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Subcategoria: Alteração da imagem corporal

3. Análise e Discussão dos Dados Colhidos

3.2. Apresentação, análise e discussão dos dados colhidos

3.2.3. Categoria: Adaptação da pessoa com ostomia intstinal no decorrer do

3.2.3.1. Subcategoria: Alteração da imagem corporal

“A imagem corporal está intimamente ligada à autoestima, autoimagem, autoconceito, conceito corporal e esquema corporal, componentes importantes da identidade” (Barbutti, Silva e Abreu, 2008, pp. 31). A ligação entre a imagem do corpo, os sentimentos e as atitudes reflete a forma de ser de cada pessoa e fundamenta o processo de viver agregado à integração social (Cascais, Martini e Almeida, 2007).

Muitos autores referem que a mutilação é representativa da alteração da imagem corporal, um acometimento violento que obriga a grandes transformações pessoais (Sonobe, Barichello e Zago, 2002; Barbutti, Silva e Abreu, 2008; Reis, Carvalho e Rodrigues, 2012). Para viver estas transformações é necessária a mobilização de esforços cognitivos e comportamentais, porque é a identidade vinculada à autoimagem que influencia o desempenho das atividades sociais (Cascais, Martini e Almeida, 2007).

Dentro da subcategoria alteração da imagem corporal, surgiram as unidades de contexto alteração da autoimagem e sexualidade, exemplificadas a seguir:

Quadro 22 – Unidade de contexto “Alteração da autoimagem”

Unidade de

Contexto Unidade de Registo

Unidade de Enumeração Alteração da

autoimagem

“O que é que eu senti? Eu senti como se ficasse deficiente, como se de facto tivesse perdido um braço…” E1:7.

“Acho que não é fácil de aceitar porque é o ver- me ao espelho, é o tomar banho, é o arranjar- me… Está sempre presente…” E2:4.

“Estava habituada a ser uma pessoa normal e agora tomo banho, visto-me e vejo que não sou aquilo que era” E2:75.

“Sinto que tiraram uma parte de mim e não tenho palavras para explicar aquilo que eu sinto” E2:77.

“mas mesmo assim sinto que não sou a pessoa que era. A pessoa sente-se diferente e que não é a pessoa que era e que nunca mais vai ser...” E2:79.

“O meu filho não tem problemas em ver-me” E3:14.

“Mesmo quando estou com o meu marido, estou à vontade na casa de banho” E3:17.

“Mas claro que é uma coisa diferente. Puseram

aqui uma coisa que eu não usava. Não me tiraram, mas puseram uma coisa que eu não tinha. É diferente. Senti como se fosse uma agressão ao nosso corpo…” E3:18.

“A cicatriz e a forma como o outro lida com o saco colado à barriga… Não é aquela imagem que nós temos de nós próprios. Do olhar ao espelho e não gostar daquilo que se vê... Se já era, pior ficou” E7:34.

“A visualização do estoma em si… Aquele primeiro impacto talvez choque um bocadinho...” E7:46.

“A primeira vez assustou-me um bocadinho, obviamente, a primeira imagem, mas a partir daí foi sem problemas” E7:49.

“Em relação ao estoma em si, nunca tive aquela coisa de não me conseguir olhar ao espelho, nunca houve isso…” E7:75.

“Eu mudei o lado. Mas é a mesma coisa. Sem drama nenhum” E7:114.

“Não atrapalha minimamente. Portanto, não se coloca aquela questão de me olhar para o espelho e de não gostar daquilo que vejo” E7:124.

“Obviamente, sei perfeitamente que não sou uma top model quando me olho ao espelho. Tenho a noção do impacto físico que emagrecer,

engordar, a cirurgia, a postura... Tudo isso tem!”E7:126.

“Mas o facto de eu olhar ao espelho e ser racional e não ver o corpo de uma jovem, bem feito, não cria em mim um sentimento de falta de autoestima” E7:127.

“Por um lado o facto de eu não ter falta de autoestima, também ajuda a pessoa que está ao meu lado a sentir a minha confiança e ele próprio não põe em causa. Não olha com maus olhos” E7:130.

“E isso afetou bastante a minha autoestima…” E8:7.

A alteração da imagem corporal compromete a adaptação à nova condição de vida. Martins (2011) confirmou com o seu estudo, que a mudança do próprio corpo e a visibilidade do atual local de excreção com a afirmação constante pela utilização dos equipamentos coletores, repercute na fragilização da autoestima: “e isso afetou bastante a minha autoestima” (E8:7), o que fez com que alguns dos entrevistados se retraíssem e até utilizassem o isolamento como forma de defesa (Farias, Gomes e Zappas, 2004). A imagem que ele fazia de si rompeu-se, ocorrendo uma desorganização no seu eu, como exemplificado no testemunho: “mas mesmo assim sinto que não sou a pessoa que era. A pessoa sente-se diferente e que não é a pessoa que era e nunca mais vai ser” (E2:79).

Outros entrevistados relataram que a visualização do estoma os afetou de tal maneira que se sentiram mutilados: “O que eu senti? Eu senti como se ficasse deficiente, como se de facto tivesse perdido um braço...” (E1:7); “ (…) Puseram aqui uma coisa que eu não usava. Não me tiraram, mas puseram uma coisa que eu não tinha. É diferente. Senti como se fosse uma agressão ao nosso corpo…” (E3:18). A mutilação representa uma transformação pessoal e está intrinsecamente ligada à perda da capacidade de domínio

sobre o seu corpo, à beleza física e à saúde pela falta de controlo das eliminações fisiológicas (Bartutti, Silva e Abreu, 2008).

Quadro 23 – Unidade de contexto “Sexualidade”

Unidade de

Contexto Unidade de Registo

Unidade de Enumeração Sexualidade “Simplesmente, o facto de estar localizada cá em

baixo no abdómen, pensava que a nível de sexualidade afetasse mais, mas não…” E1:39.

“Acho que as mulheres encaram isso [sexualidade] de uma forma diferente dos homens. A parte física e a parte emocional não têm o mesmo valor para os homens e para as mulheres, portanto eu [homem] não tive esse problema” E1:40.

“Isto também me afeta noutras dimensões, como na vida íntima…” E2:87.

“Mas tenho um marido que compreende isso e não tive muitos problemas e agora faço de vez em quando” E2:91.

“Isto atrapalha-me porque eu estou sempre com medo que descole o saco ou aconteça qualquer coisa. Isto afeta-me muito” E2:92.

“Sobre a sexualidade, o médico explicou-me antes. Ele explicou-me tudo antes... Eu pensei... Se for para eu ficar bom, para ter saúde, para poder viver... O importante é que eu quero é viver! Aquilo não me afetou” E4:24.

“É assim… Eu pensei mais foi por causa do meu filho, não é! Eu só tenho um filho… E depois eu pensava em ter mais um filho. Mas isso não foi o que me afetou. Eu não me senti muito afetado” E4:26.

“E eu e a minha mulher, depois da operação, a primeira vez que tivemos assim momentos íntimos… Bom… Foi uma coisa que se falou… E como ela tinha aceitado a coisa, não houve constrangimentos, correu tudo normal, não houve nada” E6:46.

“Em relação ao namorado quer dizer… Eu não me sentia à vontade com ele, pelo saco” E7:65.

“O facto de eu não me sentir atraente, não me sentia à vontade, senti-me bastante envergonhada da situação” E7:67.

“Porque se eu não sou atraente, eu não me vou expor ” E7:70.

“Porque eu própria me fechava, eu própria dizia não” E7:72.

“Estes dois meses e meio que eu vou estar com isto, eu não quero nada, eu não quero que vejas a minha barriga, eu não quero que vejas que eu estou ostomizada. Eu sinto-me envergonhada” E7:73.

“Eu não posso dizer que tenha tido um único momento em que pensasse que ia ficar mal emocionalmente ou que não ia me sentir atraente ou que ia ter um impacto com o marido” E7:88.

“Não houve ali, perda do ânimo por parte dele. Também não há perda do ânimo por minha parte” E7:123.

“Obviamente é sempre importante agradar... Que a pessoa que está ao nosso lado goste daquilo que vê, mas eu também percebi que quando a pessoa que está ao nosso lado gosta realmente de nós, não é por estarmos mais magras ou mais gordas, ou por termos um saquinho que isso vai ter algum tipo de impacto” E7:128.

“Por outro lado, eu senti que ele aceita muito bem e que não deixa de me achar atraente, porque emagreci ou porque uso o saco” E7:131.

“Tinha um bocado de vergonha [do marido]…” E8:21.

“Depois a parte com o meu marido, da intimidade… Foi um bocado difícil… Porque eu também nunca fiquei assim muito bem a nível ginecológico, como fiz radioterapia que me apanhou esta parte…E depois tinha medos…” E8:28.

limitou um bocado… Fazia-me ter assim um bocado de receio não é…” E8:29.

A expressão da sexualidade está muito vinculada à imagem corporal. A modificação do corpo e o uso do saco coletor faz com que a pessoa experimente sentimentos de inferioridade, medo e vergonha (Martins, 2011): “O facto de eu não me sentir atraente, não me sentia à vontade, senti-me bastante envergonhada da situação” (E7:67).

Segundo Batista et al (2011, pp. 1046) as mudanças físicas “deixam transparecer as alterações em suas atividades sexuais em decorrência de desconforto físico, do constrangimento e dos efeitos colaterais do tratamento coadjuvante”. Essas implicações podem ser visíveis com o relato transcrito: “Depois, a parte com o meu marido, da intimidade... Foi um bocado difícil... Porque eu também nunca fiquei assim muito bem a nível ginecológico, como fiz radioterapia que me apanhou esta parte… E depois tinha medos…” (E8:28); “Fiquei um bocado incontinente e tudo isso me limitou um bocado... Fazia-me ter assim um bocado de receio não é…” (E8:29).

Entretanto, Paula, Takahashi e Paula (2009) fazem alusão à sexualidade como um simbolismo do desejo que transcende as definições físicas e traduz em emoção com expressões de significados complexos e subjetivos: “Acho que as mulheres encaram isso [sexualidade] de uma forma diferente dos homens. A parte física e a parte emocional não têm o mesmo valor para os homens e para as mulheres, portanto eu [homem] não tive esse problema” (E1:40).

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