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2.1 SISTEMAS REGIONAIS DE INOVAÇÃO

2.1.3 Startups, incubadoras e parques tecnológicos

No viés teórico do CVC, admite-se objetivamente o investimento de empresas estabelecidas em startups, onde necessariamente o conhecimento e a tecnologia compõem o objeto de negociação entre ambas (WADHWA; PHELPS; KOTHA, 2016).

As startups são negócios com pouco tempo de existência, geralmente informais, que estão em fase validação de premissas de negócio ou tecnologia. Nesse contexto, elas precisam estruturar suas operações, validando seu produto junto ao mercado, ou seja, aferindo a demanda e o potencial de retorno financeiro (BLANK; DORF, 2014). Esta atividade demanda simultaneamente o desenvolvimento do produto e o desenvolvimento do cliente. Em várias situações, o mercado ainda não está pronto para receber a proposta de valor da startup, isto eleva o risco e as necessidades de investimento (CONSTABLE, 2014; RIES, 2012).

Conforme a Associação Brasileira de Startups (2018), 46,26% destes negócios funcionam em um modelo Business to business (B2B), ou seja, quando a oferta é insumo para outro negócio. Apenas 500 startups deste universo são voltadas exclusivamente para a indústria mais tradicional (bens de consumo, construção civil e agronegócio). Pelo menos 31 comunidades de startups estão ativas: são fundos de investimentos, incubadoras e aceleradoras que apoiam estes negócios (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE STARTUPS, 2018).

O fator risco associado a startups, se dá pela alta taxa de mortalidade destes empreendimentos. De acordo com Arruda, Nogueira e Cozzi (2012), 25% delas encerram suas operações em até um ano. De acordo com a Startup Farm (2016), pelo menos 74% encerram suas operações ao fim do quinto ano.

Blank e Dorf (2014, p. 23) afirmam que “em uma startup os empresários definem sua visão do produto e, a partir daí, a (etapa de) descoberta do cliente procura pelos clientes e mercados que possuem essa mesma visão.” Para esses referidos autores, a busca pelo modelo de negócio ideal convém passos, iterações (melhorias contínuas a partir do feedback do cliente) e rearticulações entre diferentes atores do ambiente de negócios.

De acordo com Spina, Risola e Guillaume (2012), a startup sofre com assimetria de informações e conhecimentos quando necessita buscar apoio e investimento no mercado para amadurecer seus processos e introduzir sua inovação no mercado. O primeiro grande desafio é convencer investidores a arriscar capital financeiro e compartilhar riscos, o segundo grande desafio está na validação tecnológica e na transformação desta em produto.

Risola (2012) aponta as incubadoras e os parques tecnológicos como ambientes planejados capazes de propiciar formação complementar e proteção para os empreendedores de micro e pequenas empresas nascentes, estimulando e viabilizando o desenvolvimento de competências-chave para que o empreendimento introduza seu produto no mercado de maneira mais madura. As startups conseguem nesses ambientes gerar maior credibilidade e se conectar com outros atores empresariais e institucionais de alta relevância (RISOLA, 2012).

Os parques tecnológicos são habitats complexos que ampliam as possibilidades de interação entre startups, grandes empresas, e atores do conhecimento como Universidades e institutos de pesquisa e tecnologia (LABIAK JUNIOR, 2012). Os parques tecnológicos fomentam a economia baseada no conhecimento e favorecem o desenvolvimento científico e tecnológico de uma maneira mais aproximada do mercado, de tal forma que incubadoras e suas startups têm muito a usufruir da conexão com esses espaços (RISOLA, 2012, p. 443-444).

Phan, Siegel e Wright (2005) corroboram com esse viés ao explicar que tanto os parques tecnológicos quanto as incubadoras de empresas são instituições autônomas com a missão de acelerar ou proteger negócios nascentes de base tecnológica, induzindo a aglomeração de empresas e o compartilhamento recursos. O crescimento internacional deste tipo de instituição, a partir dos anos 1980, tem levado a um interesse cada vez maior de pesquisadores e responsáveis por formulação de políticas públicas.

Chang et al. (2012), consideram a presença de incubadoras tecnológicas no território com ponto de partida para a criação de parques tecnológicos, já que a proteção e o amparo técnico aos novos negócios é de especial importância para o desenvolvimento da cultura do empreendedorismo e da geração continuada de novas tecnologias. A crítica que se faz, é de que parques de sucesso focam na atração de criatividade, e infelizmente, alguns parques tecnológicos focam apenas na infraestrutura física.

Sociologicamente, incubadoras de empresas podem ser consideradas “micro comunidades, compostas de empresas e pessoas”, são instituições dinâmicas e que dependem do capital social (ou relacional) para atingirem seus objetivos. Desta forma, precisam estabelecer uma sinergia com o território e se inserir em redes de interesse, considerando que decisões estratégicas de negócios são tomadas muitas vezes com

base em valores socioculturais e emocionais (PHAN; SIEGEL; WRIGHT, 2005, p. 174).

O investimento em educação empreendedora e treinamentos profissionais possui uma relação direta com o amadurecimento dos novos negócios e em consequência do fortalecimento dos futuros parques tecnológicos. Isto passa necessariamente por uma priorização de pauta, que pode evidentemente considerar a transformação de um atual cluster industrial tradicional, desde que estabeleça um caminho claro de estímulo ao empreendedorismo (CHANG et al., 2012).

Somsuk, Wonglimpiyarat e Laosirihongthong (2012) avançam no sentido de as pequenas e médias empresas terem se tornado cada vez mais parte importante da economia globalizada, e que incubadoras e parques tecnológicos são vistos como mecanismos de suporte ao empreendedorismo de base tecnológica, aumentando a taxa de sobrevivência de negócios nascentes como startups, por exemplo.

Chang et al. (2012) destacam a importância da formação de parques tecnológicos como estratégia para o desenvolvimento regional, já que é um habitat de inovação que retrata bem o conceito de SRI. Os parques tecnológicos têm o propósito de integrar pesquisa acadêmica e empreendedorismo, criando oportunidades econômicas para as regiões a partir da integração entre criatividade (capital humano) e infraestrutura.

Essas políticas passam necessariamente pela avaliação continuada de variáveis exógenas, tais como as possibilidades de financiamento (público e privado), a formação e disponibilidade de recursos humanos, a existência de agências intermediadoras e de suporte à transferência tecnológica, a existência de serviços de suporte, à cultura do empreendedorismo (tomada de risco e a aprendizagem continuada) e criação de startups de base tecnológica (CHANG et al., 2012).

Zhu e Ding (2006), abordam a questão dos parques industriais tradicionais sob a ótica da necessidade de sua reconstrução ou reconfiguração como Sistemas Regionais de Inovação. A partir de uma revisão cronológica de abordagens que data desde a década de 1950 que tenta explicar os motivos para a aglomeração de indústrias. Esses autores destacam que essa se dá em virtude de fatores como a instalação de grandes empresas especializadas com demandas fabris, economia de escala, aproximação entre prestadores de serviços e médias e grandes indústrias, incentivo e governança pública dos distritos industriais, relacionamento entre as empresas, e, mais recentemente, aglomeração por cooperação pela inovação.

O desafio dos parques industriais atualmente passa pela abertura de mercado que tem estabelecido fluxos de cooperação e de competição no âmbito tecnológico e pressionado grandes indústrias a reavaliarem suas estratégias de interação local (PORTER, 1990). Embora ainda existam centenas de clusters rudimentares com baixíssima interação entre os atores, a aglomeração continua sendo uma estratégia para viabilizar o acesso a recursos-chave para a recuperação de vantagem competitiva em termos de inovação, carecendo porém de políticas que estimulem a integração entre empresas industriais tradicionais de grande porte com empresas menores e de base tecnológica, intensivas em conhecimento e, portanto, mais flexíveis (ZHU; DING, 2006).

Do ponto de vista dos fundos de venture capital, por exemplo, esses habitats funcionam como ponto de encontro para prospecção e avaliação de novos negócios que possam potencializar a vantagem competitiva de grandes empresas. No entanto, a Universidade e o indivíduo empreendedor, são outras duas dimensões essenciais na conformação destes ambientes, implicando tanto em desafios quanto em oportunidades de geração de novos negócios a partir da pesquisa científica e da criatividade (PHAN; SIEGEL; WRIGHT, 2005).

Os papeis que estes entes têm desempenhado passam geralmente pela comercialização da inovação gerada em Universidades e pela criação de novas empresas. Uma incubadora vai muito além de que apenas disponibilizar ou alugar um espaço físico para uma startup: ela precisa potencializar o uso da tecnologia por meio do provimento de serviços de alto valor agregado a seus clientes, garantindo a transferência do conhecimento da academia para o mercado, ajudando a estruturar organizacionalmente o novo negócio, protegendo-o da hostilidade do mercado (SOMSUK; WONGLIMPIYARAT; LAOSIRIHONGTHONG, 2012).

Somsuk, Wonglimpiyarat e Laosirihongthong (2012) sugerem que incubadoras são mais interessantes para o poder público no intuito de desenvolverem e fortalecerem o mercado nacional, ao passo que os parques tecnológicos podem ser um ambiente mais interessante para a atração de empresas âncoras e investidores de risco que desejam ampliar suas vantagens competitivas. Em linhas gerais, os

habitats de inovação, oferecem:

• Acesso a capital e financiamento;

• Mentoria para liderança; cultura de empreendedor; • Consultoria financeira;

• Infraestrutura física; • Know-how específico;

• Construção de confiança e respeito mútuo entre instituições; • Transferência de tecnologia;

• Novas ideias para P&D (WONGLIMPIYARAT; LAOSIRIHONGTHONG, 2012, p. 256)

Ambientes como os parques tecnológicos pressupõem aglomerações de empresas de base tecnológica, e portanto, empresas de grande porte com demandas tecnológicas e com a capacidade de atrair e adensar uma rede de atores, são importantes para as atividades de inovação e desenvolvimento do território: são as chamadas empresas âncoras, que exercem papel relevante no SRI (NIOSI; ZHEGU, 2010).