3.1 INCONSCIENTE PESSOAL E INCONSCIENTE COLETIVO
3.1.1 Sonhos
Os símbolos provêm do inconsciente, e com maior frequência são criados
“espontaneamente, na forma de sonhos” (JUNG, 2016, p. 21), os quais são considerados por Jung (2016) “o material fundamental e mais acessível” para se investigar a faculdade humana de produzir símbolos (p. 34).
Há uma diferença fundamental, que não esteve explícita o bastante até então, entre os símbolos presentes em sonhos e os presentes noutras fontes, tais como contos de fadas e textos mitológicos. Os sonhos, apesar de terem símbolos que provêm do inconsciente coletivo, estão repletos de individualismos, e requerem de cada interpretação que leve em conta pelo menos boa parte da vida do sonhador, não havendo espaço para uma interpretação “objetiva” (no sentido de ser aplicável aos sonhos de outras pessoas). Já os contos de fadas, por exemplo, têm
32 Mitologias — englobamos também as religiões e todos os “mistérios”, pois compartilham um “caráter mítico”.
um caráter mais objetivo, pois à parte de sua linguagem simbólica, não dizem respeito à vida de uma pessoa em particular (JUNG, 1980; VON FRANZ, 1997).
Além da criação de símbolos, os sonhos comumente revelam os aspectos inconscientes de um determinado acontecimento,33 ou apontam para desequilíbrios na personalidade que precisam ser tornados conscientes para sua manutenção.34
Evidenciando esses aspectos inconscientes, os sonhos também influenciam nossa percepção sobre outras pessoas, “aconselhando” que nos aproximemos ou nos distanciemos de alguém. Isso nem sempre é nítido, devido à possibilidade de estarmos projetando nossa sombra
— isto é, alguém que conhecemos pode aparecer em nossos sonhos como uma pessoa desagradável, mas é possível que esta pessoa esteja representando um aspecto negativo de nossa personalidade, que externalizamos (VON FRANZ, 2016b). Para interpretarmos esses sonhos corretamente, Von Franz (2016b) diz que “é necessário uma atitude honesta e atenta e um cuidadoso raciocínio” (p. 295). Isso ajuda a saber se a mensagem trazida pelo inconsciente é objetiva ou simbólica.
Conforme implícito até agora, os símbolos são a ponte que media nossos inconsciente e consciente. Quando há uma comunicação entre inconsciente e consciente, há certo movimento rumo à homeostase psíquica. Diz Jung (2016) que “[p]ara benefício do equilíbrio mental e mesmo da saúde fisiológica, o consciente e o inconsciente devem estar completamente interligados, a fim de que possam se mover em linhas paralelas” (pp. 59–60).35 Por esse ângulo, os símbolos são importantes no processo de individuação porque representam “tentativas naturais na reconciliação e união dos elementos antagônicos na psique” (JUNG, 2016, p. 126).
Caracterizando os sonhos um processo natural rumo à essa homeostase, sua importância é inegável. Apesar disso, a consciência resiste às mensagens que o sonho busca transmitir, por ser inconsciente, desconhecido e comumente ameaçar a forma positiva como nos enxergamos. Jung (2016) identifica essa resistência, com terminologia emprestada dos antropólogos, como misoneísmo, “um medo profundo e supersticioso do novo” (p. 31).
Se o inconsciente do indivíduo é caracterizado por muitos conteúdos reprimidos ou negligenciados, relegados ao inconsciente, essas forças oníricas instintivas que nos
33 Junto a essas “revelações”, os sonhos frequentemente fazem associações que a mente consciente não percebeu.
Algumas das mais famosas “descobertas” e “invenções” chegaram aos seus expoentes através de sonhos, tais como a forma do DNA, a estrutura do benzeno, do átomo, a máquina de costura, e diversas outras.
34 Para informações sobre esse tópico, cf. a “função compensatória” dos sonhos, em Jung (2010; 2016).
35 O inconsciente também se faz útil para o pensamento científico racional, por oferecer um importante complemento irracional ao raciocínio “linear” da lógica (JUNG, 2016).
propulsionam ao equilíbrio tornam-se deformadas, passando a lidar com essa espécie de conteúdo, ao invés de expressar “símbolos e motivos fundamentais” (JUNG, 2016, p. 78).
Mas se o inconsciente busca se fazer entendido através dos sonhos, por que suas mensagens são frequentemente tão ambíguas? Para Jung (2016), quando o conteúdo subliminar da psique se aproxima da consciência, se apaga. Isso porque o estado subliminar de conservação de ideias apresenta menos tensão do que o estado consciente. Além disso, como os sonhos possuem conteúdo simbólico, oferecem mais de uma interpretação possível, relacionando-se com coisas inconscientes ou parcialmente conscientes. O autor considera que a consciência é incapaz de interpretar, sozinha, o simbolismo dos sonhos, e por isso necessita de ferramentas36 que melhor lidem com mensagens do inconsciente — em particular, a intuição.
Para a interpretação dos sonhos, Jung (2016) identifica dois pontos essenciais que devem ser levados em conta: o primeiro é a suposição prévia de que eles têm sentido, e o segundo, sua aceitação como expressões específicas do inconsciente. Apesar de os sonhos, entre diferentes pessoas, frequentemente apresentarem elementos parecidos (tais como medo de altura, perda de dentes, roupas impróprias em lugar público etc.), o significado deles é subjetivo, e por isso devem sempre ser contextualizados.
Os sonhos formam padrões, segundo Von Franz (2016b), com a aparição e desaparecimento de conteúdos simbólicos específicos, que são alterados ao longo da vida do indivíduo. Essas alterações ocorrem mais rapidamente se o sonhador tiver sua atitude consciente alterada pela interpretação de seus conteúdos inconscientes. Acompanhando uma progressão de sonhos de um mesmo indivíduo a longo prazo, a autora explica, pode-se observar uma tendência reguladora que fomenta um crescimento psíquico lento e imperceptível. Essa tendência, no modelo junguiano, provém do self que mencionamos.37
Já os símbolos (como linguagem onírica), ao mediarem a comunicação entre consciente e inconsciente, são capazes de nos colocar em contato com conteúdos reprimidos e negligenciados, conteúdos estes que são obstáculos a serem superados em nosso processo de
36 Henderson (2016) destaca que a utilidade do psicanalista (junguiano) se manifesta especialmente no auxílio dessa interpretação de símbolos, devido à sua experiência na análise de sonhos e amplo conhecimento de símbolos e motivos mitológicos. Dito isso, a análise dos sonhos “é menos uma técnica que se pode aprender e aplicar de acordo com as regras do que uma permuta dialética entre duas personalidades. Se tratarmos a análise como uma técnica mecânica, perde-se a personalidade psíquica da pessoa que sonha e o problema terapêutico fica reduzido a uma simples interrogação: qual das duas pessoas em jogo — o analista ou o sonhador — dominará a outra?”
(JUNG, 2016, p. 68).
37 A concepção de uma força-guia interior que auxilia o indivíduo também não é recente. Ideias similares (se as interpretarmos simbolicamente) têm aparecido em diversas formas ao longo da história, como o daimon (“espírito tutelar”) dos gregos, o Ātman (“essência”, dentre diversos significados) dos hindus, e o espírito ou guia interior de diversas religiões xamânicas, como o “Grande Homem” dos naskapi (cf. VON FRANZ, 2016b), por exemplo.
individuação. O contato consciente com esses conteúdos é capaz de atenuar seus efeitos negativos, auxiliando em sua integração na totalidade de nosso ser. Em vista disso, os símbolos nos são úteis na compreensão do indivíduo, contribuindo para seu equilíbrio e desenvolvimento psíquico, a fim de que ele resolva certas debilidades que comumente lhe escapam à consciência, rumo à autodependência moral e psíquica que caracteriza o processo de individuação (JUNG, 2016; KAST, 2016; MOORE, 2003).
Juntando a importância dos símbolos com a do indivíduo, Jung (2016) diz que
[o] indivíduo é a única realidade. Quanto mais nos afastamos dele para nos aproximarmos de ideias abstratas sobre o Homo Sapiens, mais probabilidades teremos de erro. [...] Para [observarmos as qualidades mentais e morais do ser humano] na sua justa perspectiva precisamos, porém, entender tanto o passado do [H]omem quanto o seu presente. Daí a importância essencial de compreendermos mitos e símbolos (JUNG, 2016, p. 69).
Os mitos, como fonte de conteúdo arquetípico, exprimem o que acontece nas profundezas da psique, ao mesmo tempo que, num nível mais amplo, canalizam as energias emocionais da sociedade rumo a mudanças, o que se faz muito necessário em períodos de transição civilizacional. Nesses casos, os mitos dão “forma e expressão ao significado das poderosas realidades da experiência humana em tempos de reorientação e mudança de cultura”
(PERRY, 1987, p. 8, tradução nossa).
Com esta exposição, esperamos que a relação básica entre inconsciente, sonhos e símbolos a partir da perspectiva junguiana esteja esclarecida, além de sua presença e enorme importância em nossas vidas. Essa relação é vital para compreendermos a individuação como um processo de crescimento psíquico. Um contato sólido com o inconsciente é fundamental não somente para que nos conheçamos melhor e entendamos “por que” agimos de certa forma, mas para que alcancemos um verdadeiro equilíbrio e, por conseguinte, uma saúde psíquica.
A fim de perscrutarmos o processo de individuação no capítulo 4, tendo como base os conceitos até aqui apresentados, iremos nos aprofundar nos “arquétipos” a seguir — as manifestações do inconsciente coletivo, tal como são conceituadas por Jung.