4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.7 Sorotipagem das cepas isoladas:
Foram isoladas oito cepas de Salmonella spp. ao longo das diferentes fases do experimento, assim distribuídas: duas cepas em alimentos (caroço de algodão e núcleo mineral protéico) quatro cepas em fezes retais (1 Nelore e 3 Aberdeen Angus) e duas cepas em carcaças (2 carcaças Simental ½ sangue com Nelore). De acordo com a sorotipagem realizada pelo Instituto Adolfo Lutz de São Paulo, foram identificados dois diferentes sorotipos: Salmonella Mbandaka e Salmonella Tennesee. O primeiro contaminando o caroço de algodão e o segundo presente no núcleo mineral protéico, fezes retais e
carcaças dos novilhos. Embora não possamos estabelecer uma correlação direta entre a presença dos sorotipos encontrados nos alimentos, fezes e carcaças, visto que estas últimas não eram provenientes dos novilhos em que as fezes mostraram-se positivas para Salmonella, é fato que esses animais estavam expostos à mesma alimentação contaminada (caroço de algodão e núcleo mineral proteico). Mesmo aceitando a hipótese de ser o sorotipo identificado na carcaça originário de contaminação cruzada com outros animais abatidos e não pertencentes ao experimento, há fortes evidências de tratar-se da mesma cepa identificada no confinamento. Afinal, o sorotipo S. Tennessee foi isolado na alimentação servida ao rebanho, quatro desses animais apresentaram-no em suas fezes e dois outros em suas carcaças.
A confirmação desta hipótese, no entanto, só poderá ser feita com o emprego de técnicas de biologia molecular, não previstas inicialmente nesta pesquisa, mas que agora assumem uma importância muito grande, visto que podem esclarecer a rota de disseminação da bactéria na cadeia produtiva da carne.
Em relação aos sorotipos identificados, os mesmos já haviam sido isolados em nosso país por Berchieri-Jr et al. (1984), ao pesquisarem farinhas de origem animal em três fabricas do estado de São Paulo. Salmonella Mbandaka e Salmonella Tennessee foram citados contaminando farinhas de pena e carne, respectivamente.
No trabalho de Dargatz et al. (2000) que analisou fezes bovinas, o sorotipo S. Mbandaka aparece em 5,1% das 78 amostras isoladas para
Salmonella spp. estando presente dentre os 10 sorotipos mais frequentemente
Veterinary Services Laboratories (NVSL). Para os autores, sorotipos como esse, outrora não isolados nos bovinos, merecem atenção especial por serem potencialmente patógenos emergentes.
Resultados semelhantes aos de Dargatz et al. (2000) foram obtidos por Beach et al., (2002b), já que em rebanhos bovinos confinados e naqueles criados de forma extensiva, Salmonella Mbandaka correspondeu a 7,5% e 5% dos isolamentos, respectivamente. Quanto ao sorotipo S. Tennessee, Beach relatou uma positividade de 1,9% apenas no rebanho extensivo. Ambos os sorotipos estavam entre os cinco mais isolados na pesquisa.
Em nosso trabalho houve uma maior prevalência de Salmonella Tennessee (87,5%) quando comparada a Salmonella Mbandaka (12,5%). Entretanto, como o número isolado de cepas do patógeno foi muito pequeno e pontual ao longo do experimento, torna-se difícil estabelecer um padrão de comportamento destes sorotipos dentro do sistema de produção estudado. Além disso, como a literatura nacional não apresenta dados até o momento sobre levantamentos semelhantes a esse, não é possível correlacionar as informações dessa pesquisa com um provável perfil de contaminação para alimentos, fezes ou carcaças bovinas no Brasil. Contudo, Davis et al. (2003) lembram que independentemente da distribuição que os diferentes sorovares de Salmonella assumem em amostras de subprodutos ou surtos em humanos, de forma alguma essas diferenças minimizam a importância dos alimentos de origem animal na epidemiologia das salmoneloses no Homem.
No Brasil isto é particularmente importante, tendo em vista ser o nosso país atualmente o principal produtor mundial de carne bovina. Paradoxalmente, são escassos os dados relativos à prevalência de Salmonella spp. em nossos
rebanhos, tanto os criados extensivamente (a grande maioria) como os submetidos a regimes de confinamento. Cabe salientar que esses sistemas de criação que possibilitam o abate precoce dos animais, geralmente direcionados ao mercado externo, vêm ganhando importância em nosso país, o que torna necessária a realização de pesquisas sobre a segurança das carcaças obtidas a partir de tais manejos zootécnicos.
Neste sentido, os dados obtidos no presente trabalho, embora revelem uma baixa prevalência do patógeno tanto nos animais vivos quanto nas carcaças produzidas, devem servir de base para a realização de estudos adicionais, especialmente sobre a participação de roedores na disseminação dos sorotipos de Salmonella nas unidades primárias de produção em nosso país.
5. CONCLUSÕES
Com base nos resultados obtidos, conclui-se que:
1. - A prevalência de Salmonella spp. nos novilhos confinados sob regime experimental mostrou-se baixa.
2. - Embora pontual, a contaminação pelo patógeno de alguns ingredientes da ração final pode ter se refletido no aparecimento de carcaças contaminadas, resultantes de falhas ocorridas durante o processo de abate.
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