6.1 Eixo Temático AFAB, história e significados
6.2.3 Categoria Consequências
6.2.3.1 Subcategoria Consequências Pessoais e Interpessoais
As oscilações nos níveis de sociabilidade praticamente definem o TBH, criando intensas repercussões, muitas vezes dolorosas e inevitáveis, sobre os relacionamentos, as quais podem persistir mesmo nos períodos de estabilidade (GOODWIN; JAMISON, 2010).
Eu faço amigos, mas eu tenho uma facilidade enorme de perdê [...]. (Liziane, 38 anos, usuária, na AFAB há 15 anos)
Eu antes... era por qualquer coisinha, eu brigava [...] (Mário, 53 anos, usuário, acompanha a AFAB há oito anos)
Outras consequências na vida pessoal são retratadas aqui:
Eu vi que eu tinha que fazer alguma coisa se não minha vida ia se acabar [...]. (Arthur, 50 anos, usuário, na AFAB há cinco meses)
Se eu pudesse, eu voltaria atrás, sabe? Eu não faria, mas é que... As vezes eu penso assim, não era eu, sabe? Não era eu, era a doença que fazia aquilo ali. Porque eu saía assim desatinada. [...] É lamentável, né? Agora eu sei que não era eu. Eu me lembro assim daquele tempo que eu andava assim fazendo aquelas coisa assim e não era eu. Não era, era a doença mesmo, porque eu a L. mesmo jamais faria aquilo [...]. Hoje com a medicação [...]. Quando eu tomei o lítio aquilo passô, sabe? [...] Na vida o que aconteceu, eu não tenho como voltá atrás, não tem o que fazê. Por exemplo, esse problema que me criou dos... [rins], não adianta eu querê agora chegá e dizê assim “aah, agora não vô tomá mais o lítio 20 anos”. Eu já tomei o lítio 20 anos, não tem o que fazê. Pode sê que tenha daqui pra frente alguma coisa pra fazê, mas recuperá pra trás não vai voltá mais, entende. Então, não é culpa de médico, é culpa da doença. E vô tê culpa eu? Eu não tenho culpa, deu isso, deu, que vô fazê? [...] (Liziane, 38 anos, usuária, na AFAB há 15 anos)
A outra [irmã], que não participa, que mora longe, ela tem uma vida bem diferente. Pra ela, o mundo terminou. Ela não tem aquele ânimo de viver, de querer fazer as coisas, de ter uma nova atividade, né. Que ela trabalhava no comércio, ela se aposentou mesmo. [...] Se ela frequentasse o grupo... Ela visse as pessoas, todo mundo bem, cada um dentro do seu limite e vivendo e tendo uma vida normal, eu acho que ela seria bem melhor. Uma pena que ela tá longe da gente, né? (Neuza, 60 anos, familiar, na AFAB há cinco anos)
Consequências nos relacionamentos familiares também aparecem nas entrevistas assim como na literatura. Conforme Goodwin e Jamison (2010, p. 393), “mania e depressão alteram as percepções e os comportamentos não apenas daqueles que as tem, mas, também das pessoas familiares e próximas”.
Olha, ela sempre tem relutância né, e dois internamentos foi com a justiça. Aí faz toda aquela função, que tem que provar lá e depois vem aquele do fórum que vem com intimação. Coisa horrível... e eu passei assim... coisas que eu nunca tinha passado na minha vida, nem... No portão da minha casa a polícia... E eu passei né, com ela [...]. (Vilma, 80 anos, familiar, acompanha a AFAB há dez anos)
[E na questão de relacionamentos?] Ah, é um desastre. É um desastre em todos os aspectos. [...] Eu sempre briguei muito com meu pai e também tinha um comportamento muito agressivo com todo o restante da família [...]. Agora, isso é fase, né? A gente precisa dize isso [...]. E eu não tinha e não tenho ainda essa percepção, tanto é que eu fiz uma coisa que foi solicitá a um bocado de gente [...] Que eles falassem o que eles quisessem de mim, e ali eu vi que eu machuquei já muita gente. [...] Lá eu vivia uma guerra entre eu e meu pai [...]. Há muito tempo que lá em casa o pessoal desistiu de me dizer alguma coisa. Não sei, eu acho que talvez pela forma que eu era, a turma preferia não vir pro embate. Quem vinha era meu pai, só. Mas mesmo assim, como ele via que eu não recuava e ele tava acostumado com todo mundo recuando, então, a coisa mais fácil era brigá e um prum lado e um pro outro. (Arthur, 50 anos, usuário, na AFAB há cinco meses)
Eu vou te dizer enquanto familiar, é um processo de mudança, né? E as mudanças sempre trazem... Desestabilizam. [...] Como tá tudo bem nesses últimos anos, assim, ela consegue trabalhá. Ela é uma pessoa que ela toca a vida dela. Não teve nenhuma outra crise, que era a grande preocupação. Me assustei bastante, porque quando tu tem um familiar e tu vê que ele ta... como tu tá com os usuários, os teus pacientes lá, né... Tá falando em outras coisas. Tá em surto mesmo, psicótico... E na época eu não quis interná. Eu tirei... Eu fiquei afastada das aulas. Eu fiquei um mês com ela dentro do apartamento, acompanhando. Daí a gente fazia passeios, eu dava medicação, eu levava na M [médica], mas ao mesmo tempo, aquele mês pra mim, a minha vida parô. [...] Eu percebo que eu abdiquei de alguma parte da minha vida pra tá junto. E foi bom, e foi melhor assim. Mas eu sinto que eu abdiquei, porque eu queria tá em outro lugar, fazendo outras coisas. [...] Mas acho que agora, assim, a gente tá amadurecendo. Ela já tá vivendo mais... E ela não precisa tanto, eu acho, de mim, quanto eu imagino que ela precise, entende? [...] Porque se a gente não se unisse ali, eu não sei. Talvez ela ficasse bastante doente. Talvez, eu não sei o que teria acontecido se eu... Se não fosse como eu fiz, sabe? [...] Medo, medo de não dá conta... De tê que pará minha vida pra cuidá uma pessoa que eu amo demais e que eu seria bem capaz de fazê isso e aí a vida se imobiliza, né? Na verdade eu venho... Esse tipo de pensamento de... Quando tu conhece, acaba vencendo, né? Acaba vencendo o medo. (Cláudia, 40 anos, familiar, acompanha a AFAB há 15 anos)
Aquela pessoa que é minha ex-mulher que saiu com o guri de três anos no colo de casa... Com razão, ela não conhecia (a doença). Ela era nova também e tinha que viver. Hoje ela vê isso aí com uma naturalidade. Encontrei ela duas vezes, fui na casa dela. (Antonio, 51 anos, usuário, na AFAB há 15 anos)