OS NOVOS PARADIGMAS SOCIAIS E ESTÉTICOS EM GLAUBER
3.2 SUBDESENVOLVIMENTO, DEPENDÊNCIA E NEOCOLONIALISMO
A realidade social do Brasil em especial, da América Latina e da África (este último continente aparece na obra do autor a partir de 1970 com o filme realizado no congo Brazzaville, O Leão de Sete Cabeças) foram constantemente analisadas nos textos e entrevistas de Glauber Rocha publicados em jornais e revistas semanais brasileiras e em revistas especializadas em cinema. Grande parte dos temas abordados pelo cineasta nesses meios de comunicação e no cinema versava sobre questões levantadas principalmente pelas Ciências Sociais brasileira da época como afirmara em entrevista à pesquisadora Raquel Gerber:
Então o que nós do Cinema Novo propúnhamos era o seguinte; vamos tentar, dentro dos instrumentos que nós temos, quer dizer, com o conhecimento que temos no Brasil (...) era um pouco de Ciências Sociais, um pouco de literatura, um pouco de informações internacionais, ver como é que funciona esta colônia. Esta colônia, como todas da América Latina, é também um problema de índios, de pretos, de marginais, de burguesia cafajeste. (GERBER,1977, p.99).
Em seus escritos, Glauber Rocha concebe uma estética que seria tributária dessas discussões e serviria de guia na busca de uma nova linguagem, o cineasta se referia constantemente aos temas nacionais e latino-americanos que estavam sendo amplamente discutidos por teóricos que apresentavam como problema principal o subdesenvolvimento e a sua superação, dentre os quais: Luiz de Aguiar Costa Pinto, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Caio Prado Junior, Luís Werneck Sodré e Francisco de Oliveira.
Tema central também de instituições defensoras das teorias desenvolvimentistas, como alguns centros de estudos, a CEPAL (Comissão Econômica para América Latina) e, no Brasil o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Nas formulações destes grupos comumente se propunha superar o atraso econômico e social dos países pobres, através de investimentos de grande monta em diversos setores, sobretudo na indústria, para que essas nações pudessem alcançar a autonomia financeira e política, saindo do subdesenvolvimento. Assim como o marxismo, também o nacional-desenvolvimentismo influenciou o cinema do Terceiro Mundo proposto pelo diretor.
Os conceitos construídos, reelaborados e amplamente discutidos por esses autores forjaram uma Teoria do Desenvolvimento para o continente, e foram objetos de citação e instrumento de reflexão de Glauber Rocha que se referia a conceitos como subdesenvolvimento, dependência e “neocolonialismo” nos seus escritos e entrevistas concedidas, desde o final da década de 1950.
Glauber apoia-se em digressões de conjunto, partindo sempre de macroanálises do Brasil e da América Latina, apresentando pontos de contato com os teóricos do desenvolvimentismo. Um exemplo é Celso Furtado, autor que Glauber demonstrava grande simpatia, e cujo estudo sobre os ciclos econômicos brasileiros fora citado no filme O Dragão
da Maldade contra o Santo Guerreiro. Em uma carta para o jornalista Zuenir Ventura ele
confirma sua admiração pelo economista, onde afirma que Furtado “é a metáfora do terceiro mundo dragado pelo Wall Street Scout” (ROCHA, 1997, p.483).
Para compreender o subdesenvolvimento, termo caro à obra de Glauber, a teoria de Celso Furtado, coloca em relevo a questão da mão-de-obra como categoria fundamental para entender esse fenômeno social, exposto no livro Desenvolvimento e Subdesenvolvimento:
O subdesenvolvimento é (...) um processo histórico autônomo, e não uma etapa pela qual tenham, necessariamente, passado as economias que já alcançaram grau superior de desenvolvimento. Para captar essência do problema das atuais economias subdesenvolvidas necessário se torna levar em conta essa peculiaridade. Consideramos o caso típico de uma economia que recebe uma cunha capitalista, sob forma de atividade produtiva destinada à exportação (...). A intensidade do impacto desse núcleo na velha estrutura dependerá, fundamentalmente, da importância relativa da renda a que ele dê origem e que fique a disposição dentro da coletividade. Depende, portanto, do volume de mão-de-obra que absorve (…). O nível do salário real era e é determinado pelas condições de vida prevalecentes na região onde se instalam essas novas empresas, sem conexão precisa com a produtividade do trabalho (...) (FURTADO, 1963, p.18)
Os países subdesenvolvidos assim se caracterizariam, pela dificuldade em reverter os meios econômicos na geração de empregos; segundo Furtado, mesmo quando utilizassem plenamente do capital disponível, isso não seria condição suficiente para completa absorção da força de trabalho. Furtado, alerta para o fato de o Brasil apresentar uma estrutura econômica considerada capitalista já no século XIX, mas que isso não significava mudanças essenciais no modelo exportador em um primeiro momento. E, mesmo posteriormente, com a introdução da indústria no século XX não teria ocorrido mudança nas condições de pobreza da maior parte de população. Segundo Furtado o volume de mão-de-obra não alcançava grandes proporções como na Europa mesmo com a expansão econômica. Ele apontava no hibridismo econômico dos países subdesenvolvidos a origem desse problema, “um núcleo capitalista” passava a “coexistir” com outro “atrasado”, tendo como resultado perspectivas diferentes ao seu congênere europeu.
Na verdade era raro vermos o chamado núcleo capitalista modificar as condições estruturais preexistentes, pois, estas estavam ligadas à economia local apenas como elemento formador de uma massa de salários. Somente quando um tipo de empresa requereria a absorção de grande número de
assalariados é que o efeito da organização capitalista sobre a economia local assumia maior importância. (FURTADO, 1963, p.184)
Furtado enfatizava o aspecto social da economia e afirma que somente seria possível atingir o desenvolvimento quando o país fosse capaz de aumentar a produtividade e os seus produtos tivessem capilaridade em toda sociedade e em todo o sistema produtivo, o que permitiria incluir as classes trabalhadoras, incrementando assim a mão-de-obra, problema fundamental em seu ponto de vista. Entretanto, o autor defendia a introdução de novos fatores de produção e a combinação destes para impulsionar a economia e as benesses teriam provavelmente um encaminhamento social. Seguindo esse raciocínio, Furtado defendia a tecnologia como uma aquisição sinon qua non para o desenvolvimento brasileiro e que sua escassez nos chamados países subdesenvolvidos era um problema de grande monta.
O processo de desenvolvimento se realiza seja através de combinações novas dos fatores existentes, ao nível da técnica conhecida, seja através da introdução de inovações técnicas. Numa simplificação teórica se pode admitir como sendo plenamente desenvolvidas, num momento dado, aquelas regiões em que, não havendo desocupação de fatores, somente é possível aumentar a produtividade (a produção real per capita) introduzindo novas técnicas. Por outro lado, as regiões cuja produtividade aumenta ou poderia aumentar pela simples implantação das técnicas já conhecidas são consideradas em graus diversos de subdesenvolvimento (...). O crescimento das economias subdesenvolvidas é, sobretudo, um processo de assimilação prevalecente na época. (FURTADO,1963, p. 90)
Furtado ressalta, portanto, que não bastava investir na técnica, que serviria para impulsionar o desenvolvimento, era necessário o domínio sobre elas, como fonte de criação tecnológica. Para Furtado um país desenvolvido seria definido por uma região onde haveria grande aproveitamento da mão-de-obra e que a acumulação de novos conhecimentos científicos e de aplicação desse conhecimento fosse satisfatoriamente realizado, ao contrário do que ocorre nos chamados países subdesenvolvidos, pois estes quase sempre adquirem tecnologia de maneira dependente, a partir dos países ricos.
Furtado, portanto, acusa também a dependência como causa do subdesenvolvimento, para ele este é o resultado da “penetração de empresas capitalistas modernas em estruturas arcaicas” (1963, p.191), pois, não se constituía em um sistema de fato integrado, que além da coexistência de setores com alto grau tecnológico convivendo com outros tipificados como arcaicos, não havia autonomia para gerir os conhecimento produzidos, estando sempre dependentes de insumos tecnológicos externos.
O que se percebe é a completa imbricação entre os conceitos de “subdesenvolvimento” e de “dependência”. Eles foram amplamente utilizados pelo cineasta Glauber Rocha, para
descrever a realidade social brasileira e latino-americana, assim como o cinema destes países. Apesar de Glauber não se referir a Florestan, o fato dele repetir o conceito de dependência e de neocolonialismo, esse último cunhado pelo sociólogo, torna-se necessário compreende-lo a partir de seu formulador, para Florestan Fernandes, para ele a dependência é designado como um processo econômico e social impulsionado fundamentalmente por agentes externos:
As grandes fortunas, formadas internamente, pela exportação de produtos primários e pelo comércio importador, dissipavam-se, em parte, através do ônus do controle externo ou em gastos sibaríticos e de representação de status , as parcelas poupadas porém, encontravam pouca perspectiva de reinversão produtiva, dados a organização da economia agrícola e o ritmo da diferenciação da economia urbana. Por conseguinte aquelas fortunas se erigiram num fator de autonomização relativa do crescimento econômico interno (essa foi aliás, a sua principal função criadora). Mas nunca chegaram a eliminar os centros de decisão econômica externos nem substituir seus investimentos. No conjunto, pois, delineia-se toda uma situação específica dos povos de capitalismo dependente (FERNANDES, 2008, p. 45).
Para Florestan Fernandes a nova classe urbana que passa a se formar a partir do século XVIII, quando no Brasil aumenta lentamente a população das cidades e os fatos históricos como a transferência da corte portuguesa para o Brasil, a abolição da escravatura e a proclamação da república, abriram um processo, ao mesmo tempo de “modernização” em que instituições necessárias para adaptar o país às exigências do capitalismo internacional foram criadas, pois este mudara principalmente em virtude das revoluções industriais ocorridas da Europa.
Assim as estruturas econômicas sociais, constituídas sob a égide do sistema colonial permanecem mais ou menos intactas, ao lado das novas (...) criadas sob o impulso da expansão urbana e da implantação do setor capitalista correspondente, montado através de processos de modernização incentivados, orientados, e comercializados a partir de fora. Se se atentar bem para a natureza das evidências, a principal fase da acumulação originaria de capital, nas sociedades subdesenvolvidas, ocorreu neste intervalo, entre a emancipação nacional e a aceleração do crescimento econômico (...). Os seus efeitos se fazem sentir construtivamente, mas não na gestação de um padrão de desenvolvimento econômico. Este é absorvido pela inclusão no mercado mundial e através do processo de modernização, que converte a economia nacional emergente em núcleo dependente e satélite (...) (FERNANDES, 2008, p.44/45)
Tanto Florestan como Furtado compreendem que o maior significado do subdesenvolvimento é a de que nas condições existentes do capitalismo dependente do Brasil, o aumento de produtividade e o desenlace do “desenvolvimento”, não significariam melhoria nas condições de vida de grande parte da população como previa a teoria desenvolvimentista.
Florestan Fernandes considerava os países pobres incapazes de gerar um desenvolvimento integrado, compreendendo, sobretudo as classes menos favorecidas, pois sua condição heterônoma, híbrida, impedia utilizar da melhor maneira o aumento da produtividade. E isso ocorreu ainda mesmo no período da colonização e no subsequente, período de transição para uma economia primeiro “independente”, depois industrial.
O grande problema também visto por Furtado seria o da relação de submissão posta internacionalmente, logo o subdesenvolvimento somente deveria ser superado, segundo esse raciocínio, quando se colocasse termo a esta relação desigual, dentro ou mesmo fora da ordem constitucional, como considerava Florestan Fernandes.
Ao abordar a dependência Florestan Fernandes elabora também o conceito de “neocolonialismo” do mesmo modo utilizado por Glauber; para o sociólogo o neocolonialismo hodierno apresentava características próximas do sistema básico de colonização. Uma dominação externa ampla e com atuações indiretas seria o perfil do novo colonialismo, segundo Fernandes, os países latino-americanos seriam produtos da expansão da “civilização ocidental”, e sua dependência perpetuou-se mesmo depois da conquista da autonomia política com administrações legalmente constituídas
Para Florestan Fernandes a dependência, portanto, ganhava contornos mais complexos, ocorria de modo indireto, por meio da economia, os países da América Latina não tinham condições de resistir a sua incorporação aos países capitalistas hegemônicos de modo desvantajoso, pois grande parte dos lucros era auferida aos governos de países colonialistas ou de ex-colônia e aos Estados Unidos. A este tipo de organização econômica e social na América latina é o que define Florestan de neocolonialismo. Estes países davam manutenção aos países economicamente hegemônicos e se situavam em termos secundário no concerto do capitalismo internacional.
A par das distinções da economia da época colonial Florestan aponta elementos de domínio entre países que persistiram ao longo do desenvolvimento do capitalismo, mesmo estando muitas vezes relacionado, segundo seu ponto de vista, com a combinação de uma adequação fácil às exigências externas e a utilização de formas de produção “arcaicas”. E que no fundo produzem consequências sociais que demarcam a história econômica brasileira, assim conclui Fernandes: 1) Concentração de renda, 2) Coexistência de estruturas “modernas e arcaicas” e 3) Exclusão social de grande parcela da população.
Observa-se, portanto que Glauber, refere-se com frequência a conceitos tais como: subdesenvolvimento, neocolonialismo, dependência e identidade nacional, todos intensamente discutidos na sociologia brasileira da época.
Do mesmo modo algumas citações, ainda que parcas, das obras de Celso Furtado e Caio Prado Junior, surgem como material imprescindível para compreender como a reflexão do cineasta sobre a realidade social brasileira e do Terceiro Mundo estava inspirada na teoria social. A estética que procura o cineasta se desenvolve muitas vezes de modo paralelo às questões colocadas por esses autores, em um período no qual os debates travados na universidade exerciam influência sobre segmentos de intelectuais, artistas e militantes políticos.
Em um trecho de uma entrevista concedida a Gianni Menon para a revista Cinema B e
Filme em 1969, intitulado Subdesenvolvimento e Estrutura Cinematográfica publicado em Revolução do Cinema Novo, Glauber vê a sua aproximação do debate do desenvolvimento e
da dependência. Em uma entrevista concedia a Gianni Menon, Glauber aponta o problema central da América latina:
No nosso continente o problemas é o subdesenvolvimento: lutar para mudar as estruturas político-econômicas, querer passar do capitalismo ao socialismo, para nós quer dizer ter aceito a ideia de que o socialismo é um sistema mais eficaz na luta contra o subdesenvolvimento.(ROCHA,2004, p.160).
Glauber Rocha no início do trecho de seu depoimento afirma as diferenças vitais entre dois mundos: o desenvolvido e o subdesenvolvido. Deixa implícito as formas diferenciadas de capitalismo implantada em cada um deles, e por isso para os subdesenvolvidos a resposta deveria ser diferente assim como pensara os autores analisados acima. Além da perspectiva da superação do subdesenvolvimento como a meta principal a ser alcançado nos países, como elemento decisivo para extirpar os males da pobreza e miséria na América Latina, do mesmo modo Glauber, compartilha com Furtado a preocupação com a tecnologia associada ao desenvolvimento. No caso de Glauber, acresce-se à tecnologia o elemento cultural; interessante observar como a cadência do texto e até mesmo as expressões utilizadas por Glauber se aproximam do estilo de análise desenvolvimentista:
Para nós, subdesenvolvidos é o contrário: o objetivo primário é a eliminação do subdesenvolvimento, assim como em Cuba. Naturalmente colocar-se como problema fundamental o desenvolvimento econômico e tecnológico não significa esquecer o desenvolvimento cultural. (ROCHA, 2004, p.161)
O subdesenvolvimento tornou-se sinônimo do cinema realizado por Glauber Rocha, aparecendo enquanto uma das faces da identidade do Cinema Novo, a própria forma dos filmes denuncia essa condição, pois para o diretor a insuficiência técnica era um meio de
explicitá-la. “Câmaras e laboratórios de segunda qualidade, por consequência uma fotografia suja, um diálogo arrastado, ruídos, acidentes na montagem, as partes gráficas (genérico e legendas) sem clareza.”. (ROCHA, 1981, p.75). Esse cinema consente “lugar a uma sensibilidade fundamentada na simplicidade, na qual as desigualdades e os defeitos de imagem seriam vistos como consequência natural da pintura original das relações sociais” (FIGUEIROA, 2004, p.155).
Essa temática foi sistematizada posteriormente no livro Cinema: trajetória no
subdesenvolvimento de Paulo Emílio Sales Gomes, no qual estabelece o autor as relações
distintas de um filme realizado nos países ricos e os de origem subdesenvolvida, uma relação análoga àquela entre os países:
(...) cinema norte-americano, o japonês e, em geral, o europeu nunca foram subdesenvolvidos, ao passo que o hindu, o árabe ou o brasileiro nunca deixaram de ser. Em cinema o subdesenvolvimento não é uma etapa, um estágio, mas um estado: os filmes dos países desenvolvidos nunca passaram por essa situação, enquanto os outros tendem a se instalar nela. O cinema é incapaz de encontrar dentro de si próprio energias que lhe permitem escapar à condenação do subdesenvolvimento, mesmo quando uma conjuntura particularmente favorável suscita uma expansão na fabricação de filmes. (GOMES, 1996, p.85).
Glauber Rocha compartilhava essa ideia de cinema do subdesenvolvimento, comum aos demais integrantes do Cinema Novo e a outros cineastas da América Latina como o argentino Fernando Birri que assim explica a relação cinema/subdesenvolvimento:
El subdesarrolo es um dato de hecho para Latinoamérica, Argentina incluída. Es um dato econômico, estadístico. Palavra no inventada por la izquierda, organizaciones ‘oficiales’ internacionales (ONU) y de América Latina (OEA, CEPAL, ALALC) la usan habitualmnete em sus planes e informes. No han podido menos de usarla. Sus causas son también conocidas: colonialismo, de afuera y adentro. El cine de estos países participa de lãs características generales de esa superesctrutura, de esa sociedad, y la expresa com todas sus deformaciones. Da uma imagem falsa de esa sociedad, de esse pueblo, escamotea el pueblo: no da uma imagem de esse pueblo. (Apud AVELLAR,1995, p.41) 22.
O novo cinema da América Latina parecia fundamentar a sua identidade nas próprias condições de pobreza e de dependência econômica dos países latino-americanos, identidade
22
O subdesenvolvimento é um fato para a América Latina, Argentina incluída. È um dado econômico, estatístico. Palavra não inventada pela esquerda, organizações ‘oficiais’ internacionais (ONU) e da América Latina (OEA, CEPAL, ALALC) usam habitualmente em seus planejamentos e nos artigos. Não poderiam não usá-las. Suas causas são também conhecidas: colonialismo, de fora e de dentro. O cinema destes países participa das características gerais dessa superestturura desta sociedade, e a expressa com todas as suas deformações. Dá uma imagem falsa desta sociedade, desse povo, escamotea o povo: não a imagem desse povo.
ratificada de modo “oficial” no I Encontro de Cineastas Latino-americanos de Viña del Mar em 1967 no Chile. Em Glauber Rocha essa identidade aparecia no conteúdo, com os temas sociais; na precariedade da produção e nos diálogos/discursos que se opõem à dominação cultural estrangeira, considerada como neocolonialista, no sentido dado por Florestan Fernandes. Glauber Rocha no final da década de 1960 ao falar de Terra em Transe aproxima seu cinema da temática do subdesenvolvimento, preocupando-se com o “destino nacional” dos países da América Latina, diagnosticando e buscando soluções para os problemas sociais.
Terra em Transe é um filme sobre o que existe de grotesco, horroroso e
pobre na América Latina. Não é um filme de personagens positivos, não é um filme de heróis perfeitos, que trata do conflito, da miséria, da podridão do subdesenvolvido. Podridão mental, cultural, decadência que estão presentes tanto na direita quanto na esquerda. Porque nosso subdesenvolvimento, além de febres ideológicas, é de civilização, provocado por uma opressão econômica enorme. Então não podemos ter heróis positivos e definidos, não podemos adotar palavras de beleza, palavras ideais. Temos que afrontar nossa realidade com profunda dor, a miséria, isto é, o positivo é justamente o que se considera negativo. (ROCHA, 2004, p.172)
Já em 1965, no texto paradigmático Estética da Fome, apresentado na V Rassegna del
Cinema Latino-americano em Gênova, Glauber compila um documento no qual entrecruza
referências de estilos cinematográficos e de análises sociais que modelam a sua escrita vigorosa e descreve a estética para o cinema brasileiro e latino-americano, ou para o Terceiro Mundo.
No texto da Estética da Fome Glauber levanta o problema dos “colonialismos” assim como fazia Florestan Fernandes no mesmo período ao analisar a dependência brasileira, baseava-se no domínio das grandes empresas corporativas as quais eram apontadas com as principais responsáveis pelo neocolonialismo. É este problema social de dependência entre países que serve de esteio para a explanação sobre a realidade neocolonial do ponto de vista do diretor.
O primeiro parágrafo do manifesto coloca de imediato o conflito da América Latina com a Europa em um tom provocativo e de denúncia, Glauber analisa o referido conflito entre a cultura latino-americana e a “cultura civilizada”. O diretor em seus escritos e nos filmes deixa entrever que a política desenvolvimentista aplicada por governos como o de Juscelino