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4 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

4.9 Status de Profissão

O material coletado neste trabalho para tentar responder à questão de se a atividade profissional do dramaturgista é, ou pode ser

considerada, uma profissão, é pouco numeroso. Isso poderia ser um indício da indefinição ainda reinante em torno do tema?

Um posicionamento é o de Wiens (1986, p.14) que, apesar de não explicitar se considera ou não uma profissão, diz que o dramaturgista surge como resultado de uma maior profissionalização no teatro:

O dramaturgista não fez também sua entrada no teatro quando a especialização do trabalho começou, se bem que o que foi feito uma vez pelo encenador é agora tomado em parte pelo dramaturgista? A aparição do dramaturgista como signo de uma alienação crescente dentro do processo teatral, como produto de uma burocratização maior. Com isso se pode responder que é também o produto de uma profissionalização maior, porque se trabalha agora no teatro de maneira mais conscienciosa, mais «científica» e mais precisa.

Segundo outros autores, há dúvidas a respeito. Dizem Chartreux e Vincent (1986, p. 42) que não está claro se é uma profissão, apesar de sua importância ser reconhecida e do trabalho dramatúrgico estar presente.

Hoje em dia, eu não sei se ser dramaturgista é uma profissão, se a dramaturgia é uma função independente. Mas mesmo se há sempre disputas por trás, mesmo se na França se continua sempre, aqui e lá, a zombar nas costas dos dramaturgistas, eu acredito que a importância da dramaturgia enquanto, eu tenho inveja de dizer, etapa especulativa e conceptiva de um espetáculo – e não somente etapa puramente reflexiva: a dramaturgia de um espetáculo é também um momento de sua invenção -, eu acredito que esta importância é, de fato, como parece, uma coisa admitida, reconhecida. Simplesmente se encontra que há teatros onde o lugar do dramaturgista não está administrativamente designado; isso não significa evidentemente que o trabalho dramatúrgico esteja ausente desses teatros; simplesmente a divisão do trabalho é tal que o trabalho dramatúrgico não aparece; mas não há uma genérica ausência, bem freqüentemente, uma ausência de fato.

Apesar de começar afirmando que tem dúvidas, Raoul-Davis (1986, p.4) argumenta que não se trata de profissão.

Há dúvidas sobre se é uma profissão, já que não é negociável no mercado de trabalho, não há especialidade em campo nenhum e depende do encenador apreciar as qualidades pessoais do dramaturgista e do desejo do encenador de contar com a sua « cumplicidade ». É mesmo uma profissão? Uma profissão é negociável no mercado de trabalho. Não é o caso. Um dramaturgista não é um especialista em nenhum campo. É uma pessoa dotada, aos olhos de outra, de qualidades — formas de ver e de ser — que esta outra aprecia e paga. É inteiramente subjetivo. Eu definiria o dramaturgista, hoje em dia, assim: cúmplice remunerado de um ou de alguns (muito poucos) encenadores. Isso pode, ou não, se constituir na atividade principal de alguém.

As reflexões de Dort (1986, p.10) dão conta de que a profissão ou, pelo menos, o cargo existe na Alemanha, mas que talvez fosse melhor que não existisse. E que, quando o estado de espírito dramatúrgico for compartilhado por todos, o dramaturgista será supérfluo.

Cargos de dramaturgista em nossos teatros? Alguns já existem. E existirão outros, sem dúvida. No programa dos espetáculos se encontra, cada vez mais, uma rubrica: « dramaturgia ». Tudo isso me parece, grosso modo, positivo. Mas é preciso prestar atenção. Pode ser que a multiplicação de postos de dramaturgista não seja a melhor resposta possível para se levar a cabo uma verdadeira reflexão dramatúrgica sobre a atividade teatral.

Por um lado, criar o posto de dramaturgista significa dizer que se sente a necessidade de escolhas dramatúrgicas na elaboração de um espetáculo. Ao menos a título de hipóteses prévias. Nada mais necessário. Um espetáculo não anda sozinho. Ele deve ser

motivado.

Por outro lado, criação de tais postos não traz o risco de fixar, congelar o processo dramatúrgico? De restringir a responsabilização dos praticantes ao invés de ampliá-la? Existe um dramaturgista. É a ele que cabe a escolha do sentido. Ele faz sua parte... e outros estão livres. Depois, é o encenador que dá a última palavra. No pior dos casos: o dramaturgista se expressa no programa, e o encenador no espetáculo... Sem dúvida, uma verdadeira reflexão dramatúrgica pode, em um determinado momento, passar por este especialista que é o dramaturgista regular. Mas isto não pode ser senão uma passagem. É preciso também que ela ultrapasse esta especialização. O dramaturgista é transitório. Ele só está lá para comunicar suas preocupações aos outros. Uma vez que o estado de espírito dramatúrgico seja compartilhado por todos, o dramaturgista será supérfluo. Nada seria mais nefasto, neste campo – assim como em outros, do que uma burocratização da dramaturgia.

No Brasil não se pode dizer que “dramaturgista” seja uma profissão. Não há curso de formação. Não há cargos específicos de dramaturgista. Mas há, sem dúvida, em proporções muito pequenas, a atividade de dramaturgista. De poucos anos para cá é possível encontrar cada vez mais, em programas e cartazes, a indicação: “dramaturgia feita por...”. Há, hoje, páginas da internet nas quais se encontra informações sobre montagens e onde aparece a indicação da presença de dramaturgista/dramaturgismo. Ou seja, o dramaturgista não existe de direito, mais existe de fato.

No Brasil parece que o reconhecimento do dramaturgista como profissional vai demorar ainda alguns anos, mais por questões econômicas, pelas quais eternamente navega o teatro, do que pela falta de compreensão a respeito da sua importância e utilidade. Enquanto isso, ele permanecerá trabalhando, escrevendo peças resultantes de processos coletivos de criação ou escrevendo sob encomenda para grupos específicos. Quando ele é requisitado, ainda por poucos diretores/grupos ele exerce o seu papel. Mas a situação mais comum é a de que suas funções são exercidas por outros componentes da montagem teatral, seja o diretor, os atores, ou o produtor. Se bem feitas as tarefas, estaríamos na situação idealizada por Dort e chamada por ele de “estado de espírito dramatúrgico”. O mais provável, no entanto, é que esse idealizado estado de espírito se crie a partir da atuação do dramaturgista, porque ela poderá mostrar a todos a necessidade da reflexão dramatúrgica.

5 CONCLUSÕES

Ao formular as conclusões finais, procurar-se-á, de forma resumida, recapitular as conclusões e reflexões feitas ao longo do trabalho a respeito dos diversos temas abordados, enfocando principalmente a situação dos dramaturgistas brasileiros.

Uma primeira constatação foi a respeito da dificuldade para se definir e, mesmo, conceituar “dramaturgista”. Ele costuma ser definido pelas funções e atividades, mas elas são tantas e tão variadas que não ajudam muito. Chega a parecer inviável que uma única pessoa realize-as todas, apesar dos muitos depoimentos de que isso acontece. Talvez isso seja devido ao fato de que a dramaturgia perpassa, realmente, todos os aspectos e situações teatrais, mas também talvez fosse desejável que o dramaturgista se ocupasse mais com os aspectos literários e com a poética do espetáculo.

Comparando-se as tarefas executadas pelos dramaturgistas brasileiros e europeus, observou-se uma única diferença: esses últimos se ocupam com a escolha de peças a serem montadas pelo Teatro onde trabalham, e os brasileiros não. No Brasil, os teatros não funcionam assim, não montam peças às suas próprias custas e, além disso, não

empregam dramaturgistas. Os teatros brasileiros funcionam mais como espaços destinados à apresentação de espetáculos alheios.

Apesar de não se dispor de dados sobre o número de dramaturgistas europeus, ou norte americanos, em atividade, para poder compará-lo ao número de dramaturgistas atuantes no Brasil, acredita-se poder afirmar que, aqui, o número deles é bem menor, mesmo considerando-se a proporção entre o número de teatros e/ou de montagens. A crença se baseia nos depoimentos dos entrevistados, dos autores e sites visitados. Parece formar-se, assim, no Brasil, um círculo vicioso: na medida em que os diretores não têm idéia dos benefícios que a parceria com um dramaturgista poderia lhes proporcionar, não insistem na sua busca e, dessa forma, não se abre o mercado para que mais dramaturgistas possam mostram a que vieram.

Os atores brasileiros que já trabalharam com um dramaturgista dão o depoimento de que isso foi muito útil e enriquecedor. Mas eles, sem dúvida, são poucos.

Com os atores acontece o mesmo que acontece com muitos diretores. Por desconhecimento e falta de hábito, não sabem exatamente o que esperar do dramaturgista e, assim, não se beneficiam, tanto quanto poderiam, da presença dele, quando ela existe.

Nos depoimentos dos brasileiros entrevistados não é apontado conflito entre o dramaturgista e os outros profissionais, principalmente, diretor e atores, como foram apontados em outros países. Fica a questão: será que no Brasil ele é bem aceito, ou será que o pequeno o número de dramaturgistas e seu trabalho incipiente ainda não ameaçaram as relações de poder estabelecidas no interior do coletivo?

Uma diferença clara entre as tarefas do dramaturgista brasileiro e as de dramaturgistas de outros países é a que, aqui, o relacionamento do dramaturgista com os autores é bem menor, quase inexistente, exceto no caso do dramaturgista ser, ele próprio, o “escriba” num processo de criação coletiva. Esse tipo de criação, aliás, foi bem mais referido pelos

entrevistados brasileiros do que encontrado nos depoimentos bibliográficos de outros países.

Também a preocupação dos dramaturgistas brasileiros com o público parece maior, se a unidade de medida for o número de depoimentos e o número de diferentes estratégias de ação direcionadas a ele. Fica a questão do motivo da preocupação. Parece que, além da intenção pedagógica, há o preocupante problema da falta de público.

É instigante e difícil conceber a forma de proporcionar ao público brasileiro a compreensão dos signos e códigos teatrais para que ele possa usufruir plenamente dos espetáculos e, assim talvez, ir mais ao teatro. Um número maior de dramaturgistas atuando no Brasil qualificaria o nosso teatro. Mas ele não é sequer considerado um profissional.

É possível continuar a fazer teatro sem dramaturgista, mas não sem dramaturgia. Ela vai estar a cargo de outras pessoas, normalmente do diretor, mas com isso, a tendência é que não haja mudanças dramatúrgicas consideráveis, então esse seria o principal argumento para a necessidade da sua presença: ele é o elemento que proporciona a reflexão dramatúrgica. Alguém que possa repensar o teatro, que tenha a função de consciência e de provocação, aí está a utilidade do dramaturgista. O dramaturgista pode ser a ponte entre o artista, seja ele autor, ator, diretor, cenógrafo, músico (limitados a sua produção individual ou grupal) e o público, com a sua realidade social e cultural. Alguém que dialogue, que ouça, que aconselhe, que dê voz aos apelos que chegam da realidade e os devolva em forma de poesia.

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