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sos que se geram dentro de uma mesma cápsula”, nas palavras de R

Rosdolsky (1976, p. 63). Nessa direção, cremos ser possível

alinhavar, na linha de alguns marxistas contemporâneos, um outro ponto de partida que permite uma releitura mais fecun­

da da problemática latino-americana, a partir da especificidade das leis gerais capitalistas em condições periféricas de realiza­

ção e, muito em particular, em alguns de seus espaços nacio­

nais de acumulação.

Um modelo alternativo

A principal dificuldade desta “releitura marxista” foi sinteti­

zada pelo alemão a J. Hirsch,

(...) the theoretical investigation of the State cannot be limited to the conceptual development of the law of valué and the analysis of “capital in general” but must embrace the whole ofthe social, political and national conditions of the production of the social formation, conditions which are subject to certain historical processes of transformation (1980, p. 82).

A novidade dessa proposta está em considerar as relações de luta e dominação política como co-constitutivas do próprio Capital, que se valoriza e se expande de forma contraditória, produzindo e reproduzindo, suas relações econômicas e políticas num só processo histórico-concreto. As formas institucionais do próprio Estado seriam explicadas pela luta entre as classes e suas frações e pela competição entre os vários capitais individuais, implícitas no mesmo processo de valorização. E as crises políticas seriam em parte resultantes dos conflitos que empurram e limitam a eficácia da intervenção econômica e política do Estado, no pro­

cesso social da valorização do Capital.

Como conseqüência, é impossível deduzir uma teoría do Estado a partir de urna lei cuja eficácia passa, também, pelo próprio Estado. Ao contrario — e ai reside a dificuldade —, a proposta é que se pense o Estado como dimensão do capital em geral e a valorização como um processo econômico e po­

lítico, a um só tempo. Em função disso, inevitavelmente, as leis do capital e de sua valorização adquirem e readquirem universalidade, tão-somente no âmbito dos variados proces­

sos histórico-concretos, onde as lutas sociais e políticas me­

diadas pelo Estado.

Atribui-se, assim, papel central à ação político-econô­

mica do Estado, que, em geral, é vista — de forma semán­

ticamente incorreta — como uma intervenção que responde a determinadas funções. Mas descartam-se, de uma só vez, as visões instrumental e estruturalista do Estado e, com elas, as propostas deducionistas. Estado e economia são vistos aqui enquanto formas da relação capitalista e, portanto, devem ser pensados em conjunto; pensados sob a perspec­

tiva da necessidade, dos limites e da forma da ação estatal nos vários momentos e contextos do desenvolvimento ca­

pitalista, aí incluídas, suas conformações tardias e perifé­

ricas.

Caberia aqui outra advertência de Hirsch:

(...) the investigation of State functions must be based on the categorial analysis of the historical course of the process of capitalist reproduction and accumulation; it must be borne in mind, however, that this is not a question of the logical deduction of abstract laws

but of the conceptually informed understanding of a

historical process

in which the objective tendencies determined by the law of valué and the capital relation assert themselves through

the mediation of concrete political movements and processes, class struggles and conflicts between individual capitais and groups of capitais on a national and on an intemational level

(Idem,

p. 82 — ênfases nossas).

Deste ponto de vista, se impõe uma rediscussão sobre a natu­

reza da ação estatal em vários momentos e contextos históri­

cos, fugindo às generalizações formais de difícil universalização.

Em primeiro lugar, seria importante entender a presença co- constitutiva do Estado na origem mercantil do capitalismo, contexto em que o Estado avalia o valor e a efetividade da mo­

eda e dos contratos, garante a circulação das mercadorias, defi­

ne espaços autônomos e auto-sustentados, assegurando com isso, como é óbvio, a propriedade privada etc. Da mesma for­

ma erq que se deve repensar o papel do Estado como garanti- dor do “interesse geral”, da eqüidade do intercâmbio e da desigualdade nas relações de produção. Assim como seu papel específico no desenvolvimento dos capitalismos tardios euro­

peus, onde cumpriu função decisiva na criação dos espaços na­

cionais unificados e na generalização das relações capitalistas. Ou, mais tarde, quando a monopolização do capital se generalizou em escala mundial, dando lugar ao aparecimento do Estado regulador ou de controle inspirado ou racionalizado por Keynes, nos países centrais. A partir deste momento, o intervencionismo estatal foi assumido pela “boa doutrina”, gerando o que alguns viram como um “capitalismo monopolista de Estado” e outros como um Estado do Bem-Estar Social.

Essa presença constante, porém descontínua, do Estado deve ser revista à luz dos cursos históricos da reprodução e acumulação, de modo a conferir-lhe algum significado teóri­

co ou permitir-lhe lastrear uma análise comparativa. Esta re­

visão requer uma correta reconstrução dos movimentos e conflitos que tornaram a presença estatal uma necessidade

“naturalizada”, muitas vezes, sob a forma ou conceito de

“funções estatais”.

Aliás, essa tarefa exigiría um abandono da própria idéia de função, que, inevitavelmente, transmite a imagem de um comportamento orgânico de uma parte (o Estado) que res­

pondería às exigências mutáveis de um todo (a acumulação capitalista). E não é disso que se trata. O Estado foi e é, em cada momento e contexto, co-produtor da necessidade e, portanto, da função que ele acaba ocupando, tal como se fos­

se um “agente reativo” bem-comportado.

Ao procedermos à análise deste tema da maior relevân­

cia sem uma releitura económico-política da história concreta do aparecimento dessas funções, cairemos sempre numa listagem formal e histórica de papéis a serem cumpridos de modo compulsório pelos vários Estados, nas diferentes “eta­

pas” do desenvolvimento capitalista. É nesta perspectiva que devem ser pensadas teoricamente tanto a expansão contínua da presença estatal — em particular depois de 1914

— ,

quan­

to a hegemonia ideológica e prática do “intervencionismo keynesiano”.

O que testemunhamos, nesse período, não foi o cresci­

mento de um Estado administrador neutro, nem, tampouco, o de um mero instrumento do capital monopolista. Mas sim de

“un viraje en las reglas del capital, impuesto al mismo capital por la presión de la lucha de clases, que expresa las contradicciones de su propria dominación; un cambio de forma de la lucha estructuralmente crítica del capital por la acumulación; un cambio que no es necessa­

riamente irreversible”

(Holloway & Picciotto, 1980, p. 93). O que ocorre depois da Primeira Guerra Mundial é tributário dos desdobramentos dessa luta pela acumulação, cujos

prin-cipais parâmetros foram definidos como resposta à Grande Crise de 30, que está na origem da “virada” de que falam Holloway e Piccioto.

Após um longo período de depressão e com a emergência de novas potências os Estados nacionais são obrigados a en­

gendrar mecanismos que objetivam evitar, postergar ou con­

trolar as crises. A partir daí, a própria lógica das decisões tomadas e das tendências históricas daí resultantes foram res­

ponsáveis pela expansão continua do aparato estatal, que teve de crescer para assegurar o adequado cumprimento das no­

vas tarefas definidas politicamente como respostas sociais e nacionais frente à crise econômica.

Nesse sentido, a discussão acerca das funções do Estado nos remete, inevitavelmente, ao problema crucial das relações entre as crises econômicas e as crises políticas, porque, como dizem J. Holloway e S. Picciotto: “las crisis no son económ icas n i políticas: son crisis de la relación capitalista, crisis que se hacen inevitables p o r ra zó n de las contradicciones inherentes a esa relación” (Id em , p. 90).

Portanto, toda crise implica a irremediável reestruturação da relação capitalista e, portanto, simultaneamente, de suas formas económicas e políticas.

Por isso mesmo, é nas crises que mais se explicitam as contradições e se agudizam os conflitos. É também esse o momento em que as decisões vitoriosas inovam as estruturas e seu movimento cíclico de reprodução e expansão no desen­

volvimento capitalista de cada sociedade concreta. Devido ao caráter disruptivo e complexo dessas conjunturas em que se redesenham os parâmetros da relação capitalista, “el resultado de la crisis no p u e d e ser anticipada sobre la única base de las exigencias dei capital en general (...) (pues) lo que está en ju eg o es un proceso de lucha, u n a lucha que se realiza p riin o rd ia lm eu te entre el capital y el

trabajo pero que, manando de esta, se da también entre los diferentes capitales y las fracciones de la clase capitalista”.

Donde,

“la restauración del processo de acumulación dependerá del resultado de estas luchas”

(Idem,

p. 92) que apontam para uma reorganização de todo o complexo de relações sociais de produção e de dominação e, portanto, também do Estado. Por isso, nas análises das crises e do Estado, o que necessitamos

“no es tan sólo un análisis formal del capital y un análisis empírico del curso de la lucha de clases, sino un análisis que encierre ambos momentos” (Idem,

p. 93).

As crises são, portanto, por excelência, o momento em que se repõem ou se refazem as relações entre as formas política e econômica da dominação. E, nesse sentido, elas são, sempre, estatais, ainda quando não impliquem alteração na forma dos regimes políticos, impondo, apenas, uma expansão ou retração na presença ativa do seu aparato no interior das relações de produção. Em síntese, se o Estado se renova permanentemen­

te na reorganização das relações sociais, é no momento das cri­

ses que essa reorganização se faz mais profunda e a inovação é mais radical.

Neste ponto, coloca-se um problema mais complexo ain­

da: o da aparente indeterminação histórica e teórica das for­

mas institucionais, ou dos regimes políticos assumidos pelos Estados, nos vários momentos dessa expansão conflituosa do capital. Também aqui não há nenhuma possibilidade de

“mecanicismos” ou “deducionismos”, pois é no plano das ins­

tabilidades institucionais que se retrata, de forma mais no­

tória, o caráter contraditório e permanentemente tenso do processo social e político de valorização.

São frágeis todas as teorias quando tentam dar conta das transformações e dos regimes a partir de fases ou etapas do

desenvolvimento capitalista, ou a partir de vias ou caminhos a que estaria submetida toda e qualquer industrialização. N es­

sa linha se inscrevem as idéias a respeito de Estados absolu­

tistas que seriam sucedidos por Estados liberal-parlamentares que, por seu turno, dariam lugar a Estados fascistas ou do Bem-Estar Social. Nessa mesma direção, situam-se as teses sobre revoluções burguesas que gerariam Estados liberais e revoluções “pelo alto, passivas” ou “conservadoras” que, pro­

cessadas através do Estado, dariam nascimento, em conseqüên- cia, a regimes de variado matiz autoritário.

Os regimes políticos, assim como as funções estatais, não são coisas que se possam deduzir teoricamente. Mas tampouco as comparações históricas permitem generaliza­

ções conclusivas sobre este tema que envolve processos his­

tóricos7 extremamente complexos de competição e luta entre classes e capitais, nos planos nacional e internacional.

Além de uma discussão suplementar, no caso latino-ame­

ricano, sobre o que seja a condição de “periferia” dentro sistema mundial hierarquizado e hegemonizado. Valem aqui as preocupações de Claudia von Braunmühl, quando diz que

“the world rnarket is not constituted by many national economies