1.2. DESENVOLVIMENTO COMO PROCESSO DE MUDANÇAS
1.2.1. Subdesenvolvimento como produto do desenvolvimento
O desenvolvimento e o subdesenvolvimento, de acordo com Furtado (2003), se constituem em processos históricos decorrentes do mesmo impulso inicial, ou seja, ambos têm suas origens na aceleração da acumulação que teve lugar na Europa em fins do século XVIII e início do século XIX.
Com relação ao subdesenvolvimento, as formulações teóricas que o abordam podem ser agrupadas em três conjuntos (BASTOS & SILVA 1995). Integraram o primeiro grupo as teoria que tomam as experiências dos países ricos como modelo a ser seguido pelos países pobres, cujas principais características são apresentadas na subseção anterior deste trabalho. O segundo grupo é formado pelas teorias elaboradas por pesquisadores ligados à Cepal que se constitui no tema da próxima seção. No terceiro grupo estão as teorias que relacionam o subdesenvolvimento à evolução do capitalismo, em nível global e local.
O ponto de partida desta terceira vertente foi a teoria do imperialismo, fundamentada nas idéias de Vladimir Lênin (1870 – 1924) sobre a evolução do capitalismo, em seu livro O imperialismo, etapa superior do capitalismo, publicado em 1916. Lênin afirma que o imperialismo é produto de uma etapa mais avançada do capitalismo, caracterizada pela concentração da propriedade dos meios de produção. Do que resultou no capitalismo monopolista, a partir do final do século XIX, que se caracteriza pela exportação considerável de capitais na perspectiva de garantir o domínio de mercados externos, fonte de demanda adicional e de matérias-
primas baratas. A submissão, portanto, dos países periféricos ao poderio econômico dos países centrais assume uma nova forma, que se constitui no produto histórico do processo de expansão do capitalismo (SANDRONI 2000).
O fato é que independente da formulação teórica adotada, o aspecto mais evidente do subdesenvolvimento é a sua incapacidade para gerar um alto volume de produção por pessoa ativa, do que resulta numa baixa renda per capita. Este fato se deve, sobretudo, a: (1) produtividade deficiente da mão-de-obra; (2) falta de recursos básicos de terra e utilização deficiente desses recursos; (3) ineficiência quanto à formação de capital devido ao nível de poupança; e à distorção qualitativa e quantitativa dos investimentos, e (4) índice reduzido de progresso e modificação nas técnicas (LEITE 1983). Por outro lado, os seguintes elementos também caracterizam o subdesenvolvimento:
Baixo padrão de consumo (alimento, roupas, calçados); dualismo sócio-econômico mercado pela existência de regiões ou setores modernos ao lado de tradicionais; falta de articulação entre os setores econômicos e situação de dependência nas relações internacionais; deficiente nível de instrução e fragilidade das instituições para promover e viabilizar poupanças e aplica-las produtivamente. Os mercados são estreitos e apoiados num padrão de distribuição de renda inadequado nas zonas rurais e urbanas. Os conflitos entre os que têm e os que não têm e os níveis altos de desemprego e subemprego criam ambientes de tranqüilidade e pressões desestabilizadoras da humanidade (Idem, ibidem, p. 36). Uma tentativa esquematizada objetivando evidenciar alguns dos principais aspectos econômicos e não-econômicos do subdesenvolvimento é apresentada no Quadro 2. Neste quadro são relacionados três componentes básicos do subdesenvolvimento: baixos níveis de renda, isto é, a incapacidade de prover as necessidades básicas; baixo auto-respeito ou ausência de um sentido de valor e respeito próprio e liberdade limitada ou não ter autonomia para escolha.
QUADRO 2
SUBDESENVOLVIMENTO: UMA ESTRUTURA ESQUEMÁTICA MULTIDIMENCIONAL
Fonte: TODARO (1981, p. 171)
Observa-se, inicialmente que baixos níveis de vida – quantidade insuficiente de bens para a sobrevivência, educação, saúde e outros serviços sociais inadequados ou inexistentes – relacionam-se, de uma forma ou de outra com baixas rendas. Estas baixas rendas resultam de uma baixa produtividade média de toda força de trabalho e não apenas daqueles que estão trabalhando, ou seja, o produto nacional total dividido pela força de trabalho total. Para Todaro (1981 p.169-170):
A baixa produtividade de força de trabalho pode ser o resultado de uma série de fatores, incluindo, do lado da oferta, más condições de saúde, nutrição e atitudes frente ao trabalho, alto crescimento
populacional e desemprego e subdesemprego altos. Do lado da demanda, treinamento inadequado, parcos talentos gerenciais e baixos níveis globais de educação dos trabalhadores podem, lado a lado com a importação de técnicas de produção poupadoras de mão- de-obra dos países desenvolvidos, resultar na substituição do trabalho pelo capital na produção interna. A combinação da baixa demanda por mão-de-obra com grande oferta resulta, por conseguinte, numa subutilização generalizada do trabalho. Além disso, baixas rendas levam a poupança e investimentos baixos, restringindo-se, assim também, o número total de oportunidade de emprego. Finalmente, considera-se também que baixas rendas estão relacionadas com famílias grandes e alta fertilidade, uma vez que os filhos constituem uma importante fonte de segurança econômica e social na velhice para as famílias pobres.
Observa-se ainda no quadro em apreço que baixa produtividade, baixas rendas e baixos níveis de vida são fenômenos que se reforçam mutuamente. Consistem naquilo que Gunnar Karl Myrdal (1898-1987), Nobel de Economia de 1974, chamou de processo de “causação circular cumulativa”, no qual baixas rendas levam a baixos níveis de vida, o que mantém baixa a produtividade, e que por sua vez perpetua as baixas rendas e assim por diante9.
Entretanto, baixos níveis de renda, em geral, não definem por si só o subdesenvolvimento, uma vez que o baixo auto-respeito e limitada liberdade de escolha, bem como dependência e dominação, entre outros fatores também caracterizam o subdesenvolvimento. Tanto o baixo auto-respeito como a limitada liberdade de escolha “são fortemente influenciados pelos baixos níveis de vida; ambos, em troca, contribuem para estes baixos níveis” (TODARO op. cit; p. 170).
Depreende-se, então, face ao apresentado neste quadro que, apesar dos baixos níveis de vida, baixo auto-respeito e liberdade limitada operarem em um processo cumulativo de causa e efeito que perpetua o subdesenvolvimento, para a sua superação a prioridade básica deve ser a melhoria de vida da população.
Quanto à passagem de uma situação de subdesenvolvimento para o desenvolvimento não depende automaticamente da variável tempo, do mesmo modo que a persistência das estruturas sociais e econômicas, características do subdesenvolvimento, tende a acentuar cada vez mais este estado, independente das modificações superficialmente introduzidas no sistema econômico. Razão pela
9 O principio da causação circular cumulativa formulado por Myrdal evidenca que o círculo vicioso da pobreza,
conforme proposto por Nurkse, pode ser rompido pela aplicação planejada de reformas econômicas (SANDRONI 2000).
qual não se pode conceber o desenvolvimento em um sentido mais amplo, isto é, como desenvolvimento social, sem previamente serem alterados de maneira significativa as estruturas do desenvolvimento.
Acontece que não se pode alterar o ciclo reprodutor da desigualdade e da pobreza – fazer o “bolo” crescer inicialmente para distribuí-lo depois – a não ser mediante a intervenção política10. Especificamente:
Por isso se diz que o desenvolvimento é uma questão política. Porque a política é um modo de regular o entrechoque de opiniões e interesses que determina a configuração de um sistema de agentes que interagem em termos, de competição e colaboração. Se esse modo não for alterado, não há mudança de comportamento coletivo, não há mudanças de papéis e não há mudança na composição, na quantidade e qualidade de capital humano e de capital social (..). Ora, se não houver alteração do capital humano e capital social, não poderá haver desenvolvimento, de vez que todo desenvolvimento é desenvolvimento social (FRANCO 2002 p. 55).
Na verdade, a superação do subdesenvolvimento e da pobreza não tem ocorrido mediante a implementação apenas de programas compensatórios de distribuição de renda ou assistenciais. O cerne da questão está em responder de maneira satisfatória, isto é, com base em um nível médio de racionalidade pública, a seguinte questão: como fazer crescer o PIB a altas taxas, continuadamente e por um tempo suficiente, para que seja possível uma distribuição significativa da renda, se, para tanto, é necessário partir de patamares de capital humano e capital social que só serão alcançados com um crescimento continuado do PIB a altas taxas?
De fato, a possibilidade de aumentar a renda per capita pressupõe para ser considerado produto de desenvolvimento econômico: (1) uma melhoria de todo o sistema produtivo e (2) que os frutos deste crescimento estejam sendo repartidos eqüitativamente entre as pessoas. Da primeira condição resulta o chamado desenvolvimento integral: supõe as transformações ocorridas afetando a todos os
10 A base científica da parábola que insiste na necessidade de que o “bolo” deve crescer para ser repartido
depois é a conferência proferida por Simon Kuznets (1901 – 1985) no Congresso da Associação dos Economistas Americanos de 1954. “Nesta conferência, Kuznets procurou mostrar que as evidências disponíveis faziam pensar que a desigualdade de renda tendia a aumentar na fase inicial da industrialização de um país, ocorrendo o inverso em fase posterior, quando este país estivesse desenvolvido” (VEIGA 2005a,p. 43). Trata-se do que ficou conhecido como “curva de Kuznets” ou curva do “U” invertido sobre a relação entre crescimento e distribuição. Entretanto, estudos posteriores evidenciam o contrário do que constatou a hipótese de Kuznets: a estrutura da distribuição da renda é exatremamente persistente, seja qual for o crescimento econômico. Ver a respeito: VEIGA 2005a,p. 44 – 46).
setores e não só uma parte do sistema econômico. Já a segunda condição se refere à verificação da distribuição social dos frutos do processo, ou seja, a que se dá a partir do acréscimo da renda. O que significa dizer, em outros termos, que o desenvolvimento econômico se constitui em um processo mais abrangente do que o crescimento esporádico ou condicionado principalmente por fatores exógenos.
Com efeito, o crescimento econômico evidenciado pelo aumento do PIB per capita se caracteriza pela preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização, enquanto que o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente. É que: “Dispor de recursos para investir está longe de ser condição suficiente para preparar um melhor fruto para a população. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condições de vida dessa população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento” (FURTADO 2004, p. 486).
Conclui-se, então, face ao exposto nesta seção que o desenvolvimento e o subdesenvolvimento se constituem em dois aspectos de um mesmo processo histórico e, a superação do subdesenvolvimento não depende da variável tempo, mas sobretudo da existência nas sociedades de, pelo menos, nível médio de racionalidade pública, e, em decorrência, organização econômica eficiente. Isto porque o desenvolvimento implica em mudanças sociais. Razão pela qual ela se constitui em uma questão política. Caso contrário, ele passa a ser apenas crescimento que é imprescindível para socializar a riqueza, mas não suficientemente necessário para provocar mudanças significativas tanto no capital humano quanto no capital social que se constituem em fatores extra-econômicos do desenvolvimento.