PARTE I – Fundamentação Teórica
3. Sons problemáticos para aprendentes de PLE
Quando questionados sobre os aspetos da língua portuguesa que mais dificuldades lhes oferecem na aprendizagem, a resposta dos alunos é quase invariavelmente a mesma: “a pronúncia”, querendo referir-se à articulação de determinados sons do nosso sistema fonológico.
Conforme referimos na secção 2 desta fundamentação teórica, muitas das dificuldades dos alunos estrangeiros na articulação dos sons do português estão diretamente relacionadas com as características do sistema sonoro das suas línguas maternas. A não existência de alguns sons do português no inventário sonoro das suas línguas é, por vezes, a causa de algumas dificuldades. O seu bom desempenho articulatório depende também do domínio que têm de outras línguas, “no qual todo o conhecimento e experiência se interrelacionam e interagem” (QECR, 2001: 24), e finalmente, da sua aptidão natural (Wilkins, 1972) ou habilidade fonética (Kenworthy,1987).
No âmbito deste relatório, desenvolvemos um trabalho pedagógico-didático com um grupo de alunos, apresentado em detalhe na segunda parte, no âmbito do qual responderam a diversas questões, entre as quais a de elencar os sons do português europeu que lhes ofereciam mais dificuldades (cf. Anexo 1). Embora procedamos à sua análise pormenorizada na segunda parte do relatório, parece- nos ser este momento oportuno para anteciparmos alguns resultados, tanto mais que os comparamos com os resultados a que Soeiro (2009) e Alves (2013) chegaram no contexto dos seus trabalhos, respetivamente Dificuldades dos Hispano-falantes na Aprendizagem da Pronúncia do Português Língua Estrangeira e Dificuldades dos Falantes de Línguas Eslavas na Aprendizagem da Pronúncia do Português Língua Estrangeira.
Apesar de as dificuldades diferirem de aluno para aluno e de L1 para L1, há alguns sons recorrentes na lista dos sons problemáticos dos aprendentes de português língua estrangeira, que enunciamos de seguida:
Os sons orais vs sons nasais do português europeu
A articulação das vogais orais constitui habitualmente uma dificuldade para os alunos, tendo [ɐ], [ɔ], [o], [ε], [e] e [ɨ] sido as vogais mais vezes referenciadas pelos nossos alunos (Cf. anexo 1).
Alves (2013) atribui algumas dificuldades dos seus alunos eslavos na articulação de algumas vogais do português europeu ao facto de o sistema vocálico do polaco e do russo só compreenderem três graus de abertura enquanto o português europeu tem quatro. Como o polaco não tem as vogais semifechadas [o], [e], nem a vogal semiaberta [ɐ], os alunos revelam dificuldades na articulação destes sons, articulando em seu lugar, respetivamente, [ɔ], [ε] e [a]. Ao invés, os alunos russos não têm no seu inventário sonoro as vogais semiabertas [ε] e [ɔ], substituindo-as pelas correspondentes vogais semifechadas [o] e [e], quando falam português.
Por seu lado, Soeiro (2009) constatou que os alunos hispano-falantes manifestaram dificuldades na articulação de vogais orais que não fazem parte do sistema fonológico do castelhano, como as semifechadas [e] e [o], a semiaberta central [ɐ], bem como a vogal fechada central [ɨ].
No quadro 10, comparando os resultados para os hispano-falantes, os polacos, os russos e o grupo ‘outros’, que integra os nossos estudantes, constatamos que as únicas vogais não referidas por nenhum grupo de alunos como sendo difíceis de articular foram as vogais [a], [i] e [u] porque são vogais universais, ou seja, quase todas as línguas têm estas vogais.
Quadro 10- Esquema das vogais orais que oferecem dificuldades na sua articulação a falantes de proveniências várias (outros), hispano-falantes, polacos e russos.
altas ou fechadas [i] [ɨ] [u] médias-altas ou semifechadas [e] [ɐ] [o] médias-baixas ou semiabertas [ε] [ɔ] abertas ou baixas [a]
anteriores centrais recuadas ou posteriores
outros hispano-falantes polacos russos
As vogais nasais e os ditongos nasais representam uma dificuldade ainda maior, uma vez que muitos sistemas fonológicos não têm sons nasais. Segundo Alves (2013), o sistema sonoro russo é um deles: não possui nem vogais nem ditongos nasais. O polaco, por sua vez, não tem ditongos nasais e, quanto à existência de vogais nasais, não há consenso entre os linguistas. O castelhano não possui vogais nasais, revelando os alunos espanhóis muita dificuldade na sua articulação.
Os sons que reúnem maior consenso entre os nossos alunos, quanto às dificuldades que oferecem, são as vogais e os ditongos nasais. Apresentamo-los a seguir, respetivamente, por ordem de dificuldade: [õ], [ɐ͂], [ ĩ ], [ẽ], [ũ] e [ɐ͂ j~], [õj], [ɐ͂w̃] e [uĩ].
Consoantes vozeadas vs não vozeadas
O vozeamento ou não vozeamento das consoantes oclusivas e fricativas constitui um traço distintivo no português. Há línguas, porém, que não possuem esta oposição nas oclusivas [p]-[b], [t]-[d] e [k]-[g], nem nas fricativas [f]-[v], [s]-[z] e [
∫
]-[ʒ], constituindo a sua diferenciação uma dificuldade articulatória para alguns aprendentes. Por exemplo, o mandarim só possui oclusivas e fricativas surdas. Por outro lado, observamos que os alunos indianos têm dificuldade em fazer a oposição entre as fricativas vozeadas e as não vozeadas. Também o finlandês não possui, no seu sistema fonológico, as consoantes oclusivas sonoras. Os alunos hispano-falantes, de acordo com Soeiro (2009), revelam muitas dificuldades na realização da fricativa lábio-dental sonora [v], bem como nasfricativas predorso-alveolares [s] e [z] e nas predorso-prepalatais [
∫
] e [ʒ] que não conhecem da sua língua materna.Os nossos alunos mencionaram, como sendo difíceis de articular, as fricativas predorso-prepalatais [∫] e [ʒ] e a lábio-dental sonora [v].
As consoantes palatais [ʎ] e [ɲ]
As consoantes palatais oferecem dificuldades aos alunos russos que não têm estes sons na sua língua materna. Os polacos e os hispano-falantes apenas têm problemas com a palatal lateral [ʎ]. Este som é, igualmente, apontado pelos nossos alunos como difícil de articular.
A lateral velarizada [ ł ]
No português europeu, o /l/ em final de sílaba ou palavra velariza. No questionário apresentado aos nossos alunos, este som integra o grupo dos mais difíceis de articular, o que foi uma surpresa para nós.
A oposição entre a lateral [ l ] e a vibrante simples [ɾ]
Algumas línguas não têm a oposição entre estas duas consoantes alveolares que têm pontos de articulação muito próximos. O japonês e o mandarim, por exemplo, não conhecem a vibrante simples [ɾ], articulando os seus falantes, quando aprendem português, sempre a lateral [l].
A oposição entre a vibrante múltipla pósdorso-uvular [R] e a vibrante simples ápico-alveolar [ɾ]
No português, estas duas vibrantes têm uma função distintiva, o que não acontece em outras línguas. Como vimos anteriormente, os alunos chineses não têm na sua língua materna a vibrante simples, logo não a distinguem da vibrante múltipla. O mesmo acontece com os alunos polacos e russos, cujas línguas maternas também não possuem uma oposição distintiva entre as vibrantes múltipla [R] e a simples [ɾ], revelando estes alunos dificuldades na realização do [ɾ]. Dificuldade semelhante experimentam os alunos alemães, cuja língua materna não possui a vibrante simples. Com os hispano-falantes acontece o inverso. A sua dificuldade reside na articulação da vibrante múltipla posdorso-uvular [R], ausente do sistema fonológico do castelhano. No entanto, podem estes alunos substitui-la
pela vibrante múltipla ápico-alveolar [r], admissível em português nos mesmos contextos de ocorrência.
No questionário dirigido aos nossos alunos, a vibrante múltipla posdorso- uvular [R] figura entre as consoantes mais difíceis de articular.
Constituindo os sons elencados aqueles que, no sistema fonológico português, representam um maior desafio para os aprendentes de português língua estrangeira, é fundamental considerar as metodologias de ensino da pronúncia mais adequadas para a sua abordagem em sala de aula.