Um campo de extrema importância e atualidade, que, entretanto, impõe limites à utilização dos states aids, é o do comércio internacional de bens e serviços.
A abertura de fronteiras, a integração e os limites, fruto dos compromissos no âmbito da OMC e também de organismos regionais como o MERCOSUL, trouxeram a redução das barreiras de várias naturezas, embora, deva ser reconhecido que, normalmente, a extinção dessas, se dá únicamente em função das conveniência da defesa do livre mercado, quando se é competitivo, do mesmo modo que surgem barreiras em áreas nas quais se leva desvantagem. Bastante elucidativo o texto denominado “U.S. Targets Non-Tariff Barriers to
76 Cf. GOUVÊA, Marcus de Freitas. A extrafiscalidade no direito tributário. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.
Global Trade, April 2, 2002 (Releases annual report on barriers to U.S. exports)”, no qual o próprio governo norte-americano afirma que muitos países têm desenvolvido, como técnica de proteção dos produtos nacionais, as chamadas barreiras não tarifárias (non-tariff barriers). Cita, como exemplo, a postura do Canadá, em relação ao trigo, através do Canada Wheat Board; do Japão, em relação a itens eletrônicos utilizados no mercado de telecomunicações, com a edição de regras de standarts or other administrative requirements; da China, com a utilização de barreiras fitossanitárias. São apresentadas diversas medidas protecionistas praticadas pelos 55 principais parceiros comerciais dos EUA, embora, contraditoriamente, ali se afirme que novas negociações estão em andamento para que os governos dos parceiros reduzam ou eliminem as barreiras, promovendo assim a melhora no bem-estar do povo norte- americano, o avanço da liberdade ao redor do mundo e a segurança nacional77.
Essas decorrências surgidas com a integração internacional geraram preocupações, em função da concorrência fiscal internacional, levando organizações, como a OCDE – Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico, a tentar racionalizar a questão promovendo diversos estudos. Procurou-se identificar as práticas denominadas de harmful tax practies.
Na verdade, são extremamente variadas as formas utilizadas para proteção das empresas nacionais ou, ainda, instaladas no território do Estado. Países, como os Estados Unidos, apesar da economia relativamente aberta, mantêm sistema de proteção em áreas relevantes, como se observa do relatório intitulado “Barreiras a produtos e restrições a serviços brasileiros no mercado dos Estados Unidos”, elaborado pela Embaixada brasileira nos EUA, sobre o tema78.
Thomas Friedman, de forma clara, demonstra a existência do dilema, quando afirma:
O livre comércio não vai necessariamente beneficiar todos os americanos, e que a sociedade terá que ajudar aqueles que serão prejudicados. Mas, para mim a questão é? Será que o livre comércio beneficiará os Estados Unidos como um todo, quando o mundo se tornar tão plano que as pessoas possam colaborar e competir com os meus filhos?79
77 Texto disponível em: <http://www.usembassy.it/file2002_04/alia/a2040204.htm>. Acesso em: 20 set. 2012. 78 Relatório disponível em: <http://www.iadb.org/intal/intalcdi/PE/2007/00430.pdf>. Acesso em: 12 out. 2011. 79 FRIEDMAN, Thomas L. The world is flat: the globalized world in the twenty-first century. New York:
O exame da política de Estado norte-americana evidencia que a resposta a esse dilema é dada de modo dúbio. Defende-se o livre mercado, como se verifica de expressa manifestação do Office of the United States Trade Representative – USTR, mas, simultaneamente, há defesa veemente da existência de barreiras em áreas onde a economia americana não tem maior competitividade.
O uso dessas “ferramentas” pode ser visto na recente discussão sobre a existência de fungicida na laranja brasileira exportada para os Estados Unidos, discussão essa que merece integral transcrição, para exata compreensão:
O ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, disse nessa quarta-feira que o suco de laranja brasileiro não apresenta nenhum problema para ser exportado. A afirmação foi uma resposta ao anúncio da Agência Americana de Drogas e Alimentos (FDA, na sigla em inglês) de que uma empresa americana detectou baixas quantidades do fungicida carbendazim no produto comprado do Brasil. Usado no Brasil para o combate ao fungo pinta-preta, comum nos laranjais, o uso da substância é proibido em produtos cítricos nos Estados Unidos. Apesar de a FDA dizer que os níveis de carbendazim detectados não eram nocivos à saúde e que não pretendia recolher os produtos brasileiros, informou que intensificaria os testes e bloquearia todos os carregamentos que apresentassem altas quantias do fungicida. ‘O que os americanos estão dizendo da laranja brasileira é a mesma coisa que os russos dizem da carne brasileira’, comparou Mendes Ribeiro, ao comentar a situação ao imbróglio com a Rússia que tem regras próprias para a exportação de carne, em detrimento do regulamento internacional, da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). O anúncio do FDA gerou o temor de que as vendas do suco de laranja nacional possam ser prejudicadas para seu maior comprador, que importa quase 200 mil toneladas do produto brasileiro por ano, rendendo mais de R$ 600 milhões aos exportadores nacionais. A notícia também fez com que os preços do suco de laranja subissem cerca de 10% na bolsa de mercados futuros de Nova York. ‘Nossos técnicos já estão conversando para mostrar que a nossa condição é extremamente normal e não temos nenhum problema para ser comercializado nosso suco de laranja’, completou Mendes Ribeiro80.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos adotam uma política que pode ser chamada de “oposta”, no que diz respeito ao trigo canadense, pois apesar de o Canadá ser o principal parceiro comercial norte-americano, o governo norte-americano afirma que o Canadá toma atitudes que desgastam a relação, como o monopólio do trigo, já citado acima. E, a esse respeito, afirma que tem-se utilizado de todas as ferramentas efetivas para pôr fim à
80 Notícia disponível em: <http://www.ecofinancas.com/noticias/ministro-diz-suco-laranja-brasileiro-tem-
atuação do Canadian Wheat Board (CWB) na venda e distribuição de trigo por todo o mundo81. É a contradição acima exposta. Prega-se a liberação, no que é conveniente, e a proteção, naquilo em que se levam desvantagens.