidades de financiamento, dentre as quais construção ou aquisição de unidades habitacionais, produção ou aquisição de lotes urbanizados e requalificação urbana.” (RICARDO, 2008, p.57).

52 “O programa Habitar Brasil do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) objetiva intervenções em assentamentos denominados subnormais, localizados em regiões metropolitanas, capitais de estados e aglomerações urbanas, por meio de dois subprogramas: -Desenvolvimento Institucional de Municípios (DI), que visa a melhoria da capacidade institucional dos municípios para atuar em favor das condições habitacionais das famílias de baixa renda;

-Urbanização de Assentamentos Subnormais (UAS), que visa a implantação de projetos integrados de urbanização de assentamentos subnormais, compreendendo regularização fundiária, implantação de infra-estrutura urbana e recuperação ambiental.” (RICARDO, 2008, p. 57/58)

grande parte da população brasileira ainda está excluída de todos esses programas, seja pelo excesso da demanda que exaure os recursos destinados aos programas habitacionais ou pelo fato de muitas famílias não se enquadrarem nos perfis econômicos exigidos, que definem desde a renda familiar propriamente dita até a ausência de quaisquer pendências financeiras. (RICARDO, 2008, p.58).

Assim, apesar da intervenção pública através principalmente do financiamento à habitação popular, tem-se que a impossibilidade da questão da habitação em dissociar-se da renda da propriedade privada da terra urbanizada, e esta, do modo de produção capitalista, no qual ela é gerada, faz com que perpetue-se a inadequação da indústria da construção em atender às demandas dos segmentos mais pobres da população.