PROCESSO DE DESLOCAMENTO NO MERCADO DE TRABALHO
38 Souza (1980), op cit , Cacciamali (1983), op cit., passim.
39 Por limitações do mercado pode ser entendido todo e qualquer fator de mercado que se anteponha entre o individuo e a realização de seus objetivos profissionais.
características pessoais, fatores que são mais acessíveis às possibilidades de ação direta individual40.
Não partilhamos das análises que enfatizam a ação de informalização dos indivíduos enquanto ações racionais numa visão em que essas ações expressam e exercitam as possibilidades de livre ação no mercado. Essa perspectiva valoriza a ação de informalização dos indivíduos no mercado, por considerar que essa ação de informalização expressa um caráter empreendedor dos indivíduos no mercado. Essas visões estariam, conforme analisam Krause e Steedman, na tradição "do 'indivíduo racional' da teoria econômica", onde o indivíduo age conforme um "único ordenamento de preferências" 41, um ordenamento de preferências estáticas no tempo, atingindo um único resultado num ponto de equilíbrio decisório no mercado - numa "racionalidade harmônica", onde os indivíduos ordenam preferên cias não conflitivas, nem mutáveis; seria uma ação decisória, onde as preferências são elencadas e concebidas como derivadas de uma única ordem de aspectos. O '"indivíduo racional" da teoria econômica é representado por uma simples, completa, transitiva e circunstancial "ordem de preferências", uma ordem de preferências linear no tempo destes indivíduos.
Um exemplo dessa visão da racionalidade do indivíduo na teoria econômica nos é dado por Bimbaum e Leca. Os autores comentam criticamente um estudo que segue a teoria econômica monetarista, na qual se analisa a ação governamental (em um dado país) de ampliação da base monetária, que cria inflação, ação que nesse estudo é vista como uma ação econômica necessária porque aquele governo era incapaz de resistir às pressões dos grupos de interesse e porque, de outra parte, 40 Não se trata de estabelecer qual o peso de cada um desses níveis de fatores que atuam no processo decisorio. Este peso depende de cada situação, e o relevante não é o peso de cada um desses fatores, mas o processo de escolha em si, ou seja, o relevante é haver a inter-relação entre dois níveis (preferências e cursos de ação plausíveis), ainda que no resultado do processo de escolha um dos níveis prepondere sobre o outro.
41 Steedman and Krause (1985), op. cit., p. 198: "...rational individual o f economic theory...single preference ordering". Grifo dos autores.
embora inflacionária, era uma medida que serviria ao governo para cortejar o eleitorado, "embalando-o em falsas esperanças". Essa análise, segundo aqueles autores, inverte a visão, básica em sua própria tradição teórica, do individuo que atua racionalmente no mercado. Este fica submetido aos sujeitos históricos "todo poderosos" que, com sua pressão sobre o governo, dominam o eleitor que fica des provido de sua racionalidade. O "assim chamado indivíduo racional fica tomado de uma esquizofrenia: enquanto ator econômico é racional, mas como cidadão é incompetente".42
O que tem sido definido como ação racional no mercado econômico é a busca de maximização dos benefícios relacionados à posição e/ou a outros objetivos particulares dos indivíduos nesse mercado. Essa ação de mercado não nos parece ser o traço que distingue o grupo entrevistado enquanto "empreendedores" de uma atividade de trabalho informal. Ao contrário, aqui, ao invés de um mercado idealmente livre, aberto e ilimitado a novos empreendimentos, temos um mercado no qual residem os fatores limitadores das preferências individuais. Os entrevistados conseguem ampliar suas possibilidades frente às limitações do mercado, na medida em que, em suas ações individuais, interagem os aspectos limitadores do mercado e outros do âmbito pessoal (preferências, crenças, família). Frente ao que não têm possibilidade de interferência individual direta para modificar (limitações do mercado), agregam de forma interativa fatores sobre os quais têm maior possibilidades de interferência individual (preferências). Eles ampliam suas possibilidades de escolha e nisso nos parece residir a expressão de sua maior "liberdade".
42 Bimbaum, Pierre and Leca, Jean, (1990), "Introduction", in Individualism. Theories and Methods. Edited by P. Birnbaum and J. Leca, Clarendon Press, Oxford, Inglaterra, pp. 1-14 .0 s autores citam o estudo de Leon N. Lindberg, "Models o f the Inflation-Disinflation Process", in Lindberg and Maier, The Politics o f Inflation. ( Washington, DC: Brookings Institution, 1985 ) pp. 37-44. "...the so-called rational individual is afflicted by schizophrenia: racional as an economic actor, he is incompetent as a citizen"
Essa "liberdade" não está limitada à maximização individual de posições isoladas no mercado; o sentido da informalização nos seus históricos ocupacionais não nos parece estar restrito a uma visão setorializada da "liberdade" no mercado. Compartilhamos da visão presente na literatura sobre o "setor informal" de que a ação de informalização otimiza as oportunidades dos indivíduos, porém sem concebermos uma valorização unilateral, polarizada na liberdade de mercado. O mais relevante parece ser o nível maior de liberdade de escolha que os entrevistados conseguem ter ao interagirem com as limitações, ao ampliarem suas possibilidades de escolha43.
Afinal, como nos ensina Rawls, a valorização da liberdade de ação, de pensamento, de respeito a valores da esfera pessoal está no próprio fato de que é essa a liberdade básica que garante e é compatível com a existência de liberdade em todos os aspectos da vida social44. Portanto, não é razoável que se valorize a liberdade dada pelo mercado na estreiteza dos limites de sua abrangência.
No processo de escolha interativa que resulta no deslocamento no mercado de trabalho, não entendemos que os entrevistados tenham uma ação de escolha que seja apenas racional nos termos propostos por Elster45. A concepção de escolha de Elster considera que a ação de escolha dos indivíduos é racional, no sentido de que escolhem a melhor ação (frente a seus desejos, preferências) no conjunto viável, escolhem a ação que é possível ser levada adiante entre um elenco plausível, 43 Como já dissemos acima, o recurso ao trabalho informal parece ser uma ampliação das possibilidades de escolha de todos os entrevistados, mesmo daqueles que não têm no trabalho informal atual o trabalho que atende a seus objetivos profissionais. Alguns destes querem permanecer no trabalho informal, outros não, conforme já visto. O relevante aqui é que todos os entrevistados, ao colocarem para si ("criarem") a alternativa de trabalho informal, ampliaram suas possibilidades de escolha frente às alternativas formais de trabalho que dispunham.
44 O que no pensamento de Rawls está intimamente relacionado a uma concepção de justiça como eqüidade, onde o acesso equânim e à liberdade e igualdade é uma proposição normativa ao funcionamento da vida social. Rawls, John. (1993), Political Liberalism. Columbia University Press, New York.
45 A questão da racionalidade da ação é aqui aludida para situar a diferença (e semelhança) entre a