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5 RESULTADOS DA QUALI 2

5.3 CATEGORIA 3: CAUSAS DAS DIFICULDADES

5.3.1 Subcategoria 3.1: Assimetrias do território

As assimetrias existentes no território fluminense, e até mesmo no município do Rio, influenciam no acesso ao mercado e à compra de materiais. A Empreendedora 2, que está localizada no bairro do Flamengo, na Zona Sul da cidade, considera conveniente a sua localização:

Onde eu estou, eu considero favorável para... Eu acho que eu estou, assim, em um local meio central, sabe? Estou na Zona Sul, mas estou perto do Centro.

Os meus fornecedores são principalmente do Centro, então, eu consigo ir com facilidade. E os meus clientes são geralmente da Zona Sul, então, eu consigo...

Se tem que fazer um encontro cara a cara, eu consigo marcar com eles com facilidade. (E2)

Já a Empreendedora 9, de Teresópolis, compra seu material no Rio de Janeiro. Por ausência de uma competência relacionada ao planejamento, relata dificuldade em planejar um estoque que seja ideal, a fim de evitar idas desnecessárias à Capital, ou comprometer recursos, caso não venda os produtos.

Porque eu não posso pirar: ‘ah, vendeu tudo! Então, eu vou comprar muito mais material!’ Porque eu fico com medo de não ter mais material, sabe?

Porque, aí, eu tenho que ir ao Rio para comprar. Então, cada vez que eu vou ao Rio, é um gasto que eu tenho de passagem. Então, eu penso: ‘já compro mais?’ Porque, aí, eu não preciso ficar vindo ao Rio muitas vezes e ter uma despesa... Eu sei como a minha cabeça funciona, e não pode ser assim, porque... E se não vender? Eu vou ter prejuízo. Minha cabeça é meio... Eu não sei se sou um bom exemplo para você (risos)! (E9)

A Empreendedora 10, localizada em Volta Redonda, relata a sua dificuldade em usar os Correios – por conta do roubo de cargas e que leva ao aumento dos preços praticados. Acredita que seria melhor estar no Rio, porém os custos fixos seriam maiores.

Os tecidos sempre vêm de São Paulo, a renda, essas coisas todas. É ruim, porque não dá mais para usar o Correio, o Correio está caríssimo, então eu tenho que usar a transportadora, que é um pouco mais em conta. Eu acredito que se eu tivesse em uma cidade grande, seria diferente. Mas, por ser ainda interior do Rio, ainda é perto, tipo assim, ainda está no meio do caminho. Mas, com relação à clientela, se eu estivesse no Rio, seria muito diferente. Isso, sem dúvida. Mas, aí, teria os custos de local, enfim. (E10)

A Empreendedora 8 acredita que, mesmo estando em Lumiar – um lugar de mais difícil acesso, o seu negócio só é possível por conta desse contato mais próximo com a natureza.

Não, ele é totalmente longe, fora de mão! Mas ele é... Assim, eu só sou capaz de ter esse empreendimento aqui! Porque eu não quero pegar trânsito todo dia, eu não quero viver numa cidade cheia de estresse, eu não quero isso. Então, é um equilíbrio do útil ao agradável, sabe? Não adianta, para mim, mudar para uma metrópole, porque o couro vai ser mais barato... O frete de chegar o couro, e eu vou ter mais mão de obra disponível, mas eu não vou estar feliz. [...] Eu gasto mais de Correios. Eu gasto mais de transportadora, tanto para envio de produtos de vendas do site quanto para compra de matéria-prima. Mas eu acho que agrega muito valor à nossa proposta utópica, que as pessoas tanto acham bonita. A gente abraçou um risco, e esse risco está dando certo. (E8)

As Empreendedoras 3 e 4, localizadas no bairro Itanhangá, na Capital, também compartilham dos mesmos valores. Esse é o depoimento da Empreendedora 4:

Mas, em relação ao local, ele só é ruim por conta disso: tudo é no Centro. Tudo de joia é no Centro. [...] Mas, eu acho que, para eu trabalhar, é muito mais gratificante, do que se eu estivesse em uma salinha em Ipanema ou no Centro da cidade. Porque agora mesmo, eu estou sentada no sofá do ateliê, com a

porta aberta, olhando a cachoeira! Isso nenhum outro lugar vai conseguir me proporcionar, entendeu? (E4)

Localizada na região do Saara, no Centro do Rio de Janeiro, a Empreendedora 5 vê que o perfil de seus clientes é de pessoas, por exemplo, da Zona Sul, e não necessariamente frequentadores do comércio popular.

E, aí, o perfil do público mudou muito no Saara, e a gente não fez uma loja com cara de Saara. A gente fez uma loja com a nossa cara. Então, assim, a gente tem clientes que pegam o metrô, entram na minha loja e não conhecem o Saara. Mas elas sabem que aqui, elas conseguem um presente muito mais barato do que elas pagariam na Zona Sul. Com uma qualidade excelente, que vai agradar, e é tranquilo de trocar. Então, assim, eu tenho esse público. (E5) As Empreendedoras 9 e10, respectivamente de Teresópolis e Volta Redonda encontram certa dificuldade em encantar o público local. O consumidor nessas cidades não valoriza produtos autorais, o que ocasionou a queda nas vendas.

Eu senti muito, diminuiu muito o número de pessoas, o número de pessoas que vinham do Rio para cá, ou de São Paulo, sei lá. E, aí, eu fico com o público daqui que é um público bem difícil. Que é esse público, que não sabe nem que há uma diferença entre alugar [um vestido de festa] e fazer. É um público que não tem informação de Moda, informação de Arte, é isso. [...] Mas eu acho que é assim: a cidade onde eu estou, o lugar onde eu estou que interfere muito na busca por esse cliente que tem um desejo por esse meu produto. E, aí, eu acho que esse meu cliente está na capital. (E10)

A Empreendedora 1 originalmente estava instalada em Niterói, mas decidiu recentemente se mudar para o Rio, a fim de ficar mais próxima do seu consumidor. Sua produção continua em Niterói e São Gonçalo por valorizar a relação que já tinha com as suas colaboradoras:

Mas para vender e para o negócio girar, rolar e eventos e tudo mais, sempre foi no Rio. Então, quando fui para o Rio, para aí, esse negócio facilitou. Só dificultou porque, assim, como eu já tinha todas as minhas costureiras aqui, todo mundo já trabalhava já estava desse lado, eu não quis... Eu tenho uma relação de muitos anos com esse pessoal. Então, eu não ia simplesmente: ‘ah!

Agora que eu mudei para o Rio, eu não vou mais trabalhar com vocês!’, sabe?

Então, eu não fiz isso. Eu continuo vindo a Niterói para trazer a produção para cá. Mas o resto, eu faço tudo lá no Rio. (E1)

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